POÉTICAS DA MEMÓRIA E DA HISTÓRIA NA DIÁSPORA – O CINEMA DE JOHN
THE STUART HALL PROJECT: UM PROJETO EM CURSO
Para analisar The Stuart Hall Project (2013), talvez seja importan- te resgatar, mesmo que muito rapidamente, as conexões do pensa- mento de Stuart Hall (1932-2014) com o cinema e a cultura de modo geral a partir da segunda metade do século XX. Considerado um dos pais fundadores dos Estudos Culturais, corrente teórica que redi- mensionou o papel da raça, classe e gênero na análise de cultura e incluiu o poder e a política como bases fundamentais para o deba- te estético, Hall foi um dos mais importantes críticos e teóricos da Grã-Bretanha numa escala midiática e com uma real ascendência nas formações culturais propriamente ditas.
Há de se frisar a especificidade do impacto intelectual na própria maneira de se pensar, entender e fazer cinema no país (e no mun- do). Embora Stuart Hall não tenha sido um teórico do cinema stricto
sensu, talvez tenha sido um dos principais emblemas de um período
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Primeiro porque, de fato, ele foi um pioneiro dos estudos fílmicos na Grã-Bretanha – país que estabeleceu uma tradição singular no pen- samento sobre cinema, sempre marcada pela história, sempre colo- cando a matéria fílmica em diálogo com seus contextos de produção. Sua obra abriu caminhos para muitos “teóricos do cinema” que não se encaixavam perfeitamente nos modelos estabelecidos pela análise fílmica e pela crítica imanente. Mas, principalmente, seus trabalhos e sua figura pública instigaram as práticas e escolhas temáticas e es- téticas de um número grande de cineastas, principalmente aqueles mais próximos a questões étnicas, diaspóricas e minoritárias no ci- nema britânico.
Hall sempre esteve empenhado em trazer à tona o conceito de cinema como prática enunciativa e delinear o problema da diáspora como ponto estratégico para a compreensão do discurso cinemato- gráfico, sobretudo o do cinema periférico. Em lugar de particularizar filmes e cineastas para fornecer análises fílmicas ou de usar os fil- mes para ilustrar sua argumentação teórica, ele propunha um diálo- go mais geral entre o tema da identidade cultural e a representação cinematográfica, uma espécie de moldura teórica que ajuda a pensar não somente a forma fílmica, mas as formas culturais como um todo. Desde sua longa colaboração com o British Film Institute, onde publicou, entre vários trabalhos, um dos primeiros estudos acadê- micos do cinema como entretenimento (junto com Paddy Whannel), deu cursos e palestras, além de ter várias de suas pesquisas tanto da Universidade de Birmingham, como da Open University, financiadas pelo instituto. Hall escreveu e/ou colaborou com mais de 20 roteiros de documentários e séries de televisão, e em muitos deles participou
também como apresentador ou locutor. Foi uma presença constante na mídia televisiva também dando entrevistas, aparecendo em deba- tes e comentando em telejornais.
Porém, para entrar mais precisamente em The Stuart Hall Project, é inescapável falar também da influência que Hall teve no Black Au- dio Film Collective e na obra de Akomfrah:
Stuart Hall era uma espécie de estrela de rock para nós. Para mui- tos de minha geração nos anos 70, ele era uma das poucas pessoas de cor que víamos na televisão que não estava cantando, dançan- do ou correndo. Sua presença muito icônica nesta mais pública das plataformas sugeriu todos os tipos de possibilidades ‘impossíveis’ (Akomfrah in Clark, 2013).
Nem Akomfrah individualmente, nem o coletivo chegaram a es- tabelecer vínculos explícitos (no sentido de colaborações muito di- retas) com Hall, mas sempre foi evidente no trabalho de todos eles e sobretudo de Akomfrah uma enorme proximidade teórica e temática, algo que seria absorvido na própria malha dos seus filmes (que foram comentados entusiasticamente por Hall, vale ressaltar). Após a dis- solução do grupo, em 2012, os elos seriam explicitados e desenvolvi- dos: Akomfrah fez The Unfinished Conversation, instalação montada com três telas simultâneas nas quais se desenrolava “a história” de Hall por meio de depoimentos do próprio teórico, da música de Miles Davis, de fotografias de família, paisagens caribenhas e britânicas, arquivos de áudio e vídeo, ou seja, um material selecionado a partir de oitocentas horas de arquivos.
