1. Da Descoberta do Paraíso ao Agrobusiness
2.1 Tipologia do estado
Para analisar a política em Mato Grosso, especialmente considerando seu processo histórico na constituição desse campo, é necessário recorrer à tipologia weberiana de exercício de poder e do recurso de tipificação ideal de Estado e seu aparato administrativo (a Burocracia). Tal incursão é necessária, pois, de outro modo não se poderia compreender o traço constante do Estado e da Política regional, marcados, como vimos, pelo entrelaçamento simbiótico de interesse públicos e privados. Desse modo, conceitos como patrimonialismo, clientelismo, coronelismo, são importantes referências para compreensão de uma realidade recheada de contradições e de continuas renovações do conservadorismo que determina as mudanças históricas da região.
Para Schwartzman (1988), na perspectiva weberiana, a burocracia (pela qual se promove a dominação racional-legal) é a expressão estatal que surge quando há uma diminuição das desigualdades econômicas e sociais. A burocracia, portanto, seria intrínseca à democracia de massas moderna. Ela é resultado da ―regularidade abstrata do exercício da autoridade‖ exigida pela demanda por igualdade, pela rejeição ao privilégio e às decisões casuísticas. Citando Bendix, assinala que o patrimonialismo se choca contra a dominação
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O Índice Geral de Cursos (IGC) é a média ponderada das notas dos cursos de graduação e pós - graduação auferida em cada instituição. Sua divulgação acontece anualmente pelo INEP/MEC após divulgação anual do ENADE. Informações disponíveis no site do Ministério da Educação: www.mec.gov.br
racional-legal porque aquele promove a justiça substantiva baseada no favoritismo pessoal enquanto este se limita a um contrato de restrição e ordenamento do exercício do poder. A dominação-racional-legal é ―filha‖, segundo o autor, do patrimonialismo com a burguesia emergente na Europa Ocidental. Esse ―casamento‖ teria se dado, dentre outras razões, para refrear as pretensões por maior poder de vassalos e funcionários graduados. Um modelo de dominação que se mostrou mais adequado ao desenvolvimento do capitalismo, tendo em vista seu caráter de ampliação das bases econômicas e de elevação de status de novos segmentos sociais que, por conseqüência, significou a ampliação e diversificação na composição do campo político.
É a existência de um contrato entre as partes que fundamenta a dominação racional- legal cujas leis e normas definem objetivamente o que pode, deve, ou não, o governante, limitando assim o seu poder arbitrário e os privilégios dele decorrentes. Tomado desse modo, só é possível pensar num contrato entre as partes quando, de fato, as condições de classes (econômicas) e o status social permitem a diversificação dos grupos em disputa pelo poder, exigindo assim um acordo pela enunciação de regras.
A racionalidade formal se opõe à racionalidade substantiva, tanto quanto se opõe ao patrimonialismo antigo, onde o poder era exercido sem regras explícitas e a margem para discricionariedade do governante era total. A racionalidade substantiva tende a maximizar objetivos que não se submetem às regras ou normas legais. Essa racionalidade é típica, segundo Weber, de sociedades em que massas despossuídas são politicamente ativas e mobilizáveis, afetando a opinião pública, podendo levar à ruptura do consenso entre grupos políticos sobre os limites de sua ação. Outro fator que determina a racionalidade substantiva é o que Weber denomina de ―Razões de Estado‖, avocadas pelo detentor do poder a partir de sua própria compreensão a respeito do que sejam tais razões. Esses dois elementos (massas despossuídas e ativas e Razões de Estado) constituem a base dos modelos de estados patrimoniais burocráticos modernos. O fascismo29 é a expressão máxima dessa combinação que reúne num mesmo contexto poder irrestrito e massas despossuídas mobilizadas politicamente.
