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4.3 ASPECTOS FORMAIS DO CORPUS

4.3.1 Tipo de narrador

A classificação de acordo com o tipo de narrador é feita a partir dos dois estatutos do narrador estabelecidos por Genette (heterodiegético e

homodiegético), que levam em conta a relação entre o narrador e a história

contada. A seguir, encontra-se a tabela que indica o tipo de narrador de cada uma das 72 narrativas deste corpus. Ela foi construída como instrumento para explicitar os dados sobre as narrativas desta pesquisa e tem seus resultados finais expressos no Gráfico 1, posteriormente apresentado.

Tabela 2 – Indicação do tipo de narrador

TIPO DE NARRADOR

TITULO AUTOR HETERODIEGÉTICO HOMODIEGÉTICO 1 Tem fantasma na rua! MARTINS, Cláudio X

2 História de fantasma BELINKY, Tatiana X

3 "O fantasma e o alfaiate" PRIETO, Heloisa X

4 "O médico-fantasma" PRIETO, Heloisa X

5 “O fantasma da sorte” PRIETO, Heloisa X

6 “O jovem que não tinha medo de nada” PRIETO, Heloisa X

7 “Vovó Maria” PRIETO, Heloisa X

8 “Amor de fantasma” PRIETO, Heloisa X

TIPO DE NARRADOR

TITULO AUTOR HETERODIEGÉTICO HOMODIEGÉTICO

10 “Francisquinha” PRIETO, Heloisa X

11 “O Moleque Palhaço” PRIETO, Heloisa X

12 “Caio?” LAGO, Angela X

13 “A rosa assombrada” LAGO, Angela X

14 "A casa sonhada" LAGO, Angela X

15 “Encurtando o caminho” LAGO, Angela X

16 Casa assombrada LAGO, Angela X

17 “Até a vista, turma!” COSTA, Wagner X

18 “Uma noite na Feiticeira” MARTINS, Adelino X

19 “O fantasma da chácara” MARTINS, Adelino X

20 “A casa mal assombrada ou o tesouro escondido” BRAHE, Tycho X

21 “Uma noite muito estranha” MORAIS, Flávio X

22 “A queda da casa de Usher” POE, Edgar Allan X

23 “A casa do pesadelo” WHITE, Edward Lucas X

24 “A casa B... em Cadmen Hill” CROWE, Catherine X

25 “O vigia da fronteira” DICKENS, Charles X

26 “Billy” CROSSLEY-HOLLAND, Kevin X

27 “O fantasma de Samuel” CROSSLEY-HOLLAND, Kevin X

28 “A destemida” CROSSLEY-HOLLAND, Kevin X

29 “Bu!” CROSSLEY-HOLLAND, Kevin X

30 “A loira do banheiro” GARCIA, Luciana X

31 “A moça de branco” GARCIA, Luciana X

32 “O zumbi” GARCIA, Luciana X

33 “Mão de Cabelo” TRAVASSOS, Sônia X

34 Fantasma existe? ROCHA, Ruth; LORCH, Dora X

35 Branquinho, o fantasminha triste

ALMEIDA, Regina Capanema

de X

36 O pequeno fantasma BANDEIRA, Pedro X

37 Pluft, o fantasminha MACHADO, Maria Clara X

38 “A mortalha” THESOURO da juventude X

39 “Os sapatinhos de pão” THESOURO da juventude X

40 “As três noites no castelo encantado” THESOURO da juventude X

41 “A lavadeira encantada” THESOURO da juventude X

42 Uuuuuuu: um barulho estranho IACOCCA, Liliana X

43 O fantasma

FICHTNER, Marília; NUNES,

Artur Sanfelice X

44 A noite assombrada JUNQUEIRA, Sonia X

45 O barulho fantasma JUNQUEIRA, Sonia X

46 Apalka CARDENAL, Ernesto X

47 “Kigbo e os espíritos do mato”

DANSA, Salmo; BRAZ, Júlio

Emílio X

48 “A montanha viajante” CABRERA, Luis Urteaga X

49 “As cavernas de Aguas Buenas” TOMÉ, Jesús X

50 “Os cavaleiros de Isabela”

LAMBERTUS, Abelardo

Jiménez X

51 “Maria Angula”

GÓMEZ, Maria; TORRE, Jorge

Renán de la X

52 “A sombra negra e o gaúcho valente”

CARIZZO, Jesús Maria;

GARRIDO, Nelly X

53 “A gruta do Jacinto”

DOMENECH, Manuel; RAMOS,

Juan Antonio X

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TIPO DE NARRADOR

TITULO AUTOR HETERODIEGÉTICO HOMODIEGÉTICO

55 “Os dois caçadores e a Saiona” ARISMENDI, Santos Erminy X

56 “Companhia à noite” LESSA, Orígenes X

57 "A velha que não morria" MESSIAS, Adriano X

58 “A porca, ora, a porca” MESSIAS, Adriano X

59 "Flor, telefone, moça"

ANDRADE, Carlos Drummond

de X

60 "A história do pescador" KWAN, Michael David X

61 "A cantora da noite" KWAN, Michael David X

62 "A borboleta" KWAN, Michael David X

63 "A mais bela noite de Margarida" GARCIA, Edson Gabriel X

64 "O casal de velhos" GARCIA, Edson Gabriel X

65 "Os dentes de Madalena" GARCIA, Edson Gabriel X

66 "O companheiro de viagem" PIMENTEL, Figueiredo X

67 "O besouro de ouro" PIMENTEL, Figueiredo X

68 "A casa mal-assombrada" PIMENTEL, Figueiredo 1

69 "A alma do outro mundo" PIMENTEL, Figueiredo X

70 "O fantasma lambão" BUSCH, Wilhelm X

71 "Um espanto" DISNEY, Walt X

72 "Um caso de morte" SOUZA, Maurício de X

TOTAL 55 17

Das 72 narrativas analisadas, 55 têm narrador heterodiegético e 17 homodiegético, o que pode ser representado pelos percentuais 76% e 24%, respectivamente, e melhor visualizado no gráfico6 a seguir:

