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CAPÍTULO 1 – REFERENCIAL TEÓRICO

1.1 As concepções de discurso

1.1.3 O texto como material de pesquisa – o discurso como significados

Em Analysing Discourse (2003), Fairclough reitera a concepção do discurso como um momento semiótico da prática social, constituído de gêneros, discursos e estilos. A proposta desse momento teórico-metodológico é ampliar a concepção de que a linguagem não somente possui funções – e estas tanto moldam como são moldadas por práticas sociais – mas também significam tais práticas. Dessa forma, o material empírico da linguagem, os textos

simultaneamente representam aspectos do mundo (do mundo físico, do mundo social e do mundo mental); ativam relações sociais entre participantes em eventos sociais e atitudes, desejos e valores dos participantes; e coerente e coesivamente conectam partes de textos

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conjuntamente, assim como conectam textos com seus contextos situacionais (HALLIDAY, 1994). Ou melhor, pessoas fazem isso na construção de significados nos eventos sociais que incluem a tessitura dos textos (FAIRCLOUGH, 2003, p. 27. Tradução e grifos nossos).

Entretanto a multifuncionalidade, materializada nas construções de significados que agentes sociais produzem na construção de seus textos, é discutida de maneira diferente de Halliday e Matthiessen (1994) em Fairclough (2003): como formas de agir, formas de representar e formas de ser. Dessa maneira, o autor desloca a predominância da função para a significação, já que, para ele, essas formas não apenas funcionam para algo como significam. Em outras palavras, a realidade social existe, pois a significamos.

Existem três principais tipos de significação: a ação, a representação e a identificação. A primeira está ligada aos gêneros; a segunda, aos discursos e a terceira, aos estilos. Para o autor, gêneros são formas relativamente estáveis de ação; discursos são formas relativamente estáveis de representação e estilos são formas relativamente estáveis de identificação. Assim, ao analisar os textos, é necessário tanto interconectar as três formas de significação – e como elas são realizadas dentro deles em termos linguísticos – como interconectá-las às redes de práticas sociais a que estão inseridas (FAIRCLOUGH, 2003). Os três tipos de significação são categorizados em Fairclough (2003) em três tipos de significados: o significado acional, o significado representacional e o significado identificacional.

O primeiro são formas de ação e interação social, ou seja, as maneiras como significamos a realidade através de nossas ações discursivas. É por essa razão que o significado acional está relacionado aos gêneros: são através deles que agimos na sociedade, a partir de formas relativamente estáveis de agir e interagir no mundo. Dessa maneira, “quando analisamos um texto ou interação em termos de gênero, estamos questionando como eles figuram e contribuem para a ação social e a interação nos eventos sociais” (FAIRCLOUGH, 2003, p.65). É importante frisar, também, que gêneros são construídos a partir de suas relações com as práticas sociais, ou seja, eles são moldados tanto por interesses particulares como são transformados por estes já que “são definidos pelas práticas sociais a eles relacionadas e pelas maneiras como tais práticas são articuladas, de tal modo que mudanças articulatórias em práticas sociais incluem mudanças nas formas de ação e interação” (RAMALHO e RESENDE, 2016, p.62).

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O segundo são formas de representação do mundo, ou seja, como significamos a realidade a partir de processos, participantes e circunstâncias, tendo como base, principalmente, o sistema de transitividade da Linguística Sistêmica Funcional (HALLIDAY, 1994). Os significados representacionais estão atrelados ao conceito de discurso, um dos momentos do momento semiótico da prática social (CHOULIARAKI e FAIRCLOUGH, 1999). O discurso em tal elemento diz sobre as representações do mundo vinculadas a (rede de) ordens do discurso que moldam e podem ser moldadas por aquelas. Os enunciados dos textos, como forma de representação, assim como qualquer unidade gramatical dos eventos sociais, são, então, uma “imposição de ordem nas infinitas variações e fluxos de eventos” (HALLIDAY, 1994, p. 170. Tradução nossa). Esse ordenamento é chamado de transitividade:

O sistema de transitividade interpreta o mundo da experiência dentro de um conjunto articulado de tipos de processos. Cada tipo de processo organiza seu próprio modelo ou esquema para interpretar um domínio particular da experiência como uma figura de uma forma particular [da realidade] (HALLIDAY, 1994, p.170. Tradução nossa).

