Introdução
O presente capítulo é composto por textos publicados nos séculos XVIII – XIX e
dedicados à imagem de Moscou e à sua oposição a então capital, São Petersburgo. A
escolha do período que engloba o final do século XVIII até o final do século XX não é
ocasional, pois foi nesse período que as relações controversas entre as duas cidades se
intensificaram mais do que nunca. Uma das consequências inevitáveis da europeização
da Rússia iniciada por Pedro, o Grande foi a questão do caminho que o país deveria
tomar: imitar a Europa ou buscar a autenticidade nacional. Nessa discussão, Moscou
passou a representar o tradicional e costumeiro, enquanto São Petersburgo se tornou o
símbolo de alheio e estrangeiro.
Os ensaios, traduzidos e apresentados nesse capítulo, representam apenas uma
parte de um volumoso corpo de textos dedicados às relações entre Moscou e
Petersburgo. Aliás, são poucos os textos que mencionam somente Moscou sem
mencionar a capital do Norte, como acontece, por exemplo, no ensaio de Mikhail
Liérmontov. Esse fato serve como mais uma prova de que os textos das duas capitais
não podem ser analisados separadamente por serem, na verdade, dois lados da mesma
cultura, opostos, porém interligados.
A escolha dos textos a serem traduzidos foi baseada na abrangência com a qual
os autores apresentados abordam o tema, bem como na presença, em seus ensaios, dos
O primeiro e o mais antigo dos textos inseridos nesse capítulo, formalmente,
não é um ensaio e sim carta direcionada à então Imperatriz Ekaterina II. O seu autor, o
príncipe Mikhail Mikháilovitch Scherbátov (1733 – 1790) destacou-se como filósofo,
sociólogo, economista, historiador e também escritor. Tornou-se conhecido como autor
do panfleto “Sobre danificação dos costumes na Rússia” (O povrejdiénii nrávov v
Rossii), de 1786-1789, que criticava a situação política e cultural do país. De certa
forma, a “Petição de Moscou referente ao seu esquecimento”, de 1787, também é uma
crítica, inclusive bastante ousada, pois é dirigida diretamente à monarca: de acordo com
Scherbátov, o “esquecimento” de Moscou em favor da nova capital é um grande erro
político e histórico que pode trazer sérias conseqüências.
O segundo ensaio foi escrito pelo famoso poeta e escritor russo Mikhail
Liérmontov (1814 - 1841) quando ele ainda estudava na Escola de Sargentos e Cadetes.
É incrível como esse jovem de 20 anos conseguiu reunir, em um pequeno trabalho
estudantil, os principais elementos do texto de Moscou: as referências “romanas”, o
Krémlin como santuário, a sua sacralidade.
As “Notas petesrburguesas de 1836” de Nikolai Gógol não podiam deixar de
fazer parte do presente trabalho uma vez que são sempre citadas no tocante à oposição
entre Moscou e São Petersburgo, principalmente a sua famosa frase de que “a Rússia
precisa de Moscou; Petersburgo precisa da Rússia”.
O ensaio de M. N. Zagóskin “Dois caracteres. Irmão e Irmã” (1841) aborda o
tema que também é apresentado no ensaio de Gógol: o caráter feminino que a cidade de
Moscou adquiriu para a cultura russa e, consequentemente, os traços masculinos de São
Petersburgo. Mikhail Nikoláevitch Zagóskin (1789-1852) ficou conhecido como autor
do romance histórico Iúri Miloslávski, ou os Russos no ano 1612 (Iúri Miloslávski ili
Aleksandr Hertzen e Vissarion Belínski estão, sem dúvida, entre os mais
importantes autores a escreverem sobre a cultura e a literatura russa do século XIX. O
filósofo, sociólogo, jornalista e escritor Aleksandr Hertzen (1812-1870) não só nasceu
em Moscou como também foi estudante da Universidade de Moscou sobre a qual
escreveu em sua obra central: as memórias O passado e os pensamentos (Bylóie i dumy)
de 1855 – 1866. O ensaio “Moscou e Petersburgo” de 1842, (complementado por
trechos do conto “Estação Edrovo” de 1846) ganhou fama bem antes de ser publicado,
em 1852: ele circulava em cópias manuscritas e fazia um enorme sucesso. Já no título
do artigo “Petersburgo e Moscou” de Vissarion Belínski (1844) os nomes das cidades
mudam de lugar e isso acontece não por acaso. Belínski conhecia o ensaio de Hertzen e
polemizava com ele, por exemplo, em relação à afirmação de que São Petersburgo é
uma cidade sem história:
É de costume pensar em Petersburgo como uma cidade que não foi construída sequer no pântano e sim quase que no ar. Muitos, ironizando, afirmam que é uma cidade sem sacralidade histórica, sem lendas, sem ligação com o país natal, cidade construída sobre estacas e cálculos. 261
O ensaio de Belínski fazia parte da coletânea Fisiologia de Petersburgo
(Fiziológuia Peterburga), publicada em Petersburgo em 1845, que foi recebido como
uma espécie de manifesto da escola natural russa. Além disso, Hertzen e Belínski
participaram, de forma ativa, na discussão entre os eslavófilos e ocidentalistas
defendendo o lado ocidentalista.
