2. O MUNDO DA ARTE
2.5 THE ART WORLD REVISITED: COMEDIES OF SIMILARITY
Com a repercussão do The Artworld e das novas teorias de arte que se apresentaram, notadamente no ambiente filosófico anglo-americano, Arthur Danto publicou, em 1992, o artigo The Art World Revisited: Comedies of Similarity17. O objetivo do filósofo neste artigo
é aprofundar sua teoria apresentada no The Artworld, afastando-a da Teoria Institucional da Arte. Não obstante o Mundo da Arte de Danto permanecer composto por elementos externos ao sujeito e pelas teorias artísticas e da história da arte, neste novo artigo Danto reafirma o conceito como “o mundo historicamente ordenado das obras de arte, emancipadas [enfranchised] por teorias que são, elas mesmas, historicamente ordenadas” (SILVEIRA, 2010, p. 48).
Em The Art World Revisited: Comedies of Similarity, Danto também enfatiza os aspectos de sua teoria do Mundo da Arte com o objetivo de esclarecer que o teor de sua tese é muito distinto ao foco da Teoria Institucional da Arte de George Dickie. Nesse contexto, Danto ressalta que, o termo Mundo da Arte utilizado por Dickie seria referente apenas ao corpo de especialistas que confere o estatuto de candidato à apreciação ao objeto, funcionando a exemplo de uma instituição social que prevê normas e padrões para seus integrantes.
Danto afirma ainda que a teoria de Dickie implica um tipo de “elite dotada de autoridade [empowering elite] que a assemelharia à Teoria Não Cognitivista do Discurso Moral” (DANTO apud SILVEIRA, 2010, p. 48). Destaca-se que a Teoria Não Cognitivista do Discurso Moral prevê a emissão de juízos que expressam apenas as atitudes de aprovação e de desaprovação, ou mesmo, expressão de desejo de quem os emite. Em outros termos, essa teoria privilegia juízos de gosto, ressaltando o caráter subjetivo para justificar sua aplicação. Para Danto, pelo menos neste artigo, torna-se fundamental que a faculdade do juízo seja um elemento passível de verdade e falsidade. No artigo The Art World Revisited: Comedies of Similarity, segundo Silveira, Danto ressalta dois principais pontos que distanciam sua teoria da teoria de Dickie:
Danto apresenta dois argumentos principais para afastar seu conceito de Mundo da
Arte da Teoria Institucional da Arte de Dickie. O primeiro, acentua o caráter
cognitivista de sua própria teoria de modo a afastá-la da sombra dos meros decretos proferidos por integrantes do ‘Mundo da Arte’ e, no segundo, como consequência,
17 O artigo será citado conforme a tradução da Profª Drª Cristiane Silveira utilizada em sua Dissertação de
Mestrado em Filosofia, pela Universidade Federal do Paraná, no ano de 2010, intitulada: “THE ARTWORLD”: A natureza teórica da arte na reflexão filosófica de Arthur C. Danto.
defende que há um tipo adequado de interpretação que constitui objetos como obras de arte, caracterizada pela objetividade e pela produção de inferências históricas18.
(SILVEIRA, 2010, p. 46-50)
Para Arthur Danto, uma obra de arte depende de um conjunto cognitivo que constitui determinado objeto como tal. Nesse sentido, Danto ressalta que nada pode ser considerado uma obra de arte se não estiver contido nesse sistema de fundamentação, nesse Mundo da Arte: “Uma distinção deve ser feita entre ter razões para crer que algo seja uma obra de arte e algo que se constitua como uma obra de arte de modo contingente às razões para que o seja”. (DANTO apud SILVEIRA, 2010, p. 102).
O autor ilustra seu pensamento citando como exemplo o suposto fato de que o diretor de um museu nacional teria dito que alguma coisa é arte como uma razão para crer que ela o seja, simplesmente pela posição ocupada por diretores nas estruturas de especialização. Entretanto, afirma Danto, “a sua declaração de que aquela é uma obra de arte não é uma razão para que ela o seja”. Prossegue o autor, “ser uma obra de arte é dependente de algum conjunto de razões, e nada pode ser uma obra de arte fora do sistema de razões que deu a ela aquele estatuto” (DANTO apud SILVEIRA, 2010, p. 110).
A verdadeira essência do Mundo da Arte de Danto passa a ser o que ele denomina ‘discurso de razões’, ou seja, um sistema fundado em causas que se referem ao momento artístico-histórico em que cada obra de arte surge em vista de todas as demais obras de arte já produzidas e das teorias artísticas que delas são inseparáveis. Esse sistema contextual abrangente, que une teoria e história da arte, é que constitui determinado objeto como obra de arte de acordo com seu contexto. (SILVEIRA, 2010, p. 105).
Nesse sentido, no artigo The Art World Revisited: Comedies of Similarity, Danto ressalta principalmente que “o Mundo da Arte de sua teoria pode ser considerado como um discurso de razões institucionalizado, um sistema que articula obras de arte e teorias artísticas”. (Silveira, 2010, p. 105). A estrutura de justificação desse sistema proposta por Danto, e que distingue sua teoria em relação à Teoria Institucional de George Dickie, consiste num encadeamento de questões fundamentais elencadas no campo da história e das teorias da arte que contextualizam as próprias obras. O Mundo da Arte de Danto é condição necessária para definir um objeto como obra de arte.
Assim como o The Artworld tornou-se um texto clássico para a Estética e para a Filosofia da Arte, Danto desenvolveu e aprofundou sua teoria epistemológica sobre o Mundo
18 Extrato do artigo O Mundo da Arte, de Arthur C. Danto, à luz da Teoria Institucional da Arte, da Prof. Doutora
Cristiane Silveira, apresentado no 7º Seminário de Pesquisa em Artes da Faculdade de Artes do Paraná, Curitiba, p. 46-50, jun., 2012.
da Arte visando apresentar uma solução hermenêutica para a questão da natureza da arte, em várias obras. No próximo capítulo iremos transitar por algumas de suas obras para enfatizar como sua teoria do Mundo da Arte conseguiu solucionar, pelo menos parcialmente, a questão do estatuto da arte.