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2.4. O Programa Arqueológico de Goiás

2.4.1 Fase Mossâmedes

2.4.1.3. Tipologia do material lito-cerâmico e seriação

A reconstituição das formas de vasilhames Aratu, certamente é uma das grandes contribuições do Programa Arqueológico de Goiás. Através do método proposto por Meggers & Evans (1970) onde se considera a borda e a base, bem como o ângulo de inclinação da borda para reconstituir o artefato, foram reconstituídos 16 tipos distintos de vasilhames cerâmicos para a tradição Aratu, configurando um padrão de vasilhames.

A seguir serão discriminadas cada uma das formas reconstituídas com suas devidas características; para tal foram utilizadas as imagens gráficas produzidas por Schmitz et al. na obra “Arqueologia do Centro-sul de Goiás” (1982).

39 A respeito da seriação, método de ampla utilização neste período da arqueologia brasileira, foram utilizados os conhecimentos trazidos por Meggers & Evans (1970). Por meio da análise da composição do antiplástico torna-se possível estabelecer uma sequência crescente inserindo cada forma ou cada sítio em questão num espaço cronológico que determina o objeto que vem antes e depois na escala. No caso da fase Mossâmedes, foram identificados 4 tipos distintos de antiplástico, o cariapé B cuja característica é a presença de fibras vegetais silicificadas, o cariapé A caracterizado pela fibra vegetal cinza com pequenas partículas silicosas, a areia média que contém poucos grãos de quartzo e a areia grossa, com quartzo abundante e de maior tamanho.

Os antiplásticos de origem mineral, areia média e areia grossa, ocupam a parte inferior da sequência, estando ligados a processos mais antigos de manufatura; a partir da metade do gráfico sequencial aumenta gradativamente a utilização dos antiplásticos vegetais, o cariapé, que substituem os minerais, fazendo parte de um momento mais recente que denota uma modificação na técnica de elaboração da pasta. Para confirmação da sequência elaborada foram utilizadas as datações absolutas em C14, que corroboraram a posição cronológica dos sítios (SCHMITZ et al., 1982, p.60).

TABELA 1:Formas definidas para fase Mossâmedes. Fonte: SCHMITZ et. al, 1982.

Forma 1 Contorno: simples

4 Característica das bases citadas: base A – pequena, redonda e aplanada ou côncava; base B – aplanada comânglo de inclinação maior que 45°; base C – aplanada com ângulo de inclinação menor que 45°; base C’ – plana sem distinção de ângulo.

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Obs.: possui formas com entalhes/incisão no lábio bem como apêndice mamilonar

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42 torna-se possível estabelecer uma série de conclusões no que diz respeito ao momento cronológico relativo de utilização, popularidade, receptividade e abandono ao longo do tempo. Utilizando estes dados, bem como os dados da distribuição de formas por sítios trazidas no quadro 4 da publicação referida (1982, p.83), foi possível construir o gráfico a seguir que mostra a popularidade das formas:

43 Gráfico 1: Percentual de ocorrência das formas. Fonte: Schmitz et al., 1982

Observando o gráfico percebe-se que a mais alta concentração do percentual de ocorrências se dá das Formas 2 a 6, que aparecem em mais de 70% dos sítios arqueológicos. Tal constatação, aliada ainda aos dados da sequência seriada, que colocam as Formas de 1 a 6 como presentes do início ao fim sem interrupções, corroboram para a conclusão de que estas figuram entre os vasilhames mais populares dentro da fase Mossâmedes.

Aprofundando a observação dos dados quantitativos e levando-se em conta o caráter tipológico, observa-se que as Formas 2, 3 e 5 destacam-se como as mais populares do grupo; sua forma demonstra serem típicos vasilhames Aratu, de contorno simples, borda não reforçada, formato ovoide ou elipsoide e servindo provavelmente para estocar e servir alimentos.

As Formas 4 e 6 também apresentam um nível alto de popularidade (70%), estando ligadas à função de apresentação dos alimentos, conformando principalmente tigelas mais rasas. A Forma 1, que ocorre em apenas 40% dos sítios, parece representar uma variação da Forma 2, um grande vasilhame piriforme de tipo mais fechado.

As Formas 7, 8, 9 e 10, apresentam baixo nível de ocorrência; a Forma 7, composta de prato e bandejas, ocorre em 30% dos sítios, com a localização na sequência do meio para baixo; as Formas 8 e 9, com contorno infletido e bases mais apontadas, aparecem de maneira irregular na escala de sequência seriada; já a Forma 10, também

40%

44 de contorno infletido e base apontada, tem uma ocorrência significativa do meio para cima da sequência, sem muita popularidade visto que ocorre em apenas 23% dos sítios.

As Formas 11 e 12a voltam a ser populares, ocorrendo respectivamente em 73% e 60% dos sítios; os vasilhames 11 com bases arredondadas e contorno infletido representam vasilhas de preparar alimentos, ocorrendo em toda a sequência, aumentando do meio para cima; a Forma 12a, típicas panelas de base aplanada, ocorre no meio da sequência; o mesmo pode ser observado para a Forma 12b, um típico artefato utilizado para armazenamento e transporte de líquidos, cuja popularidade é ainda menor, ocorrendo em apenas 10% dos sítios.