261 BELÍNSKI, V. Petersburgo e Moscou (Peterburg i Moskvá). In: Pro et Contra Moscou – Petersburgo
Dessa forma, julgamos os textos apresentados abaixo como os que melhor
enfocam a cidade de Moscou e a sua relação com São Petersburgo. Porém, o volume de
trabalhos dedicados a esse assunto é muito maior, o que abre caminho para futuras
M.M. Scherbátov
Petição de Moscou referente ao seu esquecimento262
(1787)
Benevolentíssima Soberana!
A antiguíssima cidade do reino, e posterior Império Russo, prostra-se aos pés
dos seus soberanos para que seja retirada do esquecimento de oitenta e quatro anos e
renovada pela benevolência dos mesmos, e a sua cabeça encoberta de cabelos grisalhos
que se alegrem com as memórias dos seus antigos méritos!
Vendo o esquecimento tão duradouro ao qual estou sujeita, refleti sobre o meu
estado antigo e ouso apresentar, diante dos olhos monárquicos, a história dos meus
méritos e da fidelidade, bem como da minha utilidade, para que não seja apagado pelos
séculos o meu zelo pelos soberanos da Rússia, e, se isso não me retirar do esquecimento
e abandono, que este papel seja pelo menos testemunha de que eu, na minha tristeza,
soltei uma voz enfermiça, mas que o meu fardo infeliz superou tanto a utilidade quanto
os méritos e a misericórdia.
Calo-me sobre o meu início, oculto pela escuridão dos séculos (...), de que a
cidade que, após a devastação de Vladímir263, foi escolhida, 429 anos atrás, pelo grande príncipe Ioann Danílovitch264
262 Texto de acordo com a edição: Obras do príncipe M.M. Scherbátov. (Sotchiniénia kniázia
Scherbátova). Volume 2. São Petersburgo, 1898. P. 54-63.
, para ser seu reino. Não fui eu a primeira a levantar a
cabeça contra os devastadores e conquistadores da Rússia, ou seja, os tártaros? Não foi
263Principal cidade do nordeste da Rússia nos séculos XIII e XIV, Vladímir foi devastada várias vezes
pelas hordas de mongóis. Com o crescimento de Moscou, aos poucos ela se tornou uma cidade provinciana.
264 Grão Príncipe Ioann Danílovitch, também chamado de Ivan I Kalitá (1304 - 1340): príncipe de
das minhas profundezas que saíra com seu exército o grão príncipe Dmítri Donskói265 para destruir a força de Mamai? Não fui eu que sofri a dura devastação nos tempos do
mesmo príncipe por parte do malévolo Tokhtamysh266. Minhas muralhas repletas de cadáveres, prédios queimados e toda a terra ensangüentada com o sangue dos meus
cidadãos: não são sinais do meu zelo. Não foi das minhas muralhas que saiu esse
exército vitorioso que agregou Odóiev, Koziélsk, Mojáisk, Viázma, Belióv, Vorotýnok
e Smolensk ao Estado Russo? Não fora das minhas muralhas que saíram aqueles
exércitos os quais, na guerra intestina, incendiada pelo príncipe Andrei Vassílievitch267, desfizeram a sua vanglória e afirmaram o trono do Tsar, o menor Ioann
Vassílievitch268? Das minhas muralhas posteriormente saíram exércitos que conquistaram Kazan, Ástrakhan e Viátka; Velíki Nóvgorod e Pskov, que usufruíam das
suas liberdades, tiveram que se render a mim, e os seus sinos de viétche trazidos para
dentro das minhas muralhas e colocados nas minhas seteiras são sinais da minha
fidelidade. A força de Devlet Giray269 cercou as minhas muralhas e os meus subúrbios queimou; morreram aqui os meus filhos renomados, mas minha fidelidade não foi
abalada, e após tudo isso tive o prazer de ver das minhas seteiras a derrota de Devlet
Giray em Molodi, onde um dos meus filhos queridos, o príncipe Vorotýnski270
265 Grão Príncipe de Moscou (1359) e de Vladímir (1362), filho de Ivan II. Recebeu seu epíteto após a
batalha de Kulikóvo em 1380.
, cobriu-
se de glória. Ergueram-se depois das minhas muralhas os exércitos – conquistaram
Pólotsk, parte da Lituânia e Livônia, embora, com a mudança da sorte, a Rússia tenha
perdido essas suas conquistas, mas a minha fidelidade para com os meus tsares servia de
266 Tokhtamysh (? – 1405). Khan do Canato de Horda de Ouro organizou a campanha contra as terras
russas em 1308.
267 Príncipe Andrei Vassílievitch: príncipe de Úglitch, irmão de Ivan III.
268 Ioann Vassílievitch, também conhecido como Ivan, o Terrível (1540 – 1584): tsar russo a partir de
1547.
269 Khan de Horda de Ouro.
270 Príncipe Vorotýnski, Mikhail Vassílievitch (1510-1572): boiardo e chefe militar. Em 1572 derrotou os