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6 O INÍCIO DO CURSO: EIXOS TEMÁTICOS

6.2 Textos culturais para falar de sexualidades

No segundo encontro, devido a um evento realizado pela Secretaria Municipal de Educação e destinado aos professores e professoras das escolas públicas municipais, tivemos a participação de treze pessoas. A coordenadora da escola, em uma ação que, considero de interesse e compromisso com a pesquisa realizada na escola e até mesmo percebendo o movimento do primeiro encontro, justificou que não foi possível desmarcar a tempo o encontro, visto que, o evento municipal, foi avisado em “cima da hora”. No entanto, segundo relatos da coordenadora, esta ligou para a secretária de educação municipal, explicou a situação de coincidência dos dois eventos e a secretária permitiu que parte dos/as funcionários/as participasse do segundo encontro do Curso de EPS.

Considerando que é objetivo desta pesquisa, observar e analisar as (im)possibilidades de inserção e fluidez de uma EPS, busquei problematizar as condutas destas duas profissionais, visto que, o não interesse das gestoras educacionais pelas temáticas que envolvem as sexualidades, pode evidenciar um entrave que (im)possibilita que as discussões sobre sexualidades sejam priorizadas dentro das escolas. Contudo, o que percebi foi a dinamicidade e o interesse da coordenadora que ao ligar para sua superior, demonstra resistência e subverte condutas de submissão e prioridades, demonstrando a importância e a necessidade do curso de EPS que fora previamente agendado e, portanto, não poderia ser desmarcado.

A atitude da secretária municipal de educação também é bastante pertinente para pensarmos que as iniciativas de reconhecimento e apoio pelas/os dirigentes de políticas públicas são fortes aliados para a diminuição de desrespeitos e injustiças ocorridos dentro da escola, visto que, a escola não pode e não deve se manter estranha ao processo de aprendizagem de seus alunos e alunas, inclusive no que se refere às questões das sexualidades.

O texto elencado pelos/as cursistas para subsidiar este segundo encontro foi “Entre Marias e Preciosas: textos culturais, gênero e violência sexual”, de Lívia Monique de Castro Faria e Alessandro Garcia Paulino (2012 p. 355).

As cursistas presentes estavam empolgadas com as descobertas que estavam ocorrendo. Segundo elas, a proposição e o desenvolvimento do curso de

EPS eram pertinentes devido às defasagens percebidas na escola: drogas, miséria, falta de informação entre outras. (DBP). Relataram que depois do

primeiro encontro ficaram a pensar sobre as diversas possibilidades que as cercavam e faziam elogios ao livro “Tecendo...” como na fala a seguir:

“Durante a leitura do livro, foi possível observar a importância de se falar sobre o tema sexualidade na educação infantil. Esse livro nos trouxe situações que foram vividas no dia a dia de pessoas, que se preocupam com seus alunos e nos ajudam também a conduzir certas situações. É essa proposta que faz esse livro ser tão instigante e nos apresentar meios para algumas situações inusitadas” (DBCL).

É preciso analisar, por meio desta fala da cursita L, a necessidade e a urgência de propor às escolas, outras maneiras de pensar as sexualidades, dando oportunidades de acessos para diferentes discussões, problematizações e reconstruções de ideias e posturas.

Há hoje uma diversidade de possibilidades teóricas para pensarmos e repensarmos a escola e as problemáticas que surgem em seu meio, da mesma forma, as abordagens devem ser abrangentes, considerando as sexualidades em toda a sua dimensão humana, em um processo contínuo.

Este segundo encontro também foi marcado pelas discussões realizadas a partir de uma atividade em que propus que as/os cursistas escrevessem o que é, segundo suas vivências, “PERMITIDO”, e o que “NÃO É PERMITIDO” dentro das escolas, quando o assunto são as sexualidades.

É preciso nos ater ao que diz Rago (1999, p. 9-10), quando faz um alerta sobre a escola e seu histórico de ocultações. A autora descreve que as crianças continuam a aprender o silêncio sobre assuntos tabus, como masturbação, virgindade, relação sexual, homossexualidade, enquanto o aborto ainda é profundamente condenado e penalizado. As escolas relutam em introduzir e discutir assuntos referentes às sexualidades, continuando a manifestarem comportamentos retrógrados em relação aos alunos e alunas.

De acordo com as descrições das/os cursistas, verifiquei que é

“PERMITIDO” “ser livre”, “ser autônomo”, “ser diferente”, “ter

esclarecimento”, “possibilitar”, “quebrar tabus” e, ainda, “formação continuada sempre, para saber lidar com as situações”, dentre outras mais.

Assim, estas escritas, sugerem que tais sujeitos estão cientes das responsabilidades da escola no que tange às questões das sexualidades e, também, sinalizam a importância de encontros que possibilitem a troca e o surgimento de novos conhecimentos, contudo, evidenciam outras problemáticas, pois, apesar de tais sinalizações, a escola ainda silencia e reproduz concepções biologicistas, que reafirmam normas heterossexuais e reforçam comportamentos sexistas24 e homofóbicos25.

24 Sexismo é a tendência a inferiorizar as mulheres. O sexismo manifesta-se tanto em

Ao mesmo tempo em que algumas palavras escritas no que é

“PERMITIDO” evidenciaram transformações significativas dentro das escolas, ao responderem o que “NÃO É PERMITIDO”, verifiquei que temos muito, ainda, a caminhar visto que, dentre as descrições para o “NÃO PERMITIDO” estão: “imagens eróticas”, “beijo na boca”, “homossexualismo” e, ainda, “não

humilhar as pessoas diferentes, pois, julgar cabe somente a Deus”.

Diante das descrições acima fica, também, evidenciado situações de repressão e preconceito que ainda transitam pelas escolas. Os/as professores/as, bem como, a equipe escolar, não se dão conta de quão violentas são as verdades construídas no cotidiano. Não perceber, não se atentar, ou ser indiferente são formas de reforçar medos e promover ações discriminatórias na escola, pois, é nossa função perscrutar as possibilidades de que dispomos para reconhecer e elucidar as vivências e experiências das sexualidades, promovendo uma sociedade que se alforrie de preconceitos e contenções. A escola, que deveria primar pela inclusão e pela educação para a diversidade, torna-se assim um espaço ameaçador e excludente para muitos/as alunos/as, que são levados/as, muitas vezes, a abandoná-la (LOURO, 1997; RIBEIRO, 2007).

discursivas que expressam visões que tendem a inferiorizá-las. SILVA, Tomaz Tadeu da. Teoria cultural e educação – um vocabulário crítico. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. 128 p.

25 Termo usado para se referir ao desprezo e ao ódio às pessoas com orientação sexual

diferente da heterossexual. Gênero e Diversidade na Escola: formação de professoras/es em Gênero, Orientação Sexual e Relações Étnico-Raciais. Livro de conteúdo. Versão 2009. Rio de Janeiro: CEPESC; Brasília: SPM, 266 p. 2009.

Figura 8 “PERMITIDO”

Fonte: Foto tirada pelo pesquisador (2013).

Figura 9 “NÃO PERMITIDO”