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2.1. A Lei 9.613/98: Lei de Lavagem de dinheiro

2.1.3. Tipo Objetivo

O Artigo 1º da lei 9.613/98 assim dispõe:

Art. 1º Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de crime:

I - de tráfico ilícito de substâncias entorpecentes ou drogas afins; II – de terrorismo e seu financiamento;

III - de contrabando ou tráfico de armas, munições ou material destinado à sua produção;

IV - de extorsão mediante seqüestro;

V - contra a Administração Pública, inclusive a exigência, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, de qualquer vantagem, como condição ou preço para a prática ou omissão de atos administrativos;

VI - contra o sistema financeiro nacional; VII - praticado por organização criminosa.

VIII – praticado por particular contra a administração pública estrangeira (arts. 337-B, 337-C e 337-D do Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal). (Inciso incluído pela Lei nº 10.467, de 11.6.2002)

Pena: reclusão de três a dez anos e multa.

§ 1º Incorre na mesma pena quem, para ocultar ou dissimular a utilização de bens, direitos ou valores provenientes de qualquer dos crimes antecedentes referidos neste artigo:

I - os converte em ativos lícitos;

II - os adquire, recebe, troca, negocia, dá ou recebe em garantia, guarda, tem em depósito, movimenta ou transfere;

III - importa ou exporta bens com valores não correspondentes aos verdadeiros. § 2º Incorre, ainda, na mesma pena quem:

I - utiliza, na atividade econômica ou financeira, bens, direitos ou valores que sabe serem provenientes de qualquer dos crimes antecedentes referidos neste artigo; II - participa de grupo, associação ou escritório tendo conhecimento de que sua atividade principal ou secundária é dirigida à prática de crimes previstos nesta Lei.94

Nessa normativa há diversas condutas típicas, as quais serão tratadas aqui sucessivamente.

Primeiramente, observa-se no caput do art. 1º as condutas de ocultar (esconder, encobrir, silenciar, abafar, sonegar) e dissimular (disfarçar, camuflar, mascarar e fingir). Essas condutas foram inseridas de forma alternativa – ocultar ou dissimular – configurando um tipo penal alternativo misto. Logo, a prática das duas condutas não enseja concurso de crimes.

Observa-se, também, que estão presentes tanto comportamentos comissivos (esconder, encobrir, camuflar) quanto omissivos (silenciar, não revelar), especialmente aplicáveis às pessoas que tenham obrigação de revelar ou comunicar as informações relativas a operações suspeitas de lavagem, assim consideradas.95

É interessante observar que as condutas “[...] de ocultar ou dissimular, constantes da cabeça do artigo, podem ser compreendidas como sendo aquelas características da primeira fase do processo de reciclagem de ativos [...].” 96

94 BRASIL. Lei 9.613 de 3 de março de 1998. Dispõe sobre os crimes de "lavagem" ou ocultação de bens,

direitos e valores; a prevenção da utilização do sistema financeiro para os ilícitos previstos nesta Lei; cria o Conselho de Controle de Atividades Financeiras - COAF, e dá outras providências. Presidência da República. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9613.htm. Acesso em: 28 agosto 2007.

95 BONFIM, Márcia Monassi Mougenot. BONFIM, Edilson Mougenot. Lavagem de dinheiro. São Paulo:

Malheiros, 2005. p. 42.

Ainda, sobre o verbo “ocultar”, ele

pode ser traduzido por ‘não deixar ver’, e deve ser compreendido como não deixar ver a origem criminosa do bem, direito ou valor que será reintroduzido no sistema econômico legal, como se lícito fosse, através da dissimulação. Assim, qualquer procedimento que objetive esconder a origem criminosa deve ser entendido como típico, se houver prova de que este procedimento é parte integrante do processo de lavagem.97

A segunda conduta típica, dissimular, pode ser entendida como encobrir com astúcia, fingir, simular, tornar pouco sensível ou notável. Pode ser conceituada como o meio pelo qual se dá ao bem, direito ou valor a aparência de legalidade, que lhe permite ser reintegrado ao sistema financeiro. Essa seria a segunda fase do processo de lavagem.

Assim, o ato de dissimular “[...] deve ser compreendido como esconder, através de um ardil, a origem criminosa. Tal conduta tem um plus em relação à mera ocultação: através do ardil, o objeto da lavagem possui uma aparência de legalidade, daí por que pode ser considerado ‘lavado’.” 98

Proíbe-se, nessa primeira parte, que se oculte ou dissimule a natureza (qualidade, espécie ou atributo), a origem (procedência, também no sentido de lugar, pessoa, fonte ou operação), a localização (posição física ou lugar onde se encontram), a disposição (colocação ou arranjo), a movimentação (circulação ou deslocamento da riqueza) e a propriedade (titularidade, qualidade de dono) de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, dos crimes antecedentes previstos.

