4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DE DADOS
4.2. Análise e discussão dos textos e das atividades de pré-leitura e leitura da seção
4.2.1. Texto 1 Why Should People Put Up with Life in the City?
O texto Why Should People Put Up with Life in the City? (Por que as pessoas deveriam suportar a vida na cidade?) (v. Anexo 2, p. 148) encontra-se na primeira unidade do livro Alive high: inglês, 3° ano: Ensino Médio e sua temática principal é a comparação entre a vida no campo e na cidade. Em termos de elementos visuais, ele apresenta imagens que descrevem a cidade e o campo de maneira dicotômica, concebendo, assim, ambas as esferas a partir de estereótipos, que retratam o campo como um lugar calmo, menos habitado e com muitas plantações, e a cidade como um lugar muito habitado e de trânsito intenso.
O texto analisado é um artigo da Topics-mag.com, que é uma revista on-line direcionada a aprendizes de inglês, e foi escrito por Sylvia Wang, uma de suas leitoras. Cabe salientar que todos os artigos dessa revista são produzidos por aprendizes de inglês de diferentes partes do mundo.
No que tange ao seu conteúdo, o texto, em principio, também apresenta as características comuns à cidade e ao campo de maneira dicotômica, concluindo que a única maneira de minimizar essas diferenças é por meio do uso da tecnologia, uma vez que o acesso à Internet permite que as pessoas vivam no campo e realizem, ao mesmo tempo, bons negócios e tenham carreiras de sucesso. Portanto, a ideia de que o trabalho no campo é
inferior e menos promissor quando comparado ao mundo do trabalho nos grandes centros urbanos é uma das questões que permeia o texto.
Ante a estereotipização do campo e da cidade apresentada pelo texto, as turmas pesquisadas discordaram de grande parte de suas ideias, porque elas não refletiram a sua realidade. Por exemplo, o retrato de uma cidade moderna com muita qualidade de vida foi uma ideia que somente caracterizou o contexto sociocultural apresentado pelo texto, não promovendo, assim, para o aluno-leitor participante uma identificação imediata com o texto. Outro ponto que serviu como objeto de discussão foi a delimitação contundente do conceito de campo e da cidade, haja vista que de acordo com a vivência e o contexto social dos alunos, ambos, apesar de diferentes, podem apresentar muitas características em comum.
Nesse sentido, apesar de o texto Why Should People Put Up with Life in the City? reivindicar-se como autêntico por ter sido extraído de um site da Internet e por apresentar ideias genuínas de um aprendiz de inglês sobre um determinado tema, ele não exerceu esse papel para as turmas pesquisadas. De acordo com Widdowson (1994, p. 385), a autenticidade de um texto se manifesta de maneira relevante quando ele está de acordo com o mundo esquemático e a realidade do leitor, abordando, assim, aspectos culturais, sociais, históricos e ideológicos condizentes com a vivência e experiências dele, e não somente quando o texto for extraído de um jornal ou da Internet.
No tocante às atividades de pré-leitura e leitura apresentadas a partir do texto analisado previamente, observamos que elas, em linhas gerais, procuraram seguir algumas premissas preconizadas pelas OCEM, como, por exemplo, o desenvolvimento da leitura crítica.
Na etapa de pré-leitura, que tem por objetivo ativar o conhecimento prévio relevante (sistêmico e esquemático) que o aluno possui, assim como encorajá-lo a levantar hipóteses sobre o texto (cf. AMORIM, 1997, p. 82), a atividade apresentada (v. Anexo 2) na primeira unidade procurou cumprir com esses objetivos por meio de perguntas que associaram a temática do texto à vivência do leitor. Ademais, existiu uma preocupação em alertar os alunos acerca da importância dos elementos paratextuais, a saber, o título, as imagens, informações sobre o autor, dentre outros (cf. MENEZES; BRAGA et al., 2013, p. 17) para que eles compreendessem antecipadamente o texto.
Em relação à etapa de leitura propriamente dita, observamos que a primeira atividade apresentada (v. Anexo 2, p. 148) serviu como introdução à leitura crítica, haja vista que ela
promoveu uma comparação entre as percepções do aluno-leitor e as do autor acerca do texto. Para Wallace (2003, p. 42) um dos objetivos da leitura crítica é justamente desafiar e romper com os esquemas apresentados pelo autor, fazendo com que o leitor tenha real participação na produção de significados.