Para o autor, seguindo a racionalidade weberiana, a dominação racional-legal pode se degenerar para o totalitarismo burocrático, subsistindo somente o conteúdo racional sem o
29Julien Freund (2003), alerta para os equívocos históricos cometidos contra a teoria dos tipos de domínio de Max Weber, em especial a do Poder Carismático e o aparecimento do Nazismo na Alemanha: A teoria do
domínio carismático deu margem por vezes a mal-entendidos, porque se quis ver nele uma prefiguração do regime nazista. Alguns tentaram mesmo fazer de Weber um precursor de Hitler, quando na realidade ele se mantivera estritamente dentro da análise sociológica e de tipo análise sociológica e de tipo ideal de uma forma de domínio que existiu em todos os tempos.
conteúdo legal da burocracia. Este parece ser o caso dos sistemas políticos patrimonialistas contemporâneos ou neopatrimonialismo, onde a racionalidade é exclusivamente técnica. O contrato social ou legalidade é mínimo ou inexistente.
É sobre um tipo de Estado neopatrimonialista que se pode aludir à constituição do Estado em Mato Grosso e, a despeito das transformações que se sucederam ao longo do processo de sua ocupação, formação e diversificação das classes sociais, o patrimonialismo se renova como um traço marcante que informa a cultura política local e o habitus dos agentes públicos. A consolidação da base econômica e as mudanças no campo político se verificarão na trajetória das classes dominantes e elites dirigentes de Mato Grosso. Um tipo de neopatrimonialismo persistente, onde as bases do autoritarismo estão desde sempre presentes na constituição do Estado e de seu aparato.
2.2. Entre leões e raposas: constituição do campo político e do Estado em Mato Grosso
Apesar do aparente isolamento de Mato Grosso em relação ao conjunto da Federação e, em especial, dos grandes centros urbanos do país, o que ocorreu durante todo o processo histórico de constituição dessa região foi o cumprimento de um papel fundamental à conformação não somente do território. Do ponto de vista da conformação política, produziu elites tal qual o ―modelo‖ que se produziu no Brasil, assimilando o padrão patrimolialista30
dessas elites por ser parte integrante dela. O controle do Estado é o foco das disputas dessas elites, que se constituíram em classe dominante e dirigente.
O processo de constituição do Estado Moderno em Mato Grosso tem trajetória similar àquela que se verificou no país, analisado por Florestan Fernandes (1978) em Revolução
Burguesa no Brasil, onde as mudanças que consolidaram o aparato institucional se deram em função de acordos entre as próprias elites. Em razão de ter sido região estratégica para os domínios da Coroa Portuguesa e, do latifúndio ter sido um instrumento dessa política militar, todo o processo da constituição do campo político nesse estado estará circundado por essa forma originária que marcou a apropriação do poder. Os agentes ligados ao domínio da terra serão uma constante na constituição e domínio do poder no campo político. O primeiro personagem que surge na política do estado é do grande proprietário de terras. Enquanto no resto do mundo o capitalismo se consolidava como sistema baseado no binômio urbano-
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Schwartzman (1982) afirma que os estados modernos que foram formados à margem da revolução burguesa podem ser considerados patrimoniais. O patrimonialismo não é somente a permanência de estruturas tradicionais que engendram as sociedades contemporâneas. É uma forma de dominação política, a partir do controle do Estado.
industrial, no Brasil se desenvolvia um modelo que combinava a modernidade do capitalismo industrial e o tradicional modelo agroexportador. Mato Grosso é, sem dúvida, um bom caso para discutir as premissas desse modelo que, sem destoar do rumo geral da acumulação capitalista, cumpria (e cumpre) seu papel tanto no aspecto da política quanto da produção e reprodução econômica.