Cumpre observar que “[...] o legislador foi redundante ao enumerar bens e em seguida, direitos e valores. Bastaria, que indicasse o primeiro que os demais estariam

97 VILARDI, Celso Sanchez. O Crime de Lavagem de Dinheiro e o Início de sua Execução. Revista Brasileira

de Ciências Criminais, São Paulo, n. 25, p. 11-30, mar. – abr. 2004. p. 17.

98 VILARDI, Celso Sanchez. O Crime de Lavagem de Dinheiro e o Início de sua Execução. Revista Brasileira

subentendidos, já que “direitos e valores” são na acepção civilística bens propriamente ditos.”99

No parágrafo primeiro do mesmo artigo, há uma conduta mais sofisticada de lavagem, pois visa à reciclagem do produto do crime antecedente, fazendo com que ele circule com maior engenhosidade na economia formal, apagando os rastros de sua origem espúria.100

Para aplicação desse dispositivo, em atenção à criminalização dos bens direitos e valores adquiridos indiretamente vista anteriormente, o mesmo tipo objetivo do caput (ocultar ou dissimular a utilização de bens, direitos ou valores provenientes de qualquer dos crimes antecedentes referidos neste mesmo artigo) tem de ser praticado, de forma a incorrer na mesma pena aquele que:

a) os converte (muda, transforma ou transmuta uma coisa em outra) em ativos lícitos, com a ressalva de que essa mudança é apenas aparente, visto que a origem delituosa é inata;

b) os adquire (de forma onerosa ou gratuita), recebe (recebe, aceita, acolhe também de forma onerosa ou gratuita), troca (permuta), negocia (comercializa, trata, celebra ou ajusta), dá ou recebe em garantia (dá ou recebe mediante fiança, aval, seguro, cobertura, proteção), guarda (cuida, vigia, protege), tem em depósito (estoque), movimenta (circula ou desloca, modernamente, sem a necessidade um deslocamento físico de capital) ou transfere (dá, cede, transmite também a título oneroso ou gratuito), com a ressalva de que no caso do bem imóvel, só se perfaz com o registro imobiliário da respectiva escritura;

c) importa (faz vir ou encomenda de outro país) ou exporta (manda para outro país) bens com valores não correspondentes aos verdadeiros.

99 MACEDO, Carlos Márcio Rissi. Lavagem de dinheiro. Curitiba: Juruá, 2006, p. 72.

100 DELMANTO, Roberto. DELMANTO JUNIOR, Roberto. DELMANTO, Fábio M. de Almeida. Leis penais

Podemos afirmar que essas condutas correspondem à fase da integração, ou seja, “[...] se referem ao momento final do processo, quando o agente necessita utilizar o produto da lavagem, ou seja, quando precisa reintegrá-lo ao sistema econômico.” 101

Pode-se observar ainda que dessa disposição “[...] percebe-se claramente a mens legislatoris no sentido de incriminar a conduta dos co-autores e dos partícipes, que não

tenham efetivamente participado dos crimes antecedentes, mas de alguma forma atuaram no processo de reciclagem.” 102

Pelo parágrafo segundo, incorre, ainda, na mesma pena aquele que utiliza, na atividade econômica ou financeira, bens, direitos ou valores que sabe serem provenientes de qualquer dos crimes antecedentes referidos. O tipo incrimina aquele que não pretenda ocultar ou dissimular a origem dos bens, direitos ou valores, porém os utiliza consciente de sua origem ilícita.

Aqui, o verbo utilizar “deve ser compreendido como fazer uso do objeto da lavagem, depois que este assumiu a aparência de legalidade.”103

Da mesma forma, o dispositivo (§2º, inciso II) ainda incrimina aquele que participa, ou seja, que faça parte ou apenas contribua, com grupo, associação ou escritório, tendo conhecimento de que esta conduta é dirigida à prática da lavagem de dinheiro. Essa regra foi inserida como instrumento de combate ao crime organizado, atingindo até mesmo aqueles que dele façam parte, mas não pratiquem diretamente qualquer atividade relacionada ao processo de lavagem de dinheiro em si, bem como atinge aquele que não participa diretamente da prática do crime antecedente, mas apenas do processo de lavagem de dinheiro.

101 VILARDI, Celso Sanchez. O Crime de Lavagem de Dinheiro e o Início de sua Execução. Revista Brasileira

de Ciências Criminais, São Paulo, n. 25, p. 11-30, mar. – abr. 2004. p. 19.

102 MACEDO, Carlos Márcio Rissi. Lavagem de dinheiro. Curitiba: Juruá, 2006. p. 74.

103 VILARDI, Celso Sanchez. O Crime de Lavagem de Dinheiro e o Início de sua Execução. Revista Brasileira