Tal sistema tenta categorizar linguisticamente os momentos em que atores sociais expressam a sua experiência tanto exterior – o mundo material – quanto interior – o mundo da consciência – com o social. De acordo com Fuzer e Cabral (2014), a primeira constitui-se de ações, o que atores fazem ou levam outro a fazer enquanto a segunda, de “lembranças, reações, reflexões e estados de espírito que se verificam no nível da consciência” (FUZER e CABRAL, 2014, p.39).

Os elementos que constituem a transitividade são os processos que se desenrolam através do tempo, os participantes envolvidos nos processos e as circunstâncias associadas a estes. Eles se organizam para configurar a interpretação das experiências sobre o que acontece na vida social, e, por isso, “o conceito de processo, participante e circunstância são categorias semânticas que explicam de maneira geral como o fenômeno de nossa experiência do mundo é interpretado como estruturas linguísticas” (HALLIDAY, 1994, p.178. Tradução nossa). Dessa maneira, realizações lexicogramaticais (re)iteram representações do mundo através de grupos verbais, nominais e circunstanciais, trazendo, respectivamente, os tipos de processos, participantes e circunstâncias.

O significado representacional, como dito anteriormente, está ligado ao conceito de discursos que, nas palavras de Fairclough (2003) são “formas de representação de aspectos do mundo – os processos, as relações e estruturas do mundo material, do

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‘mundo mental’ dos pensamentos, sentimentos, crenças, etc, e do mundo social” (FAIRCLOUGH, 2003, p.124). Dessa forma, diferentes discursos estabelecem divergentes posições de quem os profere porque são distintas perspectivas de mundo. Eles podem, também, construir identidades e estabelecer relações sociais pois representações distintas da realidade revelam formas de ser e formas como agentes sociais mantem relações com outros, tanto na realidade concreta quanto em projeções de realidades:

Os diferentes discursos não apenas representam o mundo ‘concreto’, mas também projetam possibilidades diferentes de ‘realidade, ou seja, relacionam-se a projetos de mudança de mundo de acordo com perspectivas particulares. As reações estabelecidas entre diferentes discursos podem ser de diversos tipos (...) porque os discursos constituem parte do recurso utilizado por atores sociais para se relacionarem cooperando, competindo, dominando (RESENDE e RAMALHO, 2016, p.70-71).

O discurso como recurso para agentes sociais se relacionarem com outros nos mostra que a análise do significado representacional deve levar em conta não apenas aqueles discursos que são próprios do texto, o elemento mais visível da tessitura, mas também os de outros, que se relacionam de forma cooperativa, combativa, competitiva entre outras. Em outras palavras, textos misturam representações de mundo, então “seus [dos textos] ‘próprios’ discursos, são também frequentemente misturados ou híbridos” (FAIRCLOUGH, 2003, p.128).

A análise textual deve focalizar, então, tanto o elemento social que está representando como também a perspectiva particular da representação identificando, assim, os principais temas e seus pontos de vista (FAIRCLOUGH, 2003). Dessa maneira, os pontos de vista sobre o tema revelam as posições que agentes sociais estão e as redes de práticas sociais, estabelecendo a relação entre os elementos linguísticos e sociais dos significados representacionais. Isso demonstra que formas de representações de mundo – discursos – estão atreladas a construções sociais que instituições estabelecem e, portanto, a relações de poder que podem permanecer ou serem contestadas e transformadas:

Quando diferentes discursos entram em conflito e discursos particulares são contestados, o que é centralmente contestado é o poder desses sistemas semânticos pré-construídos de gerar visões particulares de mundo que podem ter o poder performativo de sustentar ou refazer o mundo a partir da sua imagem (FAIRCLOUGH, 2003, p.130).

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Dessa maneira, os significados representacionais e, portanto, os discursos, são formas de analisar como as representações do mundo são construídas, desconstruídas e ou reconstruídas e, assim, como visões de mundo carregam ideologias e relações de poder que se sustentam e legitimam práticas de marginalização.

