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6 A ANÁLISE DOS DADOS

6.2 O EMPREGO DE LHE PARA PRONOMINALIZAR O OD

6.2.2.2 O tipo de discurso

Conforme o que já se afirmou sobre esse grupo de fatores, acredita-se que haja diferenças no uso das formas acusativas em função do tipo de discurso utilizado pelo falante.

Na tabela abaixo, encontram-se os valores estatísticos obtidos para esse grupo de fatores:

Tabela 6 – Efeito do tipo de discurso no uso da forma lhe como OD em Salvador

Tipo de discurso Apl./Total % P.R.

Hipotético 97/264 37 0,41

Real 133/384 35 0,53

Relatado próprio 9/15 60 0,83

Relatado de outra pessoa 12/19 63 0,78

Total 251/682 37 _

Nível de significância 0,004.

Os resultados apresentados confirmam a hipótese inicial, segundo a qual haveria maior emprego de lhe em contextos de fala relatada própria ou fala relatada de outrem.

Observa-se que o discurso relatado é altamente favorecedor da variante lhe, apresentando peso relativo de 0,83, quando próprio, e 0,78, quando de outra pessoa. Ao relatar a própria fala ou a de terceiros, o falante revela uma projeção daquilo que julga que ele próprio disse ou que outros disseram. Há aí um distanciamento em relação à situação narrada e, para marcar tal distanciamento, a opção seria empregar a forma lhe.

Quando a fala é real, segundo os números obtidos, há uma tendência à neutralidade, pois nesse contexto o peso relativo é 0,53.

Dentre os fatores estabelecidos, apenas o discurso hipotético favorece outras variantes e, consequentemente, inibe o uso de lhe, como se observa pelo peso relativo de 0,41. Na hipótese inicialmente aventada, acreditava-se que, por se tratar de um contexto em que a forma linguística usada pelo falante nem sempre corresponde à que ele usaria numa situação real, mas àquela que supõe usar, haveria prevalência do pronome lhe nas relações representadas, visto ter esse pronome uma marca de formalidade. Isso, porém, não se comprovou na amostra.

Convém relembrar que esse contexto de fala hipotética relaciona-se à variação diarreferencial, e o resultado obtido pode, portanto, dar indícios de rejeição ou estigmatização do fato linguístico. Esse, contudo, não parece ser o caso da variante lhe, uma vez que seu uso como acusativo em Salvador está presente entre os falantes de todos os segmentos de escolaridade, além de representar contextos mais formais.

É provável que fatores como o tipo de relação entre os interlocutores e a faixa etária

do informante, por exemplo, possam estar atuando juntamente com a variável tipo de discurso

e motivando o resultado. A fim de investigar um pouco mais a questão, efetuou-se o cruzamento, no MAKECELL, com os grupos tipo de discurso e tipo de relação entre os

interlocutores. Seguem, na tabela abaixo, os percentuais encontrados:

Tabela 7 – Efeito do cruzamento entre os grupos tipo de discurso e tipo de relação

entre os interlocutores no uso de lhe como OD em Salvador

Tipo de relação Tipo de discurso Apl./Total %

Real 101/312 32 Hipotético 43/80 54 Relatado próprio 2/2 100 Não- solidária Relatado de outrem 6/11 55 Real 32/72 44 Hipotético 54/184 29 Relatado próprio 7/13 54 Solidária Relatado de outrem 6/8 75 Total 251/682 37

Pelos dados obtidos no cruzamento, na fala real, que parece não influenciar significativamente o uso das formas, é preciso considerar que o interlocutor era o documentador. Este, com poucas exceções, era desconhecido do informante. É possível que esse aspecto tenha influenciado a produção dos falantes apesar de, na maioria das vezes, ter-se criado um ambiente de descontração. Os percentuais mostrados na Tabela 7 justificam essa informação. Nas relações de maior solidariedade entre os falantes, a frequência de uso de lhe é de 44% e para as demais variantes, 56%. Quando as relações entre os falantes são menos solidárias, o uso de lhe diminui para 32%, mas isso pode estar relacionado ao aumento da estratégia de esquiva com o OD nulo.

Na fala hipotética, como se observa pela distribuição das frequências, quase sempre os interlocutores hipotéticos eram pessoas do mesmo nível hierárquico, com quem o falante manteria relações de maior envolvimento, e, nestes casos, o uso de lhe foi de 29% contra 71% para as demais variantes. Quando a referência era feita a um interlocutor com quem o falante manteria relações com menos envolvimento, o percentual de uso de lhe aumentou para 54%.

Para os discursos relatados, o uso de lhe é favorecido tanto nas relações com maior envolvimento/intimidade quanto nas que expressam menor envolvimento/intimidade. No primeiro caso, obteve-se 75% quando a fala é de outra pessoa e 54% quando é do próprio falante. Para as relações menos solidárias, houve apenas duas ocorrências de discurso relatado próprio e o uso de lhe foi categórico; no discurso relatado de outra pessoa, a variante apresentou um percentual de 55%. Nestes casos, há de considerar que o número pequeno de dados impõe limitações à análise.

A explicação sugerida anteriormente para a prevalência de lhe em situações de discurso relatado destaca que o distanciamento do fato narrado não permite ao falante caracterizar com maior clareza o tipo de relação reproduzida. Analisando as ocorrências de

lhe no contexto descrito, observou-se, contudo, que não se pode desconsiderar uma possível

influência do tipo de relação reproduzida pelo falante bem como características do indivíduo cuja fala é relatada.

Quando o falante emprega lhe ao relatar sua própria fala, com frequência, está se dirigindo a uma pessoa mais velha, como se observa nos exemplos:

(130) No caso, minha mãe... sempre quando ela sai pra trabalhar eu digo: “Vá, minha mãe, Deus lhe acompanhe.” [SSA.02.H.F.I – C]

(131) Ele dizia: “Deus lhe abençoe.” [SSA.19.M.F.II – B]

Das 19 ocorrências em que se usou lhe no discurso relatado de outra pessoa, cinco foram proferidas por um único informante e em três delas (cf. (132), (133) e (134)) reproduz- se a fala de uma pessoa mais velha. Nessa faixa etária, segundo os resultados desta pesquisa, dá-se preferência à variante lhe.

(132) Minha mãe disse assim: “Mas M., como é que pode? Cê tá demais, tá pintando demais, vou (...) vou lhe internar, botar em colégio interno.” [SSA.19.M.F.II – B]

(133) Aí a gente tinha que dar a bença... dizia: “A bença a meu pai”. “Deus que lhe perdoe. Deus lhe perdoe”. [SSA.19.M.F.II – B]

(134) DOC: Como é que o pai respondia?

INF: “Eu lhe perdoo.” Perdoava. [SSA.19.M.F.II – B]

Em outras seis ocorrências os informantes também reproduzem a fala de pessoas mais velhas, em geral seus pais.