CAPÍTULO 3 – TERCEIRA MISSÃO: UM CONCEITO EM CONSTRUÇÃO
3.1 TERCEIRA MISSÃO: RECORTE CONCEITUAL
3.1.3 Third mission e third stream
Vorley e Nelles (2008) entendem que a terceira missão tem sido tipicamente concebida como um conjunto de funções que são consideradas distintas das funções ensino e pesquisa. No entanto, os autores entendem que a terceira missão deve, antes de tudo, reforçar a capacidade de conexão interna, se apresentando como uma oportunidade para o desenvolvimento institucional, para além das atividades de patenteamento e de transferência de tecnologia. Isso quer dizer que a terceira missão deve contribuir para que a universidade repense e redefina o seu papel, para reforçar e consolidar as missões centrais (ensino e pesquisa) e a para que estabeleça a forma como pretende contribuir para o desenvolvimento socioeconômico. No entanto, é necessário considerar que isso tem um custo, sobre o qual a universidade precisa refletir se tem condições de enfrentar, pois “a ênfase no engajamento econômico representa um desafio para as missões fundamentais da universidade”. Enquanto a terceira missão tem evoluído ao longo de um período relativamente longo, inclusão nas políticas públicas nesse campo tem sido relativamente recente” (VORLEY; NELLES, 2008, p. 130).
Teixeira (2015, p. 59, grifo nosso) pondera:
Em vários países, o interesse por maior abertura e integração das universidades ao meio social e econômico é crescente. Impulsionada pela sociedade e economia do
conhecimento e pelas demandas sociais, a Extensão Universitária ganha cada vez mais importância, seja na América Latina onde o foco principal são ações sociais diretas, intervenções promotoras da cidadania e fomentadoras do protagonismo local, seja em economias mais desenvolvidas onde os serviços e a transferência de tecnologia recebem maior atenção. Na Europa continental o
termo correlato à extensão mais adotado é “Terceira Missão” (Third Mission), e subdivide-se em três subáreas: Educação Continuada, Transferência de Tecnologia e Inovação, e Engajamento Social. Este campo de atuação da academia também ganha força no “velho continente”.
Hatakenaka (2005) afirma que no passado, a ênfase na capitalização do conhecimento, licenciamentos e atividades afins representaram importantes pontos de partida para grande parte dos países da OCDE, mas é necessário ir além dessas atividades. Para Nedeva (2013), a ênfase na terceira missão das universidades, em função das suas interações com o mundo dos negócios e com o desenvolvimento econômico tem, cada vez mais, se alterado significativamente, e isso decorre tanto da natureza do conhecimento, como também das pressões que a própria universidade tem enfrentado (crise de financiamento, pressões internacionais, tentativas de redefinições do papel do ensino superior, etc.). Assim, a terceira missão ou terceira corrente/terceiro fluxo, conduz a diferentes tipos de relações entre as universidades, a sociedade e a economia. Trencher et al. (2014) explicam que, na literatura, a universidade empreendedora surgiu como uma forma de realização da terceira missão, que colocou a universidade como o motor da economia.
Roper e Hirth (2005) explicam que nos EUA a terceira missão evoluiu da concepção tradicional de serviços, passando pela visão da universidade que capitaliza conhecimento (especialmente impulsionada pelo Bayh-Dole Act – 1980) e contribui para o desenvolvimento econômico, a uma nova visão do papel a universidade no século XXI, a universidade engajada com as suas comunidades.
Benneworth et al. (2009b) entendem que o debate em torno de uma terceira missão das instituições de ensino superior se intensificou a partir dos anos 1980, quando cresceu o entendimento de que essa missão abrangeria tanto as interações com empresas e a valorização da propriedade intelectual, mas também um maior empenho nas interações com pequenas e médias empresas, comunidades marginalizadas, organizações não governamentais, entre outros atores. Sendo assim, a origem desse compromisso, que constitui a terceira missão da universidade, parece estar ligado também ao estudo de 1982, da OCDE, mencionado anteriormente: The university and the community: the problems of changing relationships, que influenciou muitas universidades a partir dos anos 1990
(BENNEWORTH et al., 2009b).53 No entanto, os autores mencionam que embora o relatório da OCDE tenha explorado as diversas dimensões do compromisso com a comunidade, que podem envolver relacionamentos com empresas, governos, terceiro setor e a sociedade em geral (BENNEWORTH et al., 2009a), os pesquisadores não poderiam prever que o estudo acabaria estimulando ou influenciando direcionamentos voltados aos aspectos econômicos, que acabariam contribuindo para “eclipsar” o compromisso social, e também para que se associasse a terceira missão às atividades de capitalização do conhecimento e a outras formas de obtenção de recursos financeiros.