Os estilos configuram formas de ser no mundo, ou seja, como nos identificamos e geramos identidades, a partir do nosso comprometimento, ou em outras palavras, na forma como modalizamos, atribuímos valores e metaforizamos os textos. O significado identificacional está ligado ao conceito de estilo, “o aspecto discursivo das identidades, ou seja, relacionam-se à identificação de atores sociais em textos” (RESENDE e RAMALHO, 2016, p.76). Para Fairclough (2003), a identidade, ou o que o sujeito é, está ligada a forma como os sujeitos falam, escrevem e, também, como a forma da corporeidade desses sujeitos é atribuída. A identidade está ligada ao processo de identificação, ou em outras palavras, ao processo que revela como os sujeitos se identificam e identificam outros nas práticas sociais que participam.

As identidades construídas nos textos não podem ser admitidas apenas como uma identidade social, pelo fato de serem ativamente construídas pelos sujeitos: “pessoas não são somente pré-posicionadas na forma como participam nos eventos sociais e nos textos, elas também são agentes sociais que fazem coisas, criam coisas, mudam coisas” (FAIRCLOUGH, 2003, p.160. Tradução nossa). Entretanto não são totalmente livres nos processos de identificação, pois estão dentro de rede de práticas sociais e rede de ordens discursivas que parcialmente constrangem os agentes sociais. Para o autor, a capacidade de gerar identidades capazes de transformar as estruturas sociais hegemônicas depende do poder de reflexividade dos agentes sociais, o que leva o conceito de agência como sendo discursivamente produzido.

Fairclough (2003) argumenta que os estilos são realizados linguisticamente de diversos modos como aspectos fonéticos do discurso, passando pela escolha do vocabulário, pela utilização de metáforas e pelas modalidades. O autor enfatiza o fato de estilos não serem totalmente aspectos discursivos: a linguagem corporal é elemento importante de sua produção, demonstrando os aspectos não discursivos do processo de identificação e produção de identidades. Isso leva a reconhecer “a natureza dialética da relação entre o mundo discursivo e o não-discursivo. Este internaliza aquele” (FAIRCLOUGH, 2003, p. 162).

Para a análise do corpus, o comprometimento dos autores é elemento importante. As modalidades epistêmicas – relacionadas ao comprometimento do autor

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com a verdade – (FAIRCLOUGH, 2003), estão relacionados a forma mais ou menos categórica dos enunciados em relação a troca de conhecimento. Dessa forma, a negação é uma forma categórica de comprometimento com a (in)verdade, ao passo que as modalizações é uma forma que afasta os autores da verdade, diminuindo a força e sendo menos categórica às assunções. As duas formas de comprometimento, então, geram estilos diferentes, promovendo diferentes identidades.

As modalidades deônticas – relacionadas ao comprometimento em relação à obrigação e necessidade – (FAIRCLOUGH, 2003) estão relacionadas como a forma mais ou menos categórica em relação a troca de atividades, ou seja, quando os autores demandam ou oferecem algo. Dessa forma, os imperativos são formas mais categóricas de demanda ao passo que a modalização, menos. De novo, formas diferentes de comprometimento geram estilos e identidades distintas, que podem acontecer, inclusive, ao mesmo tempo, em uma “hibridização” de identidades.

O objetivo de analisar criticamente os significados representacionais e identificacionais dessa dissertação permite descrever, interpretar e explanar os discursos iterados sobre corpos gordos femininos enfatizando as instituições e vozes que nelas estão inseridas ou invisibilidades bem como os estilos e as identidades que se formam quando mulheres gordas relatam sobre si – e outras. Os diferentes discursos e identidades podem revelar como corpos gordos são representados, reconfigurados e identificados de diferentes pontos de vistas, trazendo à tona possíveis relações assimétricas e possíveis reconstruções destas.

Na próxima seção serão apresentadas as teorias sociais que intercruzam às linguístico-discursivas: as discussões sobre o corpo a partir de Le Breton (2010), Bordo (1997) e Butler (2016); os Fat Studies com Harjunen (2009) e Rothblum (2009); os Relatos de Si de Bulter (2015) e as Identidades a partir de Castells (1999).