Já a Forma 13, semelhante a uma grande tigela de servir alimentos ou bebidas, apresenta relativo crescimento na popularidade, ocorrendo em 53% dos sítios, no entanto sua utilização também aparece restrita a apenas um momento cronológico na sequência seriada, o meio. Na metade da seriação aparece também a Forma 14, semelhante à tigela rasa, que ocorre em 60% dos sítios.

Por fim, a Forma 15, que representada pela curiosa vasilha dupla certamente faz parte do rol de artefatos típicos da tradição Aratu, no entanto, sua ocorrência é bastante ocasional (26%), não ficando elucidado o fato de aparecer no topo e na base da sequência. Pode-se inferir que continua a ser produzida ao longo do tempo, não conformando um artefato de uso exclusivamente cotidiano, mas, mesmo assim, não sendo abandonada, podendo ter um sentido de ordem mais simbólica do que prática dentro das atividades do grupo.

Além de perceber a variação das formas cerâmicas ao longo do tempo, consolidando um núcleo com os tipos mais populares, a seriação permitiu que a equipe fizesse determinados apontamentos a respeito dos diversos momentos que compõem a trajetória da fase Mossâmedes.

O primeiro momento considerado de variação na tendência cultural, aparece com a introdução do cariapé e o aparecimento isolado de ombros e bases furadas na cerâmica; os ombros somem, no entanto as bases perfuradas permanecem. Sobre essa variação, consideram: São incorporações de elementos novos, mantendo a tecnologia tradicional. Supomos que esteja ligado a contato com outro grupo (ibid., p.60).

A hipótese do contato é fortalecida quando se considera que os novos elementos aparecem em rio afluente ao Araguaia, na própria bacia do Araguaia e nos contribuintes do Rio Turvo, na bacia do Paranaíba, formando uma área de circulação continua, em meio à Serra Dourada que divide as duas bacias. Segundo tal hipótese, teriam esses

45 sítios representado um corredor de circulação tecnológica entre os grupos que estão situados de um lado e de outro da Serra Dourada, no caso, entre os grupos da tradição Uru, com uso comum do cariapé, e os grupos da tradição Aratu, que usam antiplástico mineral.

O segundo momento perceptível dentro da seriação se dá com a incorporação de elementos Tupiguarani, seja na forma de núcleos puros, bem como de elementos já misturados. Segundo Schmitz, a explicação da incorporação de tecnologias Tupiguarani marca fortemente uma situação de contato: Estes contatos se dão em sítios da parte média e alta do Rio Claro, afluente do Araguaia. Deve estar ligado à tentativa de o Tupiguarani em expansão se apossar desse vale. (ibid., p.60)

Schmitz afirma que sítios Tupiguarani puros foram encontrados na mesma bacia com datas ao redor dos séculos XIV e XV, o que de certa maneira poderá confirmar que em período mais recente estão tentando dominar o vale e empurrando a Tradição Aratu para outras áreas.

Já o terceiro momento acentua o uso do cariapé B e um aumento gradativo no tamanho dos vasilhames, mesmo sem modificar a sua forma. Os autores percebem ainda que existe uma divisão neste momento, entre sítios que se especializam na utilização do Cariapé A e modificam as formas dos vasilhames, podendo ser classificados, de acordo com suas características diferenciadas, dentro da Tradição Uru, e os sítios que se especializam no uso do cariapé B mantendo as formas tradicionais dos vasilhames, transformando-se no que denominam Mossâmedes II. Observam ainda que os sítios que tomam características Uru encontram-se próximos ao Araguaia, ao passo que os demais estão a leste e ao sul, junto à bacia do Paranaíba. De toda maneira, afirmam que neste momento existe uma considerável transformação na cultura com a possível influência dos grupos que utilizam tecnologias amazônicas, o cariapé e a transformação da mandioca tóxica.

Levantam ainda hipóteses baseadas em datações absolutas e relativas para definir o período de ínicio e de fim para a Fase Mossâmedes: Pensamos que o topo da seriação da fase Mossâmedes deva estar ao redor dos séculos XVII e XVIII; a base da seriação deve ser vários séculos anterior ao século IX, podendo chegar ao tempo de Cristo.

(ibid., p.61)

Se analises qualitativas são baseadas, sobretudo nos vasilhames cerâmico, não podemos deixar de levar em conta que estes grupos produziam outros artefatos de grande importância; sobretudo para os grupos Aratu, é comum o uso dos fusos

46 cerâmicos para a manufatura de fios. Os fusos, segundo Schmitz et al. (1982), estão distribuídos desde os sítios mais antigos aos mais novos, não havendo mudança em sua popularidade.

Outro elemento cerâmico que aparece na fase Mossâmedes, no entanto com ocorrências esparsas, é o carimbo cilíndrico, pequenos rolos de massa onde se encontram gravadas matrizes para impressão de figuras geométricas.

O material lítico não é tão abundante, tendo sido dividido em diversas categorias de complexidade de produção; entre os materiais usados sem transformação intencional, são encontrados percutores de seixo, quebra-cocos e polidores em canaleta; para o material lascado têm-se lascas de calcedônia e quartzo, bem como raspadores laterais.

Os artefatos semi-polidos e polidos são os mais representativos: na primeira categoria encontram-se o percutor picoteado, o alisador, o machado, o martelo, o prato, o pilão e a mão-de-pilão; na segunda encontram-se lâminas de machado de gume biselado, com garganta e lâminas de machado semi-lunar, bem como dois tembetás. Segundo a equipe, boa parte do material encontra-se nos sítios Mossâmedes II, em momento mais recente da cronologia. (ibid., p.64)