4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.2. TIPOLOGIA DOS SISTEMAS DE PRODUÇÃO
4.2.8. Tipo 08 - Col. Espontânea; Anuais, Bovinos
Este grupo de agricultores tem como principais atividades produtivas a criação de
gado e o cultivo de lavouras anuais. São famílias que ocuparam recentemente suas terras, os
quais ficam distantes da principal rodovia de acesso aos centros urbanos mais próximos, o que
lhes desfavorece quanto a condições de acesso e transporte, pois as estradas não se encontram
em condições adequadas. Os lotes têm em média 67,0 ha, destoando dos padrões das áreas de
colonização oficial que têm média de 100 ha. Quando ocuparam os lotes, as famílias não
encontraram uma vegetação composta apenas por floresta nativa, pois mesmo sendo áreas de
colonização recentes os lotes já apresentavam aberturas e floresta alterada e substituída por
pastagem e capoeira, como pode ser observado na Figura 24.
Desde a chegada aos lotes, no final da década de 1990, as famílias cultivaram apenas
espécies anuais como arroz, milho e feijão. O bom desempenho dos cultivos anuais foi fator
decisivo para o processo de instalação da família na unidade de produção, pois a sua
segurança alimentar foi garantida por esses cultivos, haja vista que não havia estrutura alguma
que pudesse apoiar as famílias a organizar sua dinâmica produtiva. As roças também
contribuíram para a evolução da cobertura vegetal dos lotes. Com as aberturas na floresta para
o plantio anual, as famílias aproveitaram para plantar espécies de capim para a formação de
pastagem.
Como percebido na Figura 24, a área plantada atualmente com pastagem ocupa algo
em torno de 25% da cobertura vegetal dos lotes, o que corresponde a uma área de
aproximadamente 17 ha. Há uma inegável tendência para que esse percentual das áreas de
pastagem aumente ainda mais nos próximos anos, já que as famílias expressam o desejo de
ampliar o número de cabeças de gado. Assim, as áreas de floresta que ocupam atualmente
cerca de 65% dos lotes tendem a diminuir, do mesmo modo que as áreas de capoeira.
O gado de corte é a modalidade predominante neste tipo de produtores, no entanto, há
alguns agricultores que tem uma produção significativa de leite. A criação de gado bovino
tem dupla função nestes sistemas produtivos. A primeira delas é a de provisão de renda com a
venda de animais, geralmente bezerros são vendidos anualmente, o que caracteriza a principal
fonte de renda das famílias deste grupo. A segunda função exercida pela criação de bovinos é
o fornecimento de leite para a alimentação familiar, produção que muito embora não
apresente números expressivos, atua como complemento da dieta alimentar das famílias.
Conforme mostra a Figura 24, no último ciclo agrícola as famílias do Tipo 08
deixaram de realizar aberturas na floresta nativa, porém, não deixaram de fazer suas roças de
cultivos anuais utilizando áreas de capoeira para isso. Esse fato levaria a uma tendência de
interrupção definitiva no uso de áreas de floresta para cultivo, entretanto, as famílias não
expressaram esse desejo nas entrevistas. Pelo contrário, há indícios de que as áreas de
pastagens serão ampliadas e, em alguns casos, é expressa a intenção de iniciar a atividade de
cultivos perenes nos próximos anos. Portanto, as tendências se misturam neste que é o maior
dentre os grupos de famílias estudas, havendo famílias que querem permanecer com o mesmo
tipo de sistema de produção, como há famílias que desejam modificar seus sistemas
produtivos, diversificando a produção e, com isso tendendo para o Tipo 07.
Figura 24: Evolução dos sistemas de produção dos agricultores do Tipo 08
4.2.8.1. Verificação das Práticas do Tipo 08
O Quadro 11 traz a listagem de todas as práticas utilizadas pelas famílias no processo
de produção ao longo do ciclo agrícola estudado. Ao todo, foram identificadas 33 (trinta e
três) práticas desenvolvidas pelas famílias. No geral, pode-se encontrar tanto práticas que tem
impacto positivo sobre os recursos naturais, como práticas que agem de forma inversa.
Quadro 11: Listagem das práticas desenvolvidas nos sistemas de produção do Tipo 08
# PRÁTICAS # PRÁTICAS
1 Abertura de Trilhas na Capoeira para Plantio 18 Plantio Manual de Arroz
2 Aceiro 19 Plantio Manual de Feijão
3 Alimentação de Pequenos Animais 20 Plantio Manual de Milho
4 Avisa Vizinho 21 Prensar Massa de Farinha
5 Capina Manual 22 Pubar Mandioca para Farinha
6 Colheita Manual de Arroz 23 Queima da Área de Roça
7 Colheita Manual de Feijão 24 Queima de Pastagem
8 Colheita Manual de Feijão Abafado 25 Queima nas horas menos quentes
9 Colheita Manual de Mandioca 26 Ralar Mandioca para Farinha
10 Colheita Manual de Milho 27 Roço de Capoeira para Roça (Broca)
11 Contrafogo 28 Roço Manual de Pastagem
12 Derrubada da Floresta com Motosserra 29 Rotação de Pastagem
13 Levar Água 30 Torrar Farinha
14 Mineralização do Rebanho Bovino 31 Vacina contra Brucelose
15 Mutirão para a queimada 32 Vacina contra Febre Aftosa
16 Ordenha Manual 33 Vacina contra Manqueira
17 Plantio a Lanço
Destacam-se algumas práticas que contribuem para a prestação de serviços ambientais,
como por exemplo, a realização plantio de feijão em sistema abafado ou o manejo de
pastagem sem uso do fogo. Essas são algumas alternativas que as famílias utilizam para evitar
práticas danosas ao meio ambiente em seus sistemas produtivos.
