1.8 Arte da Argumentação
1.8.3. Técnicas argumentativas
1.8.3.2 Tipos de argumento
Muitos são os tipos de argumentos empregados pelos oradores com diferentes fins. Porém, selecionamos, entre os argumentos elencados por Reboul (2004) e Perelman; Olbrechts-Tyteca (1996), aqueles que auxiliam a nossa análise.
Perelman; Olbrechts-Tyteca (1996) ratificam a existência de argumentos que buscam estabelecer a sintonia entre o que a tese propõe e o que já se tem admitido pelo auditório. Esses argumentos são chamados de ligação e se reúnem em três
classes: argumentos quase lógicos, argumentos fundados na estrutura do real e argumentos que fundam a estrutura do real.
I- Os argumentos quase lógicos, segundo Reboul (2004), são os que se assemelham aos argumentos que seguem a lógica formal, porém são passíveis de refutação por não terem valor conclusivo (e por isso são retóricos). Fazem parte dessa categoria os argumentos:
1- Incompatibilidade
As incompatibilidades variam de acordo com os meios e a cultura e estão vinculadas à retorção, ou seja, retomar o argumento do adversário e usá-lo contra ele mesmo (REBOUL, 2004). Há a impossibilidade de duas asserções serem simultaneamente verdadeiras.
Perelman; Olbrechts-Tyteca (1996, p.223) usam, para ilustrar esse tipo de argumento, o exemplo de La Bruyère (s/d):
A neutralidade entre mulheres que são igualmente amigas nossas, conquanto tenham elas rompido por interesses em que não tínhamos participação alguma, é um pouco difícil: cumpre escolher entre elas ou perdê-las ambas.
Um dos argumentos de incompatibilidade é o argumento do ridículo, “o odioso desenvenenado, que não provoca escândalo, mas riso” (REBOUL, 2004, p.170). Não chega a merecer uma crítica severa, por isso podemos dizer que a ironia é a figura para esse argumento.
Perelman ; Olbrechts-Tyteca (1996, p.235), a fim de elucidar o argumento do ridículo, apresenta-nos um fato ocorrido na Bélgica em 1877:
o ministro católico da Justiça decide não processar, apesar da lei penal que proteja a liberdade do eleitor, os párocos que ameaçavam com penas do inferno suas ovelhas que votassem pelo partido liberal, o tribuno Paul Janson ridiculariza o ministro: este, duvidando da seriedade de semelhantes ameaças, comete “uma verdadeira heresia religiosa.
2- Definição
Quando se busca uma identidade entre o que é definido e o que define. “Toda definição é um argumento, pois impõe determinado sentido, geralmente em detrimento dos outros” (REBOUL, 2004, p.173). Segundo Perelman; Olbrechts- Tyteca (1996), ela pode ser:
2.1- Normativa – impõe como convenção o uso de uma palavra que deve ser mantida durante todo o discurso para ser aceita. Esse tipo depende do acordo entre orador e auditório.
Um exemplo de acordo e definição é a fala de Oswald de Andrade(2000, p.99):
Aprendi com meu filho de 10 anos que poesia é o descobrimento das coisas que nunca vira antes.
2.2- Descritiva (ou real) – não se impõe mais o uso de uma palavra, mas sim o seu sentido corrente, ela pode ser verdadeira ou falsa. Podemos ilustrar com a definição de poesia do dicionário Houaiss (2009, p.1514): Composição em versos (livres e/ou providos de rima), geralmente com associações harmoniosas de palavras, ritmos e imagens.
2.3- Condensada – definição descritiva que se restringe às características essenciais, omitindo-se as outras particularidades.
Poesia: arte de compor ou escrever versos (Houaiss, 2009, p.1514).
2.4- Complexa – combina de maneira variada, a normativa, a descritiva e a condensada.
3- Sacrifício
Esse tipo de argumento indica que algum sacrifício é realizado para a obtenção de um resultado esperado. Perelman ; Olbrechts-Tyteca (1996, p. 283) mostra-nos um exemplo apresentado por Bossuet (s/d) para esclarecer esse tipo de argumento:
E com efeito, cristãos, Jesus Cristo, que é verdade mesma, não ama menos a verdade que o seu próprio corpo; ao contrário, é para selar com seu sangue a verdade de sua palavra que ele houve por bem sacrificar seu próprio corpo.
