PRAGMÁTICA SOCIAL UNIVERSAL
1.3. SOBRE O CONCEITO DE PRETENSÕES DE VALIDADE
1.4.2. Tipos de argumentos
Tendo em vista que existem três tipos paradigmáticos de pretensões de validade e que para cada tipo de pretensão de validade existe um tipo específico de argumento podemos concluir que existem três modos distintos de utilizar argumentos.
- Lançando mão de uma explicação causal, isto é, apontando para circunstâncias causadoras de um evento. Ex.: o controle remoto da TV não está funcionando. Por que? Argumento: as pilhas do controle remoto estão sem carga.
- Apelando para uma justificativa normativa, isto é, apontando para regras justificadoras legitimadoras ou autorizadoras de uma sociedade. Ex.: o sistema tributário brasileiro é passível de críticas. Por que? Argumento: este sistema é injusto (Habermas, 2012, p. 54).
- Apoiando-nos numa explicação psicológica, isto é, apresentando motivos subjetivos ou circunstâncias justificadoras de uma atitude ou evento pessoal: Ex.: você está extremamente irritado hoje. Por que? Argumento: roubaram meu celular no caminho para a faculdade.
1.4.3. Sobre a linguagem dos argumentos.
Uma questão interessante se coloca neste ponto: qual seria o canal mais adequado para a prática da argumentação? Seria a prática discursiva tal qual acontece nos laboratórios científicos? Ou seria tambem a prática comunicativa cotidiana que utiliza a linguagem comum? É sabido que a filosofia sempre caracterizou, desde os primórdios a partir de Platão, a ação de “dar e receber razões” como sua tarefa principal. Com isso ela designou a prática discursiva formal como o lugar mais adequado para explicações, argumentações e fundamentações, relegando a prática comunicativa cotidiana para um segundo plano baseada no argumento de que ela atrapalha o trabalho racional. E tal postura foi encampada pela prática científica. Habermas discorda deste modo taxionômico de situar os argumentos. Para ele, a prática discursiva permeia tanto a linguagem dos trabalhos e práticas profissionais das ciências, da filosofia, do direito, da política, etc., como as formas mais elásticas da comunicação cotidiana
Por conseguinte, não pode haver uma razão de ordem superior capaz de privar a práxis do dia-a-dia da capacidade de produzir argumentos racionalmente convincentes.
1.4.4. Habermas apresenta quatro argumentos a favor de sua pretensão de
validade quanto a este ponto:
(1) Os dois campos de argumentação, isto é, a esfera da comunicação cotidiana e o campo dos discursos dos experts em ciência, moral, política, direito, estética, etc., não constituem mônadas isoladas uma da outra, mas espaços porosos e inseparáveis que permitem a livre circulação de argumentos. Estes como que vagueiam e flutuam entre a ampla, elíptica e transbordante corrente da comunicação cotidiana e os discursos extremamente canalizados e especializados das pesquisas científicas.
(2) Os teóricos que localizam os argumentos unicamente na linguagem das ciências passam por alto um detalhe importante: os próprios argumentos utilizados na prática científica não são imunes à pragmaticidade: Eles herdam, por assim dizer, da comunicação cotidiana uma espécie de papel pragmático, que consiste na troca discursiva de argumentos que esclarecem algo opaco, mal entendido, ininteligível, irritante ou inquietador provocado por eventos e, inclusive por ações humanas (Habermas, 2012, p. 54-55).
(3) Quem concentrasse os argumentos unicamente no campo dos discursos científicos não estaria propondo apenas uma separação falsa, insustentável, entre os argumentos e o mundo do dia-a-dia. Ele estaria prejudicando nossa compreensão epistêmica do mundo em geral. E desse estreitamento resultaria uma determinação unilateral do papel pragmático dos argumentos, o qual é muito mais amplo do que o campo da argumentação científica, uma vez que os argumentos não servem apenas para o esclarecimento de pessoas sobre o mundo objetivo, mas também sobre o mundo subjetivo de cada um e sobre a sociedade, conforme foi assinalado mais acima na abordagem das pretensões de validade:
(4) Nas relações das pessoas entre si a função dos argumentos não consiste apenas em preencher lacunas na compreensão objetiva, científica ou técnica do mundo, porquanto eles também são capazes de evitar rupturas no fluxo das interações sociais. Habermas
utiliza neste ponto uma imagem bastante plástica: na comunicação cotidiana os argumentos funcionam, em primeira linha, como uma espécie de amortecedor ou de “cola” capaz de cimentar ou aglutinar uma cooperação intersubjetiva estremecida (Habermas, 2012, p. 55-56).
Explicando melhor: ao possibilitarem o entrelaçamento social de ações os argumentos viabilizam e, dado o caso, reparam ou reconstituem a acoplagem das intenções da ação de um participante às intenções do outro. E neste caso não se trata, em primeiro lugar, de esclarecer eventos ou ações que detectamos no mundo objetivo. Trata-se principalmente de justificar ou esclarecer proposições ou enfoques mediante os quais outras pessoas abordam o mundo. Isso torna possível entender porque outra pessoa tem os sentimentos e convicções que tem e as intenções que manifesta. E desta forma os argumentos podem restabelecer a relação epistêmica
ou racional com um mundo familiar, a qual tinha sido abalada, por exemplo, devido a uma incompreensão ou um mal-entendido. Não há, pois, como privar a prática de comunicação que acontece no dia-a-dia da capacidade de gerar argumentos corretos e racionalmente convincentes.