Desse modo, percebe-se que a “ideia da universidade empreendedora” (BENNEWORTH et al., 2009b, p. 20), seja do ponto de vista da abordagem organizacional (Burton Clark) ou da Hélice Tripla (Henry Etzkowitz e Loet Leydesdorff), representa uma dimensão específica do engagement, na sua vertente econômica. Acredita-se que a terceira missão seja associada mais comumente às atividades de comercialização, licenciamentos, patenteamentos e outros desse gênero devido à facilidade de mensuração dessas atividades, que passam a ser vistos como fontes de obtenção de recursos para as IES.
Convém lembrar, no entanto, que a ideia de envolvimento com a comunidade, de estender os conhecimentos universitários à sociedade recebeu forte ênfase com a fundação e desenvolvimento dos Land-Grant Colleges, nos EUA, ainda no século XIX.
Pålsson, Göransson e Brundenius (2009) comentam que na Suécia, no Higher Education Act of (1992) foram declarados os objetivos básicos da terceira missão das instituições de ensino superior, quais sejam, cooperar e prestar informações à comunidade. Os autores mencionam que a forma como as universidades suecas têm cumprido esse papel varia conforme as circunstâncias históricas, econômicas, geográficas, entre outras. Consulta ao Swedish Higher Education Act (SWEDEN, 1992) possibilitou constatar que na seção 2 (das disposições iniciais) está disposto que as IES devem incluir entre as suas atribuições “atividades da terceira corrente” e prestar informações sobre as atividades que realizam nesse campo, bem como esclarece que os resultados e benefícios que são direcionados à sociedade decorrem das pesquisas que realizam (, 1992)54. Embora no texto legal tenha sido utilizado o termo third stream, Pålsson, Göransson e Brundenius (2009), que o discutem, no texto intitulado: Vitalizing the Swedish university system: implementation of the ‘third mission’, elegeram o termo third terceira missão (third mission) para comentar o dispositivo legal, o que permite concluir que os termos/expressões foram considerados intercambiáveis.
53 O estudo foi comentado no item 3.1.2, que trata do Engagement e também na seção 4.3. 54
Disponível em: <https://www.uhr.se/en/start/laws-and-regulations/Laws-and-regulations/The-Swedish-Higher- Education-Act/>. Acesso em 17 out. 2016.
Molas-Gallart et al. (2002, p. iii) comentam que a universidade sempre contribuiu, em maior ou menor grau, com a sociedade nos processos de tomada de decisão, mas isso não era considerado o “coração” da sua missão. No entanto, a evolução dos entendimentos nesse campo, bem como da própria universidade, colaborou para que as contribuições da “third stream or third mission” fossem vistas como importantes e distintas das missões ensino e pesquisa, merecendo políticas e recursos específicos para o seu desenvolvimento. Essa afirmação leva a pensar que no texto as duas expressões (third stream e third mission”) são intercambiáveis, devido à forma como os autores construíram a sentença, ao utilizarem a conjunção “ou”, que dá a ideia de equivalência (BECHARA, 2006) entre as duas expressões, ou ainda, para representar “uma outra maneira de dizer algo” (HOUAISS; VILLAR, 2009, p. 1404). Molas-Gallart et al. (2002) também chamam atenção para a necessidade de adoção de uma abordagem holística que leve em consideração as múltiplas formas e canais de relacionamentos que ligam as instituições de ensino superior ao resto da sociedade, pois, ao desenvolverem suas funções e responsabilidades, se relacionam com diferentes redes (políticas, econômicas e sociais). As abordagens, portanto, devem considerar esse amplo conjunto de interações (MOLAS-GALLART et al., 2002), que os principais estudos atuais têm considerado como a terceira missão da universidade.
É importante notar que o estudo de Molas-Gallart et al. (2002) é visto como pioneiro na discussão da relação universidade-sociedade, na sua caracterização e na construção de indicadores, desempenhando um importante papel no processo de amadurecimento e evolução da temática. A maioria dos textos atuais (e mais influentes), que discutem a terceira missão de uma forma ampla, têm utilizado reiteradamente o estudo de Molas-Gallart et al. (2002) como referência, recuperando conceitos e renovando as discussões. Dificilmente se encontra um texto que se proponha a realizar uma abordagem abrangente da terceira missão que não o mencione, como é o caso dos estudos produzidos pelo projeto European Indicators and Ranking Methodology for University Third Mission (E3M), patrocinado pela Comissão Europeia, que explicitamente fazem referência a Molas-Gallart et al. (2002). Para o projeto E3M, a terceira missão é entendida como uma ampla gama de atividades que ligam a universidade à sociedade, em torno do ensino, da pesquisa e do compromisso social, entendendo-se por “sociedade” os diferentes “ecossistemas” sociais aos quais as universidades estão ligadas (do nível local, regional, nacional, ao supranacional) (E3M, 2012).