Tomando os estudos de Neves (1988), sobre elites políticas em Mato Grosso, podemos encontrar momentos distintos na conformação do poder e do campo político nessa região. Entre o Império (1822 a 1889) e a Proclamação da República (1889), consolidou-se o regime dos coronéis, grandes proprietários de terras, donos de usinas de cana-de-açúcar, controladores tanto da produção quanto do comércio. Esse período que se estende até 1906 é denominado de período do ―coronelismo selvagem‖. Tratou-se do processo de consolidação das oligarquias regionais, marcado pela violência patrocinada pelo braço armado do coronelismo. A violência perpetrada por esses agentes volta-se tanto ao enfrentamento e combate aos adversários, revestidos de poder formal/estatal e aos aparatos físicos do poder institucional,31 quanto ao enfrento armado entre grupos adversários fora do Estado. Esse primeiro período de arranjo das elites mato-grossenses vai até 1906, culminando com a morte de um dos maiores líderes políticos da região, o Coronel Antônio Paes de Barros, o Totó Paes, dono da maior e mais moderna usina açucareira, localizada às margens do Rio Cuiabá numa região denominada ―Rio Abaixo‖. Totó Paes, eleito presidente do Estado, foi deposto e morto por grupos armados vindos de várias partes do estado, liderados por seus adversários políticos (antigos aliados). O mais poderoso e violento dos coronéis de então é morto, abrindo caminho para nova composição política entre os grupos de poder.
A política em Mato Grosso impõe a descontinuidade institucional, em razão das intensas e violentas disputas entre grupos oligárquicos, tanto assim que, após 40 anos de República, o Presidente de Estado, Costa Marques, é o primeiro presidente de Mato Grosso a cumprir integralmente um mandato.
É no governo do usineiro Costa Marques (1911-1915) que se inicia nova contenda oligárquica que significou novo arranjo político entre as elites. A questão que deu origem à contenda foi a prorrogação do arrendamento das terras ao sul, de exploração da poderosa empresa Mate Laranjeira.32 Esta pretendia ter prorrogado o arrendamento até 1930. Mas, em
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A literatura sobre a História de Mato Grosso registra várias ocasiões em que a Capital e os aparatos institucionais foram sitiados por grupos armados pertencentes aos coronéis.
32 Como mencionado anteriormente, a empresa Mate Laranjeira foi o principal empreendimento econômico do período da primeira República em Mato Grosso, seu orçamento era 6 vezes maior que o orçamento do Estado de Mato Grosso, portanto, o poder de interferência dessa empresa nas instituições e agentes públicos era
1916, já sob o governo do General Caetano de Albuquerque, a Assembléia Legislativa reduz sensivelmente a área de arrendamento à Mate Laranjeira, acabando com o monopólio da empresa e beneficiando pequenos posseiros do sul do estado.
Pedido o impeachment do Presidente do Estado, novas lutas armadas são travadas com sitiamento da capital Cuiabá por grupos paramilitares. A contenda só termina com acordo entre os grupos oligárquicos, acordo protagonizado pelo governo federal, no qual renunciam tanto o chefe do executivo quanto do legislativo, assumindo o governo o Bispo Dom Aquino Correa que fica no poder até 1921.
As classes dominantes nascem da atividade agrícola baseada na cana-de-açúcar e do controle do comércio local, já que durante todo o período colonial a região produzia apenas para o autosustento e os produtos de exportação eram basicamente, resultado de atividades extrativistas em razão das restrições comerciais da Coroa Portuguesa. A agricultura de autosustento foi a base econômica que produziu a figura do usineiro no século XIX a partir do declínio da mineração. Esses agentes passam a compor o ápice da pirâmide social. Mas é somente a partir da República que o Mato Grosso terá o que seria equivalente à sua ―revolução burguesa‖. Com o controle tanto da produção quanto do comércio os usineiros se constituem na representação máxima das classes dominantes e se convertem também em classe dirigente desde a República até meados do século XX, durante todo o período a República dos Coronéis, conseguiram produzir um sistema de dominação bastante eficaz.
A crise econômica dos anos 20, aliada às influências do movimento Tenentista (1922- 1924) e a Coluna Prestes (1925-1927), são os elementos que compõe a eclosão do movimento em Cuiabá que reunia o funcionalismo público (com atrasos de salários de 8 meses), lideranças militares e civis, urbanas e açucareiras. O plano era a deposição do Governador Estevão Alves Correa, que completava o mandato do Senador Pedro Celestino. O movimento foi traído e suas lideranças presas.
