• Nenhum resultado encontrado

2 PERCURSO METODOLÓGICO: OS CAMINHOS E (DES)

2.2 Tipo de Estudo e Perspectiva Avaliativa Adotada

Este empreendimento investigativo trata de uma pesquisa avaliativa, de natureza

13 Conforme analisa Souza (2015), as avaliações gerencialistas salientam caráter mais ideológico que científico.

exploratória e descritiva, com abordagem qualitativa, utilizando da perspectiva avaliativa crítico dialética defendida por Silva (2008), que compreende a avaliação de políticas públicas e programas sociais como “um movimento do processo das políticas públicas e como modalidade de pesquisa social aplicada”, o que significa dizer que avaliar uma política pública ou programa social representa uma das etapas constitutivas do movimento do processo das políticas públicas, bem como sua formulação e implementação.

A avaliação se situa no processo das políticas públicas, tendo essa “etapa” como parte integrante deste movimento dialético e parte do pressuposto de que a avaliação de políticas públicas deve ser percebida a partir da relação dialética das duas dimensões que a compõe: a dimensão técnica e a dimensão política da avaliação, o que implica no reconhecimento da existência de uma dupla processualidade, o que quer dizer que avaliar políticas públicas é um ato técnico, pois diz respeito a uma etapa inerente ao processo das políticas públicas que se utiliza de métodos e técnicas da pesquisa social, e é também ato político, porque se orienta de intencionalidades, o que afasta a ideia de neutralidade, própria das perspectivas avaliativas de caráter positivista (SILVA, 2008, p. 89).

A autora fundamenta sua perspectiva avaliativa crítico-dialética em outro pressuposto que é a compreensão de política pública como uma forma de regulação e intervenção na sociedade. Portanto, avaliar políticas públicas é adentrar em terreno em que se encontram articulados sujeitos com interesses e expectativas diversas, por isso, uma pesquisa avaliativa só é dotada de sentido se ela servir para subsidiar decisões e ações concretas.

As políticas públicas são um conjunto de ações e omissões do Estado, ou seja, são decisões, mas também não decisões, por isso estão presentes jogos de interesses, fazendo com que as políticas públicas se estruturem, se organizem e se concretizem de acordo com interesses sociais organizados (SILVA, 2008, p. 90).

A concepção de política pública adotada por Silva (2008, p. 90) é a de que elas são respostas do Estado a pressões sociais, não são apenas meio para intervenção estatal ou legitimação política, o que implica admitir que as políticas públicas atendem a interesses contraditórios:

A política pública é uma resposta decorrente de pressões sociais a partir de ações de diferentes sujeitos, como já indicado, que sustentam interesses diversificados. Portanto, serve a interesses também contraditórios, que ora se situam no campo do capital, ora no campo do trabalho. Recuso, portanto, qualquer raciocínio linear e consensual, pois falar de política é falar de diversidade e de contradição.

Assim, este estudo coaduna com a compreensão de política pública que pressupõe o reconhecimento do caráter dialético da realidade e a presença de interesses distintos,

contradições, o próprio movimento das políticas públicas e a bipolaridade em que os interesses envolvidos podem se posicionar, seja em favor da manutenção da acumulação capitalista, seja em defesa dos interesses do trabalho, e, portanto, dos trabalhadores.

Tomando esta concepção como ponto de partida, interessou compreender, no contexto de desenvolvimento do Projeto INSS Digital, que, por definição, visa a implementar um atendimento de maior qualidade, mais célere, prezando pela eficiência e economicidade na Administração Pública, quais as implicações dessa “nova forma de atender” para o trabalho do servidor do INSS, o cerne da questão a que este trabalho se propôs.

Há aqui a crença de que este paradigma avaliativo busca, em contraposição aos modelos tradicionais14, superar as limitações próprias das avaliações gerencialistas, ainda

predominantes no Brasil, cujo surgimento data da década 1990, quando para obter recursos das agências internacionais, o país lançou mão de medidas ajustadoras, com fundamento na racionalização de gastos, em favor do capital, em sucessivos ataques à sociedade.

A avaliação em profundidade objetiva suplantar a superficialidade e a imediaticidade dos dados imediatos, captando os significados das políticas, de modo a pensar na construção de novos indicadores e viabilizar reformas genuínas, na direção da ampliação de direitos e do reconhecimento dos cidadãos como verdadeiros protagonistas dessas ações.

[...] na concepção pluralista, a avaliação se torna uma construção coletiva na qual os diversos atores envolvidos julgarão a pertinência da ação estatal e não observarão simplesmente se os efeitos da mesma estão de acordo com os objetivos iniciais (TINOCO et al., 2011, p. 310).

Portanto, do ponto de vista da perspectiva avaliativa adotada nesta pesquisa, pode- se dizer que é uma avaliação política da política na acepção de Silva, mas que se inspirou em elementos da avaliação em profundidade, a nosso ver, fundamentais à avaliação de políticas públicas, de modo que o INSS Digital fosse pensado a partir da análise do contexto político, econômico, cultural e social que circunda os atores envolvidos e ainda o fato de que a avaliação em profundidade opera uma pesquisa eminentemente qualitativa, por isso valoriza o protagonismo dos sujeitos.

No entanto, não se pode afirmar que esta pesquisa avaliativa trata de uma genuína avaliação em profundidade, visto que esta perspectiva apenas nos ofereceu alguns subsídios, se assim puderem ser denominados, valores que orientaram a investigação.

14 Tinoco et al. (2011) explicam que, embora as avaliações de políticas públicas tradicionais ainda predominem no campo da avaliação, inclusive por terem nascido sob o signo do gerencialismo e do avanço do neoliberalismo no Brasil, nos fins da década de 1990, não foram capazes de impedir que emergissem também as avaliações pluralistas, que tem assumido lugar de destaque no campo da avaliação de políticas públicas de caráter transversal.

A pesquisa qualitativa é definida como aquela que é capaz de enfatizar as especificidades de um fenômeno, superando, portanto, a incapacidade da pesquisa quantitativa de dar conta de uma dada realidade e de um fenômeno social apenas por meio de dados estatísticos. Seu papel consiste majoritariamente em compreender a realidade, enquanto que a pesquisa quantitativa busca descrevê-la ou medi-la (KAUFMANN, 2013, p. 56).

A escolha da abordagem qualitativa nesta pesquisa não elimina a necessidade de apresentação de dados estatísticos a fim de fundamentar as ideias apresentadas, mas implica em atribuir à abordagem qualitativa posição de protagonismo neste processo.

Sobre a relação entre a abordagem quantitativa ou qualitativa das pesquisas, Minayo (1993) oferece clássico e contundente alerta para defender a relação de complementaridade e não de oposição entre as abordagens. Partilham desta compreensão, Alves e Santos (2014, p. 9), para quem as pesquisas quantitativas são “essenciais para a compreensão de um grande número de temáticas”, principalmente se associadas a pesquisas qualitativas. Complementarmente defendem que “não há quantificação sem qualificação; por outro lado, a qualificação procura na quantificação equivalentes funcionais para lhe dar maior sustentabilidade”.

A escolha pela abordagem qualitativa parte também da ideia de Minayo (1994) de que os objetos de estudos científicos na área das Ciências Sociais são “essencialmente qualitativos”, o que significa colocar a metodologia da pesquisa “a serviço” do objeto de estudo e aos objetivos que se pretende alcançar, atribuindo-lhe o lugar de protagonismo que a situação requer.