Muito embora as famílias adotem práticas que evitem a degradação do meio ambiente,
ainda podem ser encontrados casos em que o uso do fogo é comum, principalmente para a
limpeza de áreas de pastagens e para o preparo de área para o plantio. Atividades como a
queima para plantio e queima da pastagem ainda são utilizadas nos sistemas de produção por
serem formas mais baratas e rápidas de realizar o preparo da área e a limpeza,
respectivamente.
As famílias do Tipo 08 ainda se valem das queimadas como prática agrícola,
entretanto, nota-se a crescente utilização de práticas de controle do uso do fogo nas unidades
de produção. Práticas como aceiro, contrafogo e mutirão para a queimada são mais
comumente utilizadas entre as famílias que se enquadram neste tipo de agricultores.
Analisando a Figura 25, pode-se considerar o desempenho na análise das práticas
como bom, apesar de três dos critérios apresentarem índices negativos.
Figura 25: Resultado da Avaliação das práticas do Tipo 08
Os critérios “Atmosfera”, “Manejo da Paisagem e Seqüestro de Carbono” e
“Segurança nas Condições de Trabalho” obtiveram resultados negativos por sofrerem a
influência de práticas que utilizam o fogo, pois inexoravelmente há emissão de gases de efeito
estufa e falta de segurança quando se realiza esse tipo de prática. A fabricação de farinha
também contribuiu para o resultado negativo destes critérios.
Como é comum entre os agricultores aqui estudados, o critério segurança alimentar
tem destaque, pois as famílias buscam garantir o próprio sustento para então comercializar o
excedente. Neste caso, o critério “Segurança Alimentar” obteve o maior dos índices
levantados, motivada, principalmente pela variedade de produtos que as famílias cultivam
durante um ciclo agrícola, que por sua vez contribui para o elevado índice alçado pelo critério
manejo da biodiversidade.
Mesmo com os resultados negativos apresentados para os três critérios (“Atmosfera”,
“Manejo da Paisagem e Seqüestro de Carbono” e “Segurança nas Condições de Trabalho”), a
avaliação geral do potencial de prestação de serviços ambientais das práticas desenvolvidas
pelas famílias do Tipo 08 pode ser considerada satisfatória. O índice geral 67 (sessenta e sete)
alcançado na avaliação mostra que as práticas utilizadas, apesar apresentarem alguns pontos
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Uso e Manejo de Insumos Agrícolas e Veterinários
Uso de Energia
Otimização da Produção e Uso de Recursos Atmosfera
Manejo do solo e localização de infra-estrutura Proteção dos Recursos Hídricos
Manejo da Biodiversidade Controle do Uso do Fogo
Manejo da Paisagem e Sequestro de Carbono Segurança nas Condições de Trabalho Qualidade dos Produtos
Segurança Alimentar Condição de Comercialização
que tem impactos danosos ao meio ambiente, no geral, têm condições de prestar serviços
ambientais (Tabela 17).
O princípio “Qualidade Ambiental”, como pode ser visualizado na Tabela 17,
apresentou o índice 16 (dezesseis), resultado da ponderação de indicadores que apresentaram
resultados positivos e negativos, o que nos mostra que apesar de haver práticas que têm
efeitos danosos ao meio, há também práticas que contribuem para a melhoria, ou pelo menos
a manutenção das propriedades dos ecossistemas naturais presentes nas unidades de produção
das famílias do Tipo 08.
Tabela 17: Resultados da Verificação das práticas do Tipo 08
Princípio da Eficiência Produtiva 19
Uso e Manejo de Insumos Agrícolas e Veterinários 10
Uso de Energia 3
Otimização da Produção e Uso de Recursos 6
Princípio da Qualidade Ambiental 16
Atmosfera -5
Manejo do solo e localização de infra-estrutura 5
Proteção dos Recursos Hídricos 0
Manejo da Biodiversidade 10
Controle do Uso do Fogo 8
Manejo da Paisagem e Seqüestro de Carbono -2
Princípio da Saúde 31
Segurança nas Condições de Trabalho -2
Qualidade dos Produtos 15
Segurança Alimentar 18
Princípio da Gestão e Administração 1
Condição de Comercialização 1
COEFICIENTE DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS AMBIENTAIS 67
No documento
PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS AMBIENTAIS EM UNIDADES DE PRODUÇÃO FAMILIAR RURAIS NO MUNICÍPIO DE PACAJÁ - TERRITÓRIO DA
(páginas 111-116)