A despeito das mudanças que se operam na constituição dos grupos sociais, é a força dos coronéis através de seus exércitos irregulares que vai colaborar com o governo para combater os revoltosos da Coluna Prestes, se juntando ao efetivo militar do Estado. Tal episódio demonstra de forma inequívoca as relações entre público e privado na base de formação tanto do Estado Nacional quanto subnacional:
muito forte. Tinha como um de seus sócios figuras importantes da política regional: Os irmãos Manuel Murtinho e Joaquim Murtinho. O primeiro foi Ministro do Supremo Tribunal Federa l, presidente de Mato Grosso por duas vezes, compreendendo o período de 1891 a 1895. O segundo Murtinho foi senador por 03 mandatos, chegando a ocupar a vice-presidência do Senado, foi Ministro no Governo de Campos Salles.
O coronelismo, sobretudo da forma como se expressou na Primeira República, seria uma forma peculiar da manifestação do poder privado, uma adaptação do antigo e exorbitante poder privado, na coexistência com um regime político de extensa base representativa. Alimentado pelo poder público que não podia prescindir do eleitorado rural (sob domínio dos proprietários de terras), o poder privado estabelece relações de compromisso com o poder público, numa troca de interesses e proveitos que vai centralizar nos chefes políticos municipais (os ―coronéis‖ do interior, em geral possuidores da grande propriedade) o prestígio político que servirá de fundamento ao sistema coronelista (NEVES, 1988, p. 93).
A entrada de novos agentes na cena política mato-grossense indica um segundo momento na consolidação das elites, com mudanças no seu perfil, incluindo elementos de caráter urbano vindos principalmente do sul do estado33. Sem poder contar com o desenvolvimento industrial que produzisse uma classe burguesa e um operariado capazes de promover as tensões necessárias ao desenvolvimento tipicamente capitalista, Mato Grosso produziu classes sociais do tipo urbano-burocráticas-liberais constituídas por uma classe média que emergirá a partir dos anos 30.34 No entanto, novos atores em cena não produziram rupturas com a velha ordem.
A Revolução de 30, resultante dos movimentos dos anos 20, embora tenha trazido mudanças significativas à política nacional, não significou uma ruptura com as velhas oligarquias. Não obstante, o fator mais importante é o fortalecimento do Estado como um ator político, mediador de interesses e protagonista de uma modernização burguesa conservadora. Esse fortalecimento do Estado está expresso na forma como se deu a ocupação de Mato Grosso a partir de então, como já referido anteriormente.
O terceiro movimento de consolidação das elites mato-grossense, se efetiva no período pós-45, com o Estado Novo, quando se dá a consolidação das classes urbanas ligadas à burocracia estatal, Estado que se consolida como espaço fundamental na luta pelo poder da nomeação dos cargos públicos, de conquistas de privilégios políticos e econômicos enfim, destinado ao controle político através da clientela.
Os segmentos rurais ligados à agricultura perdem espaço para os proprietários ligados à atividade pecuária. A perda de poder militar dos coronéis e o aparecimento de outras atividades econômicas que vão substituindo as atividades açucareiras, somado ao protagonismo que o Estado assume a partir dos anos 30 na cena política regional, fazem com
33 Sul que viria se separar do norte apenas em 1979, embora suas pretensões separatistas estivessem dadas de forma mais clara, desde o início do século XX.
34 É somente no primeiro governo de Vargas, após a Revolução de 30, que os coronéis de Mato Grosso são desarmados sob determinação do Presidente, uma medida que tem como fundamento a necessidade de arregimentação do monopólio da violência para o âmbito do Estado. Uma medida fundamental para a consolidação do Estado na região. É também nesse período que se dá a efetiva libertação dos escravos em Mato Grosso, cujas usinas de açúcar mantinham, até então, sob regime de escravidão os antigos escravos libertos.
que o espaço institucional seja tomado como novo instrumento de poder. É pela conversão da violência bruta, organizada de fora do aparelho de Estado (mas, com anuência deste) que as elites encontram formas de sua perpetuação. As novas classes dirigentes passaram a locupletar dessa função: a de mediação privada no campo estatal, constituindo assim uma rede complexa de clientelismo que passa a organizar o sistema político local. Portanto, da ―política de leões‖ praticada na Primeira República, passa-se à ―política da raposa‖ onde prepondera astúcia e a capacidade de re-arranjos de poder, dispensando, em regra, o confronto aberto e violento. No centro dessa estratégia está o Estado como fonte de legitimação do poder.