A absoluta predominância do narrador heterodiegético não surpreende. Nota- se, na literatura infantil em geral, uma preferência pelo narrador heterodiegético, uma vez que, para o autor adulto dessa literatura, não é tarefa fácil utilizar um narrador homodiegético que seja uma criança, pois este terá que assumir o ponto de

6 Todos os gráficos apresentados nesta dissertação foram elaborados a partir das tabelas que constam no início de cada subcapítulo.

Tipo de narrador 76% 24% heterodiegético homodiegético

vista e as peculiaridades da linguagem infantil ao narrar a história e nem sempre convence.

Dentre o corpus selecionado, apenas em Fantasma existe?, de Ruth Rocha e Dora Lorch, há um narrador homodiegético representado por uma criança; um menino cheio de medos, conforme se comentou anteriormente. Nessa tentativa do autor de experimentar o ponto de vista da criança, tem-se um narrador que não vive realmente o medo infantil, mas que oferece à criança leitora uma conscientização de seus medos, na intenção de auxiliá-la a derrotá-los. Tal conscientização, no entanto, não é uma atitude do ser imaturo, mas do adulto, razão por que a postura do narrador é um tanto forçada, embora seja louvável seu propósito.

Já os capítulos de título “A porca, ora, a porca”, retirado de Histórias mal-

assombradas em volta do fogão de lenha, de Adriano Messias (2004), e “A velha

que não morria”, encontrado em Histórias mal-assombradas do tempo da

escravidão, também de Messias (2005), apresentam um narrador homodiegético

adolescente; os casos de assombração relatados nas narrativas, no entanto, estão apoiados em voz da tradição. Na primeira, o narrador passa para a avó o compromisso de assumir a veridicção sobre a história por ele narrada:

Este caso de assombração minha vó Dórica, mãe de meu pai, me contava e eu ficava ao mesmo tempo fascinado e amedrontado, a ponto de ela ter de mudar o final da história e dizer que tudo não passava das artimanhas de um mágico, só pra me adoçar... Mas vou contar como era horripilante... (MESSIAS, 2004, p.25).

Na segunda narrativa, o caso está inserido na fala de Bá, uma velha mulher, descendente de escravos africanos e detentora de boas histórias de assombração, segundo o adolescente. É, portanto, Bá quem conta o caso de um homem tão mau, que, depois da morte, não é recebido nem por Deus nem pelo diabo, razão por que sua alma vaga incansavelmente mundo afora. Instala-se, assim, uma mudança de narrador, visto que se tem, na verdade, duas narrativas, estando uma inserida dentro da outra.

Genette descreve esse fenômeno como a existência de dois níveis narrativos distintos, cujos acontecimentos narrados situam-se fora da narrativa primeira, sendo, portanto, extradiegéticos. Segundo o teórico, as duas narrativas mantêm uma relação temática de analogia, visto que o mote proposto em ambas é o da assombração; no entanto, elas não possuem continuidade espácio-temporal, isto é,

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acontecem em tempo e espaço diferentes. A existência de dois níveis narrativos é observada também em muitas outras amostras do corpus, que trazem narradores distintos na narrativa principal e na narrativa secundária. É o caso, por exemplo, do história consolidadora “A loira do banheiro”, de Heloisa Prieto (2003), ou da anuladora “As cavernas de Águas Buenas”, de Jesús Tomé (1992).

Tal fenômeno é observado por Genette já na Odisseia, sendo bastante comum na literatura oral. Também a estratégia, utilizada pelo narrador na passagem acima transposta, de calcar na tradição o que conta ou de remeter a origem do caso narrado a outrem, é muito comum em narrativas folclóricas. Ao utilizar as expressões “alguém me disse", “não aconteceu comigo, mas com alguém que conheço”, ou outras do tipo, o narrador reforça, por um lado, a oralidade desse tipo de narrativa, e, por outro lado, utilizando o rito da passagem da palavra, se exime da responsabilidade do que vai contar, passando-a adiante e não atestando sua veracidade, sugerindo, portanto, a possibilidade de a história ser fruto da imaginação.

Em contrapartida, existem narrativas de narradores homodiegéticos que afirmam ter vivenciado o que contam. Por exemplo, “A queda da casa de Usher”, de Edgar Allan Poe, “A casa do pesadelo”, de Edward Lucas White, “O vigia da fronteira”, de Charles Dickens, ou “Companhia à noite”, de Orígenes Lessa (2003), são narrativas da categoria consolidadora que consistem em uma tentativa do narrador de compreender melhor, por meio da exposição dos fatos, o que se passou quando teve contato com algo fantasmagórico. Essa postura investigativa, assumida por vezes abertamente pelo narrador, auxilia a construir a verossimilhança do texto, tornando-o mais convincente para o leitor. Ressalta-se que todas narrativas citadas neste parágrafo, nas quais essa estratégia é utilizada, foram escritas inicialmente para adultos e encontram-se, neste corpus, adaptadas ou simplesmente redimensionadas a um público leitor infanto-juvenil.