Em 2007, no texto intitulado “Ambiguity and conflict in the development of ‘Third Mission’ indicators, afirmou-se que third mission “refere-se a todas as atividades relacionadas com a produção, utilização, aplicação e exploração de conhecimentos e outras capacidades universidade fora dos ambientes acadêmicos” (MOLAS-GALLART; CASTRO-MARTÍNEZ, 2007, p. 321). Entretanto, os autores também mencionam que ainda existem muitas divergências quanto às interpretações possíveis
e ao alcance da terceira missão. Para alguns a terceira missão é uma fonte adicional de renda; para outros é a exploração comercial dos resultados das pesquisas acadêmicas; e há quem entenda que a terceira missão é o “alcance social” das universidades. Neste último caso, os autores citam o exemplo das universidades latino-americanas, que têm os seus escritórios ou escolas de extensão, por meio dos quais se relacionam com a sociedade.
O Higher Education Funding Council for England (HEFCE) definiu third stream da seguinte forma: “a terceira corrente/terceiro fluxo refere-se às interações, baseadas em conhecimento, entre instituições de ensino superior e organizações dos setores privado, público, da sociedade civil organizada e a sociedade em geral (HEFCE)” (PACEC/CBR; 2009, p. 1). Partindo-se desse entendimento, desde 1999 o conselho tem financiado atividades third stream (tanto relacionadas ao ensino, quanto à pesquisa) para fomentar o aumento da capacidade das instituições de ensino superior (IES) de responderem às demandas de empresas e da comunidade em geral, possibilitando a geração de riqueza.
Benneworth et al. (2009b) comentam que as primeiras experiências third stream estavam voltadas ao financiamento de atividades de transferência de conhecimentos e tecnologias para empresas. No entanto, sucessivas políticas nesse campo levaram a diversos acréscimos de atividades da terceira corrente, incluído relacionamentos mais amplos com a comunidade em geral, conforme análises realizadas pelo Centre for Business Research, University of Cambridge (CBR) e pelo Public & Corporate Economic Consultants (PACEC), encomendadas pelo HEFCE, anteriormente citado, tornando a lista de atividades mais ampla. Assim, atualmente, third stream envolve relacionamentos com empresas, organizações não empresariais e com a comunidade, mantendo estreita relação com as expertises da IES, no campo do ensino e da pesquisa, e condizentes com a infraestrutura de cada instituição. Além disso, o estudo reconhece que a terceira corrente é uma missão (third stream mission), o que pode ser constatado na transcrição a seguir:
Existe agora um forte apoio para a missão terceira corrente/fluxo pela alta administração de todas as IES. No entanto, as missões das IES diferem quanto às ênfases no ensino, na pesquisa, no intercâmbio de conhecimentos e nas vantagens competitivas que desenvolveram no setor do ensino superior. Algumas instituições de ensino superior são centros de excelência em pesquisa, enquanto outras dedicam-se principalmente ao ensino. Outras foram fundadas com a missão de conduzir pesquisas aplicadas, para a transferências de conhecimentos e de soluções relevantes às organizações externas. As declarações de missão e objetivos estratégicos refletem essas diferenças. [...] Não obstante esta diversidade, instituições de ensino superior, de todos os tipos, novas ou antigas, têm incluído em suas declarações de missões e visões, referências explícitas à terceira corrente/fluxo, devido à importância que as IES têm atribuído a essas atividades. Os planos estratégicos de quase todas as IES estudadas para a elaboração deste
relatório têm dado visibilidade às suas atividades da terceira corrente. Em muitas instituições de ensino superior essas atividades têm recebido a mesma atenção que é dedicada ao ensino e à pesquisa (PACEC/CBR; 2009, p. 55, tradução nossa).
Portanto, levando-se em consideração os autores até aqui mencionados, é possível entender que as duas expressões, third mission e third stream, atualmente têm sido utilizadas para representar interações, intercâmbios, envolvimentos da universidade com atores externos à academia, convergindo para os mesmos propósitos, quais sejam: ligar conhecimento e expertises das universidades à sociedade, vistas, cada vez mais, como uma missão da universidade. A ênfase nas relações, seja com a indústria ou com a comunidade, dependerá das escolhas que a instituição fizer. É importante mencionar que third stream ou third mission costuma ser mais utilizado na Europa, pois nos EUA, por exemplo, é mais comum a utilização de engagement e de suas variações - community e civic, bem como outreach, mas foram identificados autores que utilizaram o termo third mission, como é o caso de Roper e Hirth (2005), que o utilizaram no texto “A history of change in the third mission of higher education: the evolution of one-way service to interactive engagement”. No entanto, é importante comentar que se nota que as atividades do terceiro fluxo ou terceira corrente - third stream - em alguns estudos, ainda tem sido utilizada com uma conotação econômica, ou seja, como uma forma de obtenção de recursos, mesmo tendo sido ampliado o entendimento para incorporar outras formas de relacionamentos entre o ensino superior e a sociedade, para além dos vínculos meramente econômicos, de prestação de serviços pagos ou da transferência de tecnologias, via licenciamentos onerosos.