De caráter urbano-rural, vinculadas às atividades do comércio e agricultura, as novas elites são marcadas por uma visão de Estado forjada a partir de uma experiência delimitada, profundamente, pela cultura oligárquica. O habitus que se baseia num modelo de desenvolvimento que prescindiu da realização da ―revolução industrial‖, mas, nem por isso, se viu excluído de seus efeitos e tampouco abriu mão de suas tradições políticas.
Tendo em vista as assimetrias produzidas pelo modo como se desenvolveram as regiões no Brasil e, em especial, Mato Grosso, é necessário reconhecer as dificuldades de se generalizar o modo urbano industrial e suas implicações sobre o campo político em nível subnacional. Numa sociedade tão assimétrica o conceito de campo deve ser compreendido não como um todo continum ou homogêneo, onde a luta por capitais obedece às regras próprias do campo. O campo é fluido visto que a valoração dos tipos de capitais é um processo em aberto. O capital cultural, numa sociedade onde não se cristalizaram as relações capitalistas tradicionais, tem sua valoração não estabelecida definitivamente e, portanto, este tipo de capital encontra dificuldades de organizar um ―mercado‖ pelo seu caráter restritivo e pela fragilidade na constituição de um campo próprio que lhe dê sustentação. Tal condição se dá em razão do capital econômico ser prevalecente como objeto de distinção social, de tal modo que restringe a possibilidade de autonomia do campo político e institucional em relação ao campo econômico.35
Buscar a compreensão das políticas de educação como um campo, numa sociedade como a mato-grossense, onde as diferenciações entre público e privado não se constituíram plenamente e onde o Estado está em construção e não se generalizou um modo burocrático, implica considerar o campo como algo também aberto, em especial o campo institucional, ainda suscetível à instabilidade das regras próprias desse campo. Para Bourdieu um dos
35A classe dominante se converte em classe dirigente desde o fim do período colonial. Hoje, apesar de todas as mudanças nas relações de poder, é sintomático que o governador do estado de Mato Grosso seja o megaempresário do agrobusiness Blairo Borges Maggi, maior produtor individual de soja do mundo, cumprindo seu segundo mandato com aprovação política e de opinião pública impressionantes.
princípios definidores do campo é sua autonomia em relação aos demais campos e a especificidade que este apresenta em relação à disputa por um determinado tipo de capital que é o centro desse campo. Ao se referir ao campo científico, Bourdieu nos oferece um bom exemplo da definição de campo:
Quanto mais um campo é heterônomo,mais a concorrência é imperfeita e é mais lícito para os agentes fazer intervir forças não-científicas nas lutas científicas. Ao contrário, quanto mais um campo é autônomo e próximo de uma concorrência pura e perfeita, mais a censura é puramente científica e exclui a intervenção de forças puramente sociais (argumento de autoridade, sanções de carreira, etc.) e as pressões sociais assumem a forma de pressões lógicas, e reciprocamente: para se fazer valer aí, é preciso fazer valer razões; para aí triunfar, é preciso fazer triunfar argumentos, demonstrações e refutações (BOURDIEU, 2004, p. 32).
Mato Grosso revela as restrições do campo político num lugar onde o capitalismo tardio fez-se ainda mais tardio. Embora não apartado do desenvolvimento industrial do país, a participação do Estado se deu de forma marginal em relação ao centro industrial, produzindo formas agudas de poder oligarquizado que adquire capacidade elástica para sua recomposição e permanência no poder. No momento em que o poder público adquire centralidade na acumulação capitalista, passa a ser ele o objeto principal de disputas sem que haja, contudo, um projeto de dominação mais amplo que os interesses pontuais e imediatos das oligarquias.36 O Estado se impõe às oligarquias regionais e estas, por sua vez, se impõem a ele, moldando-o