Esta afirmação pode ser visualizada mediante o tipo de respostas dadas ao seguinte questionamento: “No seu entender, o controle da ONU sobre as instalações atômicas do Iran é eficaz? ”.
Caso o destinatário desta pergunta seja uma pessoa comum sem conhecimento especializado e que esteja, mesmo assim, convencida da eficácia deste controle ela pode argumentar apontando para notícias que leu em jornais, que viu na TV e outros meios da comunicação cotidiana. Sua argumentação conterá muitos, rodeios, elipses, etc. Mas é incontestável o fato de que sua posição é razoável porquanto apoiada em informações que circulam naquele momento nos meios de comunicação, muitos dos quais também consultam especialistas.
E se a pergunta for dirigida a um especialista no assunto que também está convencido da eficácia do controle, sua resposta estará apoiada em textos de revistas especializadas, em cálculos complexos, em argumentos apoiados em probabilidades, etc. Numa palavra, ele tentará argumentar a partir de análises científicas e resultados obtidos em órgãos competentes, etc., que se distanciam da prática comunicativa cotidiana.
Nesse exemplo transparece claramente a porosidade dos dois campos da argumentação, apontada por Habermas, isto é, a inseparabilidade entre a prática argumentativa cotidiana e os discursos extremamente canalizados das ciências.
1.5. SOBRE A NOÇÃO DE MUNDO DA VIDA
Este conceito complexo e fecundo é oriundo da fenomenologia husserliana, tendo sido desdobrado por Alfred Schütz numa teoria da sociedade e reinterpretado por Habermas em termos de uma teoria da atividade comunicativa.
Para E. Husserl, toda ciência lança raízes no mundo da vida que é o solo inquestionável, o horizonte de sentido do pensamento e da ação cotidiana. Com essas funções, o mundo da vida constitui uma esfera primordial num duplo sentido: É o universo das autoevidências transcendentais. E o mundo da vida diário prático, visível e concreto. (Husserl, (1936) (1954).
Alfred Schütz, por seu turno, utiliza o conceito de mundo da vida para uma análise do mundo social. Para ele, o mundo da vida passa a ser o mundo do dia-a-dia, isto é, o mundo em que cada um vive, pensa, age, trabalha e se entende com os outros. Este mundo é simplesmente dado de antemão e aceito como algo inquestionável, como solo autoevidente de todos os eventos. (Schütz, 1932).
Além disso, o mundo do dia-a-dia é, desde o início, um mundo cultural intersubjetivo no qual os fatos sempre são fatos interpretados que remetem a conjuntos de sentido ou padrões de interpretação.
O conceito de mundo da vida habermasiano é, de um lado, tributário de Husserl e Schütz. De outro lado, porém, ele vai além, reformulando e alargando o conceito monológico de Husserl. É possível afirmar, em síntese que Habermas substitui a subjetividade monológica por uma intersubjetividade dialógica.
Os cinco pontos seguintes podem, no meu entender, esclarecer os principais aspectos da reconstrução habermasiana do mundo da vida, a qual contem elementos husserlianos, schützianos e wittgensteinianos:
1) O mundo da vida constitui um horizonte de coisas evidentes por si mesmas, não problemáticas, familiares, o qual funciona como plano de fundo holístico:
“Quando falantes e ouvintes procuram entender-se frontalmente entre si sobre algo no mundo eles se movimentam no interior do horizonte de seu mundo da vida comum, o
qual permanece às costas dos participantes na forma de um plano de fundo holista, não problemático, indivisível e sabido intuitivamente”.
2) O mundo da vida constitui um lugar transcendental no qual os falantes e ouvintes se encontram desde sempre:
“neste lugar eles podem erguer reciprocamente a pretensão de que suas elocuções combinam com o mundo objetivo. E onde podem confirmar ou criticar pretensões de validade e quiçá chegar a um entendimento (Habermas, 1981, p. 192)
3) O mundo da vida assume as figuras da cultura, da sociedade e da personalidade: “Caracterizo como cultura o celeiro de saberes e interpretações dos quais os participantes da comunicação lançam mão quando tentam chegar a um entendimento sobre algo no mundo. Entendo como sociedade as ordens legítimas mediante as quais os participantes da comunicação regulam sua pertença a grupos sociais a fim de garantir solidariedade. E utilizo o termo personalidade a fim de caracterizar as competências necessárias a um sujeito capaz de fala e ação, isto é, as competências que o tornam capaz de participar de processos de entendimento que lhe permitem firmar sua identidade” (Habermas, 1981, p. 209).
4) O mundo da vida encontra-se numa relação dialética com a atividade comunicativa. Isso porque ele serve não somente à transmissão de um saber cultural como tambem à sua detonação no âmbito da cultura, da integração social e na formação de identidades pessoais, dado o fato de que a reprodução do mundo da vida é entendida como uma unidade dialética entre continuidade e ruptura. Esse saber cultural funciona como uma espécie de amortecedor que mantem o fluxo da comunicação do dia-a-dia (Habermas, 2002, p. 56).
5) Finalmente, o mundo da vida é caracterizado como metáfora de um espaço que incorpora sentido e guarda simbolicamente argumentos. (Habermas, 2012, p. 54-76). A tese sobre o mundo da vida como espaço de argumentos é alavancada especialmente por esta metáfora.
Penso que o conjunto de considerações preliminares apresentadas acima nos coloca em condições de entender melhor a tese habermasiana que caracteriza o mundo da vida como