Trata-se de um estudo de análise temporal. A população do estudo foi composta por estudantes, de ambos os sexos, menores de 20 anos, regularmente matriculados no ensino médio do Instituto Federal do Rio Grande do Norte nos campi de Natal/RN, que realizaram avaliação antropométrica no Setor de Saúde do IFRN na admissão no ano de 2017 (n=667).
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Onofre Lopes (CEP HUOL) (CAAE: 83027418.7.0000.5292) (ANEXO I), conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.
A coleta de dados aconteceu somente após o esclarecimento dos participantes e de seus responsáveis legais, mediante a leitura e assinatura do Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE) e do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), respectivamente.
4.1.1 Plano amostral
A amostragem foi probabilística aleatória simples, sendo o tamanho amostral calculado no programa OpenEpi versão 3, considerando o tamanho da população (n = 667), a prevalência de 20,5% de excesso de peso para adolescentes escolares da região Nordeste, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PenSE)44, com 95% de confiança e 5% de erro amostral. Desse modo, o número amostral foi de 180 adolescentes.
Considerando-se as possíveis perdas relacionadas à recusa em participar do estudo, bem como aquelas ocorridas no decorrer do estudo, o tamanho amostral foi ampliado para 350 adolescentes a serem sorteados aleatoriamente entre os três campi do IFRN localizados no município de Natal/RN.
Foram considerados elegíveis os discentes que realizaram avaliação antropométrica pelo Setor de Saúde do IFRN no momento da admissão e tinham matrícula ativa no período da coleta de dados. Foram considerados inelegíveis adolescentes em estado gestacional ou que tinham deficiência física que impossibilitasse a verificação de medidas antropométricas. Foram excluídos do estudo
aqueles com incompletude de informações antropométricas na admissão, impossibilidade de realizar a avaliação antropométrica no ano de 2018 e transexuais, visto que o uso de hormônios sexuais poderia interferir no diagnóstico nutricional.
A Figura 1 representa esquematicamente como se deu a seleção e o recrutamento dos participantes e as perdas e exclusões. Assim, do total de 350 adolescentes sorteados, 250 participaram da coleta de dados.
Figura 1. Descrição do recrutamento, perdas e exclusões dos adolescentes elegíveis
– Natal-RN, 2017/2018. Fonte: Elaborada pela autora.
4.2 COLETA DE DADOS
Primeiramente, foram identificados no Sistema Único de Administração Pública (SUAP) do IFRN aqueles alunos que atendiam aos critérios de elegibilidade do estudo. Em seguida, foram sorteados aleatoriamente 350 estudantes, que foram contatados pelos pesquisadores em sala de aula e convidados a participar após serem esclarecidos sobre o estudo.
Para aqueles que aceitaram participar da pesquisa e trouxeram o TCLE assinado pelo responsável, foram coletadas no SUAP informações da admissão do estudante na instituição, incluindo dados sociodemográficos (nome, data de nascimento, sexo, matrícula, campus, curso, renda familiar, número de pessoas no domicílio, escolaridade da mãe e participação em programas de assistência
estudantil) e antropométricos (peso e estatura). Tais informações são coletadas rotineiramente de todos os alunos do ensino médio admitidos no IFRN pelos profissionais do Setor de Saúde dos campi.
Posteriormente, foi realizada uma avaliação presencial com os alunos participantes, realizada pelos pesquisadores no Setor de Saúde dos campi ou em sala de aula, em horários previamente agendados. O intervalo entre a admissão e essa avaliação presencial foi de aproximadamente um ano.
Foram coletados dados antropométricos (peso, estatura e perímetro da cintura), conforme as diretrizes do Ministério da Saúde54, e determinado o estágio de maturação sexual, de acordo com a classificação proposta por Tanner59,60 (APÊNDICE I), por meio da técnica de autoavaliação, individualmente, em local reservado.
Em seguida, foi aplicado questionário auto preenchido com questões objetivas, elaborado com base naquele utilizado na PenSE46 (APÊNDICE II). Continha questões sobre aspectos sociodemográficos do adolescente (se morava com a família, número de pessoas no domicílio, escolaridade da mãe, se trabalhava, se participava dos programas de assistência estudantil); rotina na escola (turno de estudo, atividades no contraturno, número de horas diárias na escola); alimentação (comportamento alimentar e insegurança alimentar) e prática de atividade física (atividade física globalmente estimada).
Figura 2. Representação esquemática das etapas do estudo e seus procedimentos.
Fonte: Elaborada pela autora.
