4 ILAÇÕES E EXTRAPOLAÇÕES
4.2.3 Tipologia e Morfologia para desenhar Planos de Quadras
Através das experiências que relatamos, estabelecemos aqui os Tipos básicos para o desenho
Figura 49 – Mapa figura-fundo de Turim no final do Século XIX.
Fonte: Benévolo, L.; História da Cidade, p. 531; 1997.
Figura 50 – O edifício-linha como solução de Studios.
Fonte: Projeto do autor. (mar/2009).
Foto 22 – Galeria Derby Center, nas Graças, Recife.
de Planos de Quadras Condominiais/Comunitários e os arranjos Morfológicos básicos que poderiam, em princípio, orientar essa prática.
Tipos Arquitetônicos
O edifício de uso misto seria um dos melhores Tipos. Não tanto por sua forma – que pode constituir outros Tipos –, mas, por suas funções e potencial de animação urbana, especialmente em se tratando de habitação e comércio ocupando o mesmo edifício [Fotos 23 a 26]. Quanto à forma, Tipos como o edifício-fita, o edifício-torre, o edifício-galeria, até mesmo o edifício-base/
torre — desde que a Base tenha uso comercial no térreo — constituem Tipologia potencial de
uso, pois o que de fato importa é tornar o pavimento térreo atrativo e movimentado com sua plena utilização pelas atividades comerciais.
O edifício-galeria é um Tipo importante para uma cidade como Recife, localizada em zona de clima úmido e quente. Implantado e alinhado ao paramento das calçadas ele permite, inclusive o alargamento destas com o provimento de sombra para os pedestres. Todavia a prática dos
afastamentos frontais inviabilizou esse Tipo [Foto 25].
Uma variante para o edifício de uso misto seria o edifício-garagem com o pavimento térreo destinado ao comércio e o pavimento de cobertura ocupado por atividades lúdicas e de lazer
Foto 23 – Edifícios de uso misto no Centro do Recife.
Fonte: Google Earth. (out/2017).
Recife.
Fonte: Google Earth. (out/2017). Foto 25 – Edifício Inconfidência,
no Centro Recife.
Fonte: Foto da Arquiteta Andréa Câmara. (mar/2011).
Foto 26 – Av. Guararapes na década de 50 do Século XX, no Centro Recife.
Fonte: Recife de Antigamente, www.facebook.com/ pg/recantigo/photos; foto de autor desconhecido (set/2016).
— os chamados rooftops [Fotos 14 e 15]. Se o edifício-garagem for ‘enformado’ no Tipo edifício-
galeria, isto constituiria um Tipo de forte Dimensão Urbana, provendo solução a uma das
maiores preocupações do Planejamento Municipal que é a retirada dos veículos das ruas do Recife.
Da preocupação com o paramento urbano e os afastamentos frontais — quase sempre ocupados por estacionamentos que criam conflitos com os pedestres —; o sombreamento de calçadas; as fachadas urbanas constituídas por muros sem aberturas; surgiu a ideia do
Tipo edifício-muro ou muro urbano. Um Tipo que faria o papel de limite entre interior
e exterior da quadra. Criaria uma fachada urbana ativa e reconstituiria de significados os limites das ruas e calçadas. Se provido de galeria, ofertaria sombra aos pedestres, serviria para abrigos e paradas de ônibus, guaritas para policiamento. Tendo um ou dois pavimentos, ele ‘afastaria’ a percepção do pedestre dos grandes edifícios junto às calçadas e proporcionaria uma escala mais humana aos pedestres [Fig.51].
Nas experiências da Disciplina de P7, observamos que, algumas vezes, o desenho do muro urbano era impedido pelo Pódio de um grande edifício que ocupava uma área de afastamento frontal. Diante dessas ocorrências e com a premissa de se criar ‘olhos para
as ruas’ surgiu um Tipo alternativo — não se trata realmente de uma nova edificação —
mas de uma intervenção sobre o construído. Um ‘rasgo’ nos Pódios e muros dos grandes edifícios configurou o Tipo furo-urbano. Constituiria uma alternativa para prover algumas ruas e calçadas de usos como o comércio ou serviços e assim prover entradas, janelas, vitrines voltadas para as calçadas [Foto 09].