II- Argumentos fundados na estrutura do real, para Reboul (2004), são aqueles que se valem da realidade para estabelecer um acordo com o auditório. Fazem parte dessa categoria, os argumentos:
1- Sucessão - não se trata de uma demonstração científica, mas de argumentar usando uma sucessão de fatos. O argumento usado é provável e quer estabelecer um juízo de valor. Podemos considerar, como exemplo para esse tipo de argumento, a informação de que uma determinada escola tem aprovação no Enem de 70%, nos vestibulares das melhores universidades do Brasil, 60% e os primeiros lugares nos cursos considerados difíceis, por isso é uma boa escola para o jovem brasileiro,.
2- Pragmático – “argumento que permite apreciar um ato ou um acontecimento em função de sua consequência” (2004, p.173). Ele inspira confiança, por ser verossímil.
Perelman ; Olbrechts-Tyteca (1996, p.303) recorrem a Locke(s/d), para ilustrar
tal argumento.
Jamais se poderá estabelecer ou salvaguardar nem a paz, nem a segurança, nem sequer a simples amizade entre homens, enquanto prevalecer a opinião de que o poder é fundamentado sobre a Graça e de que a religião deve ser propagada pela força das armas.
3- Essência – argumento que prevê um fato ou explica-o a partir da essência do ser, pois é ela quem gera esse fato. A essência tem alcance ético.
O homem por natureza é bom, nasceu livre, mas sua maldade advém da sociedade (Rousseau).
4- Pessoa – argumento que ressalta a relação entre a pessoa e seus atos, esses são justificados por quem os pratica.
Esta luta durou minutos; o índio, com os pés apoiados fortemente nas pernas da onça, e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim imóvel a fera, que há pouco corria a mata não encontrando obstáculos à sua passagem.
Quando o animal, quase asfixiado pela estrangulação, já não fazia senão uma fraca resistência, o selvagem, segurando sempre a forquilha, meteu a mão debaixo da túnica e tirou uma corda de ticum que tinha enrolada à cintura em muitas voltas. (ALENCAR, 1992)
Identificamos, no trecho acima, um argumento de pessoa, uma vez que Peri é considerado um herói por seus atos, força e caráter.
5- Argumento de autoridade – justifica-se uma afirmação pelo valor de seu autor. A autoridade baseia-se na moralidade, no passado da pessoa, na revelação (religião). Ferreira (2010, p.166) recorre a uma propaganda para exemplificar esse argumento:
Se é Bayer, é bom.
6- Nexos simbólicos – todo orador para não falar no vazio, deve levar em conta os símbolos do auditório, por isso os símbolos estão ligados ao pathos e são de ordem puramente social e cultural. Como exemplo, podemos citar a cruz, símbolo do cristianismo.
III- Argumentos que fundam a estrutura do real, para Perelman ; Olbrechts- Tyteca (1996), são aqueles que generalizam uma situação em virtude de uma particularidade. Segundo Reboul (2004), eles criam ou completam a estrutura do real, no lugar de apenas se apoiarem nela. Entre os abordados pelos autores mencionados, discorremos sobre os de exemplo, ilustração e comparação.
1- exemplo – o orador parte do fato à regra. Invalida, assim, um exemplo com outro exemplo que o conteste. (Reboul, 2004)
Assim como a única maneira de demonstrar respeito por aquele que sofre de fome é dar-lhe de comer, assim também o único meio de demonstrar respeito por aquele que se pôs fora da lei é reintegrá-lo à lei submetendo-o ao castigo que ela lhe prescreve. (PERELMAN; OLBRECHTS- TYTECA,1996 p. 402)
2- ilustração e analogia – a ilustração serve para reforçar a adesão, dar presença na consciência. A ilustração se distingue da analogia por envolver termos homogêneos, enquanto esta desenvolve termos heterogêneos. (REBOUL, 2004)
Abreu (2006, p.66) apresenta-nos um exemplo de Analogia, proferido por Ibn Al-Mukafa (s/d):
Quem põe seus esforços a serviço dos ingratos age como quem lança a semente à terra estéril, ou dá conselhos a um morto, ou fala em voz baixa a um surdo.
3- comparação – é um argumento por permitir justificar um dos termos a partir do outro.(2004)
Além dos argumentos de ligação, há também os de dissociação, que “são aqueles que procuram solucionar uma incompatibilidade do discurso para restabelecer uma visão coerente da realidade”. (FERREIRA, 2010, p.167)
Neste capítulo, falamos sobre a retórica, a argumentação e os artifícios que um orador pode se valer para seduzir, persuadir ou convencer seu auditório de forma consciente ou não.
CAPÍTULO 2