Tecida pelo entrecruzamento da memória pessoal e coletiva, his- tórias nacionais e imagens de negritude, a instalação The Unfinished
Conversation formou a base do que se tornaria o filme The Stuart Hall Project. A divisão em três telas apontava para o diálogo entre imagens
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e simultaneamente para a possibilidade de abertura para múltiplas interpretações, para variadas combinações, reforçando as noções de inacabamento e de continuidade implícitas no título. A instala- ção (exibida inicialmente numa exposição individual de Akomfrah na Tate Britain) acabou, inclusive, por gerar outras conversas: em 2017, foi montada, no Museu de Arte Moderna de Nova York, uma gran- de exposição coletiva com o nome Unfinished Conversations da qual constava a instalação original de Akomfrah acompanhada de obras de artistas do mundo inteiro que tematizavam ou encenavam algum tipo de inquietação social.
Ou seja, The Unfinished Conversation foi constituída como um exercício aberto e contínuo no qual os rastros e as memórias de Stuart Hall serviam como mote e metáfora para outras experiências diaspóricas, para outros relatos de hibridismo cultural, para outras imagens periféricas e descentralizantes. Contudo, a inegável força e singularidade de Hall levou Akomfrah a querer ampliar e disseminar, de modo mais efetivo, sua história. O que acabou gerando uma espé- cie de filme biográfico não cronológico composto do mesmo mosaico de retratos e filmes de família, capas e páginas de livros, revistas e jornais, faits divers, trechos de programas televisivos, registros au- diovisuais de passeatas e tumultos que compunha a instalação.
Figuras 10 a 12: The Stuart Hall Project
Mas, diferentemente de The Unfinished Conversation, com seu sistema mais aberto, The Stuart Hall Project (Figuras 10 a 12) tem uma sorte de princípio organizador com o jazz de Miles Davis, pontuando e estruturando o filme também pelos títulos das músicas. Ganha em importância também, mais do que as ideias de inacabamento e de in-
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conclusão, a noção de projeto implicada nesse novo título. O projeto de Stuart Hall é um projeto ético e estético e não é só dele, é o mes- mo projeto por trás dos filmes de Akomfrah desde Handsworth Songs até experimentos mais vinculados às artes visuais como a instalação
Vertigo Sea (2015), é o mesmo projeto de outros cineastas periféri-
cos, diaspóricos que pretendem ver as implicações do hibridismo, das identidades e dos deslocamentos no mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo em que opta por fazer uma biografia, Akomfrah es- capa de suas constrições, porque Hall é um médium que incorpora a história, atravessada de memórias e reminiscências pessoais, ele é um organizador desse projeto, que é muito maior do que sua figura individual:
A ideia inicial era de que esta seria uma colaboração entre Stuart e eu sobre a noção do visual e de como ele organiza a identidade negra. Mas eu acho que na hora que eu percebi que havia um pouco mais do que apenas algumas horas de Stuart no rádio, cinema e televisão, o que queríamos, pelo menos, era usá-lo o máximo possível como um espião narrativo da história– até porque, como em The Unfinished Conversation, que é baseado em seus escritos sobre a identidade, o filme é formado como um cruzamento dentro da história. E, assim, tornou-se uma maneira de olhar para a sua vida, entre outras coisas (Akomfrah in Korossi, 2014).
A ideia de ser um espião narrativo afinal prosperou de vários modos. Na tessitura do filme, que funciona como uma máquina do tempo descontrolada, indo e voltando no tempo, revelando camadas sonoras e visuais do século XX com iguais medidas de delicadeza, brutalidade, ímpeto e contemplação. O filme acabou se tornando cru- cial para apreciar não somente a trajetória de vida de Hall e sua cen- tralidade na transformação do pensamento sobre cultura (e não só na Grã-Bretanha, como também no mundo), mas talvez principalmente
para compreender o papel da identidade negra na cultura britânica, a importância do olhar multicultural e pensar nesse projeto como algo permanentemente em curso, em realização.