Morfologias Urbanas
Se estamos avaliando os Planos de Quadras Condominiais/Comunitários como alternativa de controle e de desenho urbano, obviamente a Morfologia que se pretende é a do próprio Plano. Ou seja, seria desejável que todo desenho de Plano de Quadra sempre resultasse na Morfologia de um conjunto arquitetônico harmonioso, coeso. Onde a
Dimensão Urbana da Arquitetura e, especialmente, a Dimensão Arquitetônica da Cidade
fossem mais evidentes do que hoje são.
Como desenhar, um Plano de Quadra Condominial com tal unidade morfológica nas
Figura 51 – Plano de ocupação do Parque de Exposição do Cordeiro por um ´muro- urbano’, Concurso UIA-Cidades, 2003.
atuais condições do espaço urbano do Recife? Pela proposição de unidade cromática de materiais de revestimentos para todas as edificações da quadra? Nivelar a altimetria dos gabaritos das edificações? Propor indistintamente a ocupação periférica da quadra por
edifícios-galerias? Essas seriam premissas muito difíceis de serem concretizadas. Como
uma Tese que propõe um olhar fenomenológico sobre o problema, a nossa premissa é de que aceitemos a realidade e imaginemos outras evidências (SIZA, 2011).
Muitas quadras do Recife apresentam ocupações variadas. Possuem edificações de grande, médio e pequeno porte. Apenas as construções de pequeno porte apresentam potencial de substituição quase imediata. Por outro lado, algumas dessas pequenas edificações possuem aspectos arquitetônicos e estilísticos passíveis de preservação. Esses elementos de pré-existência por ‘inércia de porte ou memória’ não permitem considerar o desenho de Planos de Quadras por soluções ousadas e baseadas numa homogeneização fácil e ideal. É preciso estabelecer premissas e parâmetros para o melhor desenho possível, diante de uma realidade urbana, à qual não se quer aplicar a ideia de tabula rasa.
Portzamparc, por exemplo, definiu algumas dessas premissas e parâmetros para o desenho da Quadra Aberta — inclusive quantitativamente — como uma espécie de ‘legislação’ urbanística, sem, contudo, prescindir de desenhar os espaços entre os edifícios que configuravam a quadra. Permeabilidade, percentagem de ocupação linear periférica da quadra, afastamento mínimo entre as edificações e outros, foram premissas adotadas pelo arquiteto francês. E nenhum desses parâmetros estabelecidos revelava a pretensão de ter a máxima unidade formal arquitetônica e urbana como no Plano de Expansão de Barcelona de Cerdá, por exemplo.
Então, quando aqui falamos de Morfologias Urbanas, o que tentamos é estabelecer as premissas e parâmetros extrínsecos à edificação para orientar o desenho daquilo que poderia ser considerado um bom Plano de Quadra Condominial/Comunitário, diante da realidade do ambiente construído do Recife.
Por nossas experimentações e experiências elencamos algumas:
[I] Permeabilidade urbana entre as edificações, de maneira que se possa até atravessar a quadra de uma rua à outra, o que implica em desenhar a melhor relação entre espaços abertos e construídos; [II] Abrir o centro da quadra desenhando espaços abertos que se assemelhem a um pátio interior; [III] Acessibilidade ao interior da quadra resultante de um desenho que permita, também, o controle de acessos; [IV] Para esse controle, reocupar a
periferia da quadra, se possível, com o edifício muro-urbano ou o edifício-galeria; [V] Seria
propício constituir uma fachada urbana como um elemento morfológico de ‘acolhimento’, junto às calçadas e mais uma vez o muro-urbano com galerias poderia fazer este papel;
[VI] Implantar os edifícios do Tipo Torre/Pódio, com um maior afastamento em relação
às ruas, mediados pelo muro-urbano; [VII] Seria adequado adotar premissas relativas ao
Planejamento das atividades com o incentivo à variedade de usos na quadra; [VIII] Assim como incentivar a densidade de atividades e de pessoas — moradores ou não, e; [IX] Tratar os edifícios dignos de memória urbana como elementos da Comunidade de Quadra. Os Planos de Quadras Condominiais/Comunitários não poderiam tratar apenas da
qualidade da cidade. Assim, como as LUOS vêm tratando, há um bom tempo, mais da quantidade; também, os Planos precisariam tratar da intensidade de uso e ocupação
do solo. Porém, em princípio, os Planos de Quadras poderiam atender aos coeficientes estabelecidos pela LUOS para as suas respectivas áreas da cidade, com a ressalva de que os coeficientes seriam aplicados à quadra. Mas, os resultados morfológicos poderiam ser estudados e avaliados em relação a possibilidade de incremento da quantidade sem, contudo, perder a qualidade.
