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CAPÍTULO II - Violência Política de Gênero

2.3. Tipologia

Experiências no Brasil sugerem a necessidade de ampliar as definições existentes de violência política contra mulheres, ampliando o foco da ênfase nas reações ao aumento do número de mulheres na política95para incluir esforços para minar o fortalecimento de feminismo na sociedade e o crescimento do ativismo feminista dentro do estado (BIROLI, 2018 p.684).96

Seguindo esse imperativo da necessidade, as definições que usarei e as próprias críticas e análises que tecerei no próximo tópico, quanto à tipologia da VPG, visam ampliar as definições e conceitos já existentes, trazendo outras formas e categorias de violência com as quais as mulheres ativas na política possam se identificar. Para tanto, o meu foco será direcionar as categorizações da violência para entendimentos que possam endereçar integralmente as diferentes opressões que as mulheres enfrentam, tendo como norte o enfrentamento da violência para o fortalecimento de lideranças e vozes em seus territórios.

Fonte: Contentious Politics and Political Violence, Groups and Identities, Political Behavior.

Oxford Research Encyclopedia of Politics. (BARDALL, 2018, p.5). Tradução da autora.

A tipologia internacional oferecida se assemelha, apenas quanto aos tipos, à tipologia já anteriormente debatida quanto à violência doméstica e de gênero, como é possível verificar na Lei Maria da Penha101. As dinâmicas da violência observadas no âmbito das relações privadas diferem completamente daquelas relacionadas à participação política, todavia as dimensões consideradas são semelhantes: a principal diferença trazida pela tipologia da violência política de gênero estaria na violência categorizada como simbólica.

No Brasil, há propostas de atualização dos tipos de violência política considerando o contexto brasileiro. Pesquisa realizada pelo Instituto Marielle Franco (2020) dá indicações da tipologia que está sendo realizada por ativistas brasileiras, quando assim apresenta outra categorização, que considera oito tipos de violência política de gênero e raça distintos. Nesse estudo, as categorias da violência sofrida por candidatas negras no período pré-eleitoral, durante a eleição e após serem eleitas foram:

1. violência virtual102; 2.moral/psicológica, 3.institucional, 4.racial, 5.física, 6.sexual, 7.

de gênero e/ou 8.LBTQIA+103. Chama a atenção que no questionário utilizado pelo Instituto uma nova categorização, na qual o tipo “institucional”104incluiria situações de violência econômica. Ainda, a ausência da categoria simbólica corrobora as reflexões que serão tecidas em meu trabalho.

104Aqui também chama a atenção o uso de uma nova categoria para definir violências já conhecidas, mas separando então por quem pratica, como a instituição.

103Aqui também, a meu ver já estaria incluído em um entendimento ampliado da Violência Política de Gênero. Seria mais um marcador, como o racismo. A lgbtfobia agrava a violência experienciada.

102Chama a atenção a violência virtual descrita como um novo tipo, visto que a internet é apenas um meio no qual as velhas formas de violência são exercidas.

101Brasil, Lei nº11.340/2006. Na lei Maria da Penha a violência econômica é trazida como patrimonial.

A violência simbólica descreve situações nas quais estereótiposde gênero são usados para inibir a atividade política das mulheres (Krook, Sanin; 2016, p. 147-151), elaborada pelas autoras a partir do conceito de Bourdieu (1984), que assim a define: “O que denomino de violência simbólica ou dominação simbólica, ou seja, formas de coerção que se baseiam em acordos não conscientes entre as estruturas objetivas e as estruturas mentais” (Bourdieu, 2012: 239). Há aqui o vínculo entre o uso de estereótipos e uma forma de coerção, que afetariam o exercício da cidadania - e da participação política - a partir da identidade.

O exemplo do racismo e das políticas de branqueamento, que não estão ligados diretamente à violência política de gênero, nos ajuda a entender a força da violência simbólica. A cultura brasileira sempre reproduziu uma série de estereótipos sexuais sobre negros, estigmas que sempre procuraram justificar a opressão racial sofrida e a inferioridade política desse grupo. Nesse sentido, formulações científicas sobre a sexualidade serviram para marcar o corpo negro como um elemento indesejável devido à corrupção que trazia para a nação. A miscigenação foi então a “política pública”

encontrada para eliminar esse problema social em virtude da superioridade genética dos imigrantes europeus que chegavam ao país para melhorar a nossa composição racial (Moreira, 2016, p. 16).

Patrícia Hill Collins (2019), ainda que também não se referisse especificamente à violência de gênero na política, oferece ferramentas para entender a tipologia da violência política contra as mulheres e sua dimensãosimbólico-ideológica. Ao tratar de três dimensões interdependentes da opressão das afro-americanas nos Estados Unidos, aduz que a primeira dimensão estaria na exploração do trabalho das mulheres negras; a segunda, a dimensão política da opressão, negaria direitos e privilégios que costumam ser estendidos aos cidadãos brancos do sexo masculino; a terceira se referia à dimensão ideológica, a partir de “imagens de controle”surgidas na época da escravidão e ainda hoje aplicadas às mulheres negras e que são usadas para justificar a opressão:

Quando falo em ideologia, refiro-me a um corpo de ideias que reflete os interesses de um grupo de pessoas. Na cultura estadunidense, as ideologias racista e sexista permeiam a estrutura social a tal ponto que se tornam hegemônicas, ou seja, são vistas como naturais, normais e inevitáveis. Nesse contexto, certas qualidades supostamente relacionadas às mulheres negras são usadas para justificar a opressão. (Collins, 2019,p.35)

A categoria da violência simbólica aborda então determinados acordos culturais que inferiorizam as mulheres e minoram suas oportunidades, excluindo-as da participação social. A crítica que busco tecer aqui é que essa violência não é um tipo, uma categoria, mas sim uma violência que acontece de forma ampla na sociedade e na construção da cidadania. Materializada através do uso de estereótipos ou imagens de controle responsáveis pela criação e perpetuação de uma ideologia de desvantagens sociais ao longo do tempo, esse tipo de violência é a mais estrutural, e aqui defendo que possa ser inerente ao espaço político e suas ferramentas de exclusão, ou seja, que a violência simbólica é necessária para a criação e manutenção de categorias de pessoas em uma condição de subordinação permanente na sociedade e, portanto, permitem a continuidade da exclusão na política (violência política). Reforça esse entendimento a noção de que o problema da violência política é um “delito mensagem”, conforme considerado por Krook e Sanín (2016), em referência a Iganski, 2001, visto que tem o objetivo de negar o acesso igualitário a direitos, ao mesmo tempo em que cria um efeito dominó que aumenta a sensação de vulnerabilidade entre outros membros desse grupo.