Por outro lado, de acordo com o modelo de ensino de leitura crítica sugerido pelas OCEM, a primeira atividade de leitura, cujo foco esteve na investigação das intenções do autor e na relevância das percepções dos alunos acerca do texto, deveria ter sido concebida como base para níveis mais elevados de interpretação textual (cf. BRASIL, 2006, p. 117). Contudo, algumas das atividades de leitura que se seguiram após ela não cumpriram com essa premissa. Cabe também salientar que o trabalho voltado para a leitura crítica na primeira atividade foi apresentado pelo LD de forma bastante concisa. Portanto, caberia ao professor propor outras questões, caso ele quisesse expandi-lo.
Conforme Marcuschi (2008, p. 270), as atividades de leitura superficial ainda predominam nos LDs, e análises recentes sobre esse tema revelam que as mudanças têm sido mínimas. Segundo Pinto & Pessoa (2009, p. 82), o problema reside na natureza sistemática das atividades de compreensão textual geralmente apresentadas nos LDs. Para as autoras citadas, a compreensão promovida por muitos deles resume-se à extração de conteúdos do texto12.
No que tange às demais atividades de leitura da seção Let’s read! da primeira unidade (v. Anexo 2, p. 149) , pudemos observar que elas não se resumem a atividades voltadas aos aspectos sistêmicos do texto, mas, é mister ressaltar que grande parte delas está atrelada à superfície textual, e por conseguinte, não promovem reflexão crítica. Por exemplo, a segunda atividade pode ser classificada como uma questão de múltipla escolha que explora o significado do verbo put up with (tolerar, suportar) de acordo com o título do texto, e as terceira, quarta, sexta e sétima atividades são questões objetivas, ou seja, são “perguntas que indagam objetivamente sobre conteúdos inscritos no texto (o quê, quem, como, quando, etc.), atividade que exige apenas decodificação, pois a resposta está centrada no texto.” (PINTO & PESSOA, 2009, p. 84).
12 Pinto & Pessoa (2009) analisaram as atividades de compreensão propostas por alguns livros didáticos de
língua inglesa com base nas tipologias para a análise do LD elaboradas por Marcuschi (2001 apud PINTO & PESSOA, 2009); por Coracini (1999 apud PINTO & PESSOA, 2009); por Widdowson (1991 apud PINTO & PESSOA, 2009); entre outros.
É interessante também observar que além das questões mencionadas, a sugestão de expansão da sétima atividade permanece enfocando os aspectos linguísticos do texto. Em linhas gerais, nessa atividade, o professor teria que explorar com seus alunos a marca linguística que a autora do texto utilizou para concluir seu ponto de vista. Na sequência, os alunos teriam que apresentar expressões sinônimas em português a utilizada pela autora do texto. Apesar de ser uma atividade que desenvolve no aluno um olhar mais atento à superfície textual, ela não promove engajamento discursivo.
Já a quinta atividade, que não foi mencionada na sequência acima por não se tratar de uma questão objetiva, continuou a enfatizar a superfície textual por meio de um exercício de associação entre imagens do texto e frases retiradas dele também.
Quanto à oitava atividade (v. Anexo 2, p. 149), pudemos observar que ela foi uma questão de múltipla-escolha de cunho subjetivo, pois as respostas ficaram por conta dos alunos e não houve como testá-las em sua avaliação (cf. PINTO & PESSOA, 2009, p. 84). Além disso, as opções apresentadas nessa questão foram difíceis de serem escolhidas pelos alunos, porque a maioria não conseguiu definir de forma plena o lugar onde morava (campo ou cidade). Todos residem em um bairro que ainda possui muitas características rurais, apesar de fazer parte de um município que tem muitas características urbanas. Sendo assim, grande parte dos alunos optou pela questão C por apresentar uma resposta indefinida.
Portanto, ao analisarmos as atividades de leitura da primeira unidade, constatamos que apesar de haver uma preocupação com o desenvolvimento discursivo dos alunos no início da etapa de leitura, ainda existe uma predominância de atividades voltadas à superfície textual ao longo das outras atividades dessa etapa. Em outras palavras, com base na tipologia dos exercícios de compreensão em LE (PINTO & PESSOA, 2009), concluímos que as atividades de leitura desenvolvidas a partir do texto Why Should People Put Up with Life in the City? são em sua maioria objetivas e, por conseguinte, auxiliam mais o aluno a decodificar o texto do que a desenvolver uma postura crítico-reflexiva por meio dele.