Experimentando uma Quadra no Bairro das Graças
No final de 2013 iniciamos um trabalho de estudo e análise morfológica similar àquele que fizéramos quando integrávamos equipe da Secretaria de Planejamento Urbano da Prefeitura do Recife, em 1995.
Neste trabalho visávamos estudar um setor urbano do bairro das Graças — especificamente quatro quadras — onde transformações morfológicas vinham ocorrendo em razão da ocupação de várias dessas quadras por uma grande universidade privada13.
A ocupação de lotes nessas quadras pela UNINASSAU ainda ocorre de maneira descoordenada. À medida que esta adquire terrenos, empreende novos edifícios educacionais desconectados uns dos outros, pois se localizam em terrenos e quadras diferentes.
O trabalho tinha o intento de estudar alternativas de estabelecer conexões entre essas edificações esparsas e redesenhar a ocupação dessas quadras através de Planos de Quadras. O trabalho não teve prosseguimento, apesar de alguns levantamentos morfológicos terem sido iniciados para fim de elaboração de proposta de trabalho.
Percebemos, com esta Tese, que este setor urbano poderia constituir um primeiro campo
13 A Universidade Maurício de Nassau-UNINASSAU Foto 27 – Quadra de estudo no Bairro da Graça, Recife.
de experimentações na aplicação dos
elementos morfológicos e tipológicos culturais para o desenho de um Plano de Quadra Condominial/Comunitário. Assim,
selecionamos uma quadra daquele setor do bairro das Graças para aplicação de um estudo de simulações [Foto 27].
A quadra selecionada apresentava características que considerávamos apropriadas para essa experimentação.
Possui grandes dimensões — cerca de três hectares —, planimetria não ortogonal com lotes de variadas configurações, edificações com variadas intensidades de uso e ocupação do solo — de 1 até 20 pavimentos. A ocupação por edifícios mais altos é intercalada por edificações de menor altura e a quadra apresenta potencial para remembramento de lotes.
Percebemos, num primeiro momento, que a pretensa intenção de desenhar uma
Morfologia de conjunto não seria fácil ante as inércias morfológicas pré-existentes nessa
quadra. Some-se a essas inérciasde porte, o fato de que algumas edificações apresentam características arquitetônicas e estilísticas merecedoras de um trabalho de restauro, recuperação e preservação [Foto 28].
Em acordo com a LUOS vigente — cujos parâmetros estão no Plano Diretor — a quadra está inserida na chamada ZAC-Controlada II, ou a Área dos 12 Bairros, cujos parâmetros estão descritos na Lei 16.719/2001.
A quadra em questão está localizada no Setor SRU-1, descrito na Lei dos 12 Bairros como um Setor de densidade construtiva já estabelecida e, por isso mesmo, seria uma área mais permissiva quanto aos coeficientes de construção, solo natural e gabaritos. Neste está liberado o remembramento de lotes, sua taxa de solo natural é de 30% e os gabaritos e coeficiente são definidos em função da localização em relação à rua.
As ruas que delimitam a quadra são a Rua Ana Angélica [Gabarito 60m e Coeficiente 3,50]; Rua Amaro Bezerra [Gabarito 48m e Coeficiente 3,00]; Rua Guilherme Pinto [Gabarito 48m e Coeficiente 3,00]; Rua Joaquim Nabuco [Gabarito 60m e Coeficiente 3,50] e Rua Manoel Caetano [Gabarito 48m e Coeficiente 3,00]. Supostamente gabaritos e potenciais estariam definidos em razão da largura das vias. Isto se torna contraditório quando se verifica que a Rua Ana Angélica, uma rua estreita e sem saída, possui os maiores índices da ARU [Mapa 01].
Foto 28 – Imóvel antigo na quadra de estudo no Bairro da Graça, descaracterizado.