4.3 VARIÁVEIS DE ESTUDO
4.3.1 Variáveis de desfecho
Os índices antropométricos estatura para idade (E/I) e IMC para idade (IMC/I) foram trabalhadas tanto como variáveis contínuas (média de escore-z; variação na média de escore-z entre a admissão e avaliação), quanto categóricas (frequência de baixa estatura para idade, magreza, sobrepeso e obesidade; melhora da E/I e melhora do IMC/I).
Considerou-se como baixa estatura valores de escore-z < -2 para E/I e com baixo peso esore-z < -2 para IMC/I, com sobrepeso escore-z > +1 e < +2 para IMC/I e como obesidade escore-z > + 2 para IMC/I, conforme estabelecido pelo Ministério da Saúde54.
Considerou-se melhora da E/I quando houve qualquer incremento no valor de escore-z entre a admissão e a avaliação. Definiu-se como melhora do IMC/I as seguintes situações: (a) quando um valor negativo aumentava, sem que atingisse a
faixa de excesso de peso; (b) quando um valor de escore-z classificado como sobrepeso ou obesidade reduzia entre a admissão e a avaliação, sem que atingisse a faixa de magreza; e (c) quando um valor de escore-z classificado como eutrofia aumentava ou diminuía em direção à média da distribuição (isto é, se aproximavam do valor zero em escore-z).
4.3.2 Variáveis de exposição
4.3.2.1 Variáveis sociodemográficas
As variáveis sociodemográficas foram categorizadas da seguinte forma: sexo (masculino; feminino); faixa etária (≤ 16 anos; > 16 anos); etnia (branca/amarela; preta/parda); escolaridade materna (sem estudo/ensino fundamental; ensino médio; ensino superior/pós-graduação); número de pessoas no domicílio (≤ 4 pessoas; > 4 pessoas); renda per capita (0,00 – 0,25 salário mínimo per capita; 0,25 – 0,50 salários mínimos per capita; 0,50 – 1,00 salários mínimos per capita; > 1,00 salários mínimos per capita). A renda per capita foi obtida pelo valor total de salários da família (considerando o salário mínimo de R$ 954,00, vigente em 2018), dividido pelo número total de pessoas sustentadas por essa renda.
4.3.2.2 Maturação sexual
Para o estágio de maturação sexual, considerando o desenvolvimento das mamas e genitais em estágios de 1 a 5, para o sexo feminino e para o sexo masculino, respectivamente59,60, os adolescentes foram classificados em: pré-púberes - início do estirão de crescimento (estágios 1, 2 e 3 para os meninos; 1 e 2 para as meninas), púberes - no pico de velocidade máxima de crescimento (estágio 4 para os meninos e 3 para as meninas) e em pós-púberes - desaceleração do crescimento ( estágio 5 para os meninos; estágios 4 e 5 para as meninas).
4.3.2.3 Comportamento alimentar
Para investigar o comportamento alimentar, foram utilizadas as seguintes variáveis: se costuma tomar café da manhã, se costuma almoçar/jantar com os pais e
se costuma trocar o almoço/jantar por lanches. Essas variáveis foram agrupadas em duas categorias: não (nunca, raramente e 1 a 2 dias por semana) e sim (3 a 4 dias por semana; 5 a 6 dias por semana; todos os dias).
4.3.2.4 Insegurança alimentar
Para a insegurança alimentar, os adolescentes foram agrupados em duas categorias: em segurança alimentar (nunca e raramente ficaram com fome por não ter comida suficiente em casa) e em insegurança alimentar (às vezes, na maior parte das vezes e sempre ficaram com fome por não ter comida suficiente em casa).
4.3.2.5 Atividade física
Para a prática de atividade física, foi utilizado o indicador de Atividade Física Globalmente Estimada (AFGE)61 e os adolescentes foram classificados em fisicamente ativos (praticaram 300 ou mais minutos de atividade física por semana) e insuficientemente ativos (praticaram < 300 minutos de atividade física por semana).
4.3.2.6 Participação em programas federais de alimentação
Considerando o questionário auto preenchido, os adolescentes foram classificados em relação à participação no PNAE (lanche oferecido a todos os alunos do ensino médio) como participantes (consumo das refeições 1 a 2 dias por semana, 3 a 4 dias por semana e todos os dias) e não participantes (consumo das refeições raramente e nunca). Para a participação no PAIF (almoço e/ou jantar oferecido aos participantes do Programa de Alimentação Estudantil do IFRN), foi considerado o cadastro dos estudantes no SUAP.