3. A VIDA DAS MULHERES NEGRAS NO BRASIL
4.2 Tipos de políticas públicas
4.2.3 Tipologias de Gormely, Gustafsson, Bonzeman e Pandey
Do debate realizado pela literatura no campo, através da contribuição de
es-tudiosos dentre os quais Gormely, Gustafsson, Bonzeman e Pandey se destacam,
emergiu outras tipologias
Gormley (1968 apud SECCHI, 2014) constrói uma tipologia na qual considera
o nível de saliência e o nível de complexidade da política pública. Significa dizer que
a capacidade de atrair a atenção da sociedade e o conhecimento especializado
ne-cessário para sua elaboração e implementação é o que fundamenta a classificação
por ele proposta.
Para o autor, conforme apresenta Secchi (2014, p. 28) “[...] um assunto é
sali-ente quando ‘afeta um grande número de pessoas de modo significativo’ e é
com-plexo quando ‘levanta questões fatuais que não podem ser respondidas por
genera-listas ou amadores’”.
A saliência nesse aspecto tem relação com grau de visibilidade das políticas
em uma sociedade; assim ela incentiva a atividade política por parte dos atores e
atrizes políticos bem como de representantes eleito/as e influencia o grau de
ativida-de institucional.
A complexidade técnica por sua vez se refere ao nível de conhecimento
ne-cessário para a formulação e a implementação de uma política pública. A partir do
ajuste entre essas variáveis, quais sejam nível de saliência e nível de complexidade
Gormley identifica quatro padrões de políticas públicas, cada um deles envolvendo
uma configuração própria de participantes, de critérios de escolha ou decisão e de
distorções:
Políticas de sala operatória que caracterizam-se por elevada complexidade e
muita saliência, ou seja: exigem profundo conhecimento técnico e têm muita
visibili-dade, pois envolve temas muito sensíveis e por isso atraem a atenção da
socieda-de. Ex.: legislação sobre agrotóxicos.
Políticas de audiência cuja a complexidade é baixa, mas que desperta o
inte-resse da população de forma intensa, ou sejam são muita salientes. Para serem
elaboradas não requerem conhecimentos especializados, mas por se relacionarem
com valores morais e ideologias atraem a atenção do público. Ex.: descriminalização
do aborto.
Políticas de Sala de Reuniões: são políticas que demandam conhecimento
técnico especializado, por tanto de complexidade técnica, mas tem pouca saliência,
sendo pouco visíveis e recebendo pouca atenção da sociedade. Ex.: tributária,
regu-lamentação do setor financeiro, etc.;
Políticas de Baixo Escalão são políticas de agregam de baixa complexidade
técnica e pouca saliência. Não exigem conhecimentos específicos e atraem pouca
atenção popular. Habitualmente, estão relacionadas a rotinas administrativas,
regu-lamentos simples, etc.
A intenção dos governantes de implementar a política e a disponibilidade de
conhecimento para sua formulação e implementação, são as premissas sob as quais
Gustafsson (1983) sugere a classificação das políticas públicas.
Na visão do autor, políticas reais: são as políticas públicas formuladas com
conhecimento técnico para resolver intencionalmente determinado problema. Há
in-tenção efetiva de implementar a política para resolver um problema e o
conhecimen-to necessário para tanconhecimen-to. Nesse caso, selecionam-se as estratégias e alocam-se os
recursos com a finalidade de que os problemas políticos sejam, de fato, resolvidos;
Políticas Simbólicas são políticas cuja intenção está mais para o ganho de
capital político do que para enfrentamento de um problema, nesse contexto, ainda
que disponham de conhecimento necessário, não há intenção de implementar as
políticas. Não há compromisso governamental com sua implementação, visa-se
apenas oferecer uma aparente resposta às demandas.
Gustafsson (1983 apud SECCHI, 2014) apresenta as Pseudopolítica como
sendo aquelas em que até existe uma intenção governamental de implementar,
con-tudo não há conhecimento técnico para atender à demanda.
As políticas para as mulheres que tem sido implementada em muitos Estados
e municípios Brasil afora tem tal característica. Embora haja um esforço na busca de
especialistas em formulação de projetos, consultores de políticas para as mulheres
dentre outras/os profissionais especializados, indicando o interesse em formular e
implementar políticas efetivas; verifica-se, que eles enfrentam problemas de baixa
capacidade de gestão, o que compromete as possibilidades de atender efetivamente
às demandas por tais políticas públicas.
Por último o autor apresenta as políticas sem sentido: que são iniciativas
ela-boradas sem conhecimento técnico acerca de um problema que não se tem intenção
de enfrentar e resolver, ou seja não existe intenção dos gestores em implementar.
Sua utilização não ultrapassa discurso político e nota-se a ausência de compromisso
para com a satisfação das demandas.
A tipologia proposta por Bonzeman e Pandey (2004 apud SECCHI, 2014),
di-ferencia as políticas públicas em políticas de conteúdo técnico e políticas conteúdo
político, embora reconheçam que todas as políticas possuem ao mesmo tempo
con-teúdo técnico e político.
Evidente que em determinadas políticas os aspectos políticos terão mais
rele-vância ao passo que em outras se destacarão os aspectos técnicos.
Nesse diapasão, as políticas de conteúdo político são geralmente
redistributi-vas ou de grupos de interesses, desde a elaboração já se tem conhecimento de
quem perde e quem será beneficiado. Existe um conflito tanto na ordem dos
objeti-vos e quanto na definição deles.
Já as políticas de conteúdo técnico geralmente apresentam mais conflitos no
que concernem ao método do que em relação aos objetivos.
Souza (2006) apresenta a abordagem para a qual a política pública funciona
como um ciclo deliberativo composto pela definição de agenda, identificação de
al-ternativas, avaliação das opções, seleção das opções, implementação e avaliação,
como uma das tipologias da política pública. No entanto, neste trabalho adotamos o
entendimento de que o ciclo de política pública é um processo de elaboração de
po-líticas públicas pelo qual todas as tipologias passam e dada a sua importância para
as políticas paras as mulheres será abordado no capítulo a seguir.
5 PERSPECTIVAS FEMINISTAS SOBRE O CICLO DE POLÍTICAS PÚBLICAS E
No documento
UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação
(páginas 56-60)