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PARTE I – BASES CONCEITUAIS

5.2 O escopo conceitual de cluster

5.2.5 Tipos de cluster

A composição do cluster, em termos de sua abrangência setorial e das organizações presentes, permite a definição de tipologias úteis nos estudos comparados, podendo-se associá-las aos conceitos de completude e maturidade. Essas tipologias afetam, também, os contornos regionais do cluster.

Com relação ao estágio de desenvolvimento das interações e articulações entre os agentes produtivos entre si e com os agentes institucionais, os clusters podem ter diferentes níveis de maturidade. Conforme pode ser notado nas descrições abaixo, a presença de organizações de apoio está positivamente relacionada com o grau de maturidade do cluster (IPEA, 2004; CNI, 1998):

Agrupamento Potencial: quando existe no local concentração de atividades produtivas com alguma característica em comum, indicando a existência de tradição técnica ou produtiva, embora inexista, ou seja, é incipiente, a interação entre os agentes daquelas atividades;

Agrupamento Emergente: quando se observa no local a presença de empresas com características em comum como, por exemplo, classificadas em uma mesma definição setorial que possibilite o desenvolvimento da interação entre seus agentes e a presença de organizações como centros de capacitação profissional e de pesquisa tecnológica, bem como de atividade incipiente de articulação dos agentes locais;

Agrupamento Maduro: quando se observa a concentração de atividades com características comuns, a existência de uma base tecnológica significativa, de fortes laços de relacionamentos dos agentes produtivos entre si e com os agentes institucionais locais, caracterizando a geração de externalidades positivas, mas, ainda, com a presença de conflitos de interesses ou desequilíbrios, denotando baixo grau de coordenação;

Agrupamento Avançado: é um agrupamento maduro com alto nível de coesão e de organização entre os agentes (IPEA, 2004; CNI, 1998).

Outra tipologia que envolve o porte e o alcance das firmas presentes, indica que os clusters podem ser divididos em três tipos (SCHMITZ, NADVI, 1999; ALTENBURG; MEYER-STAMER, 1999):

• clusters de micro e pequenas empresas, que demonstram pouco dinamismo e capacidade de inovação. Produzem, principalmente, para o mercado local e seu desenvolvimento depende de suporte externo. Muitas dessas empresas possuem características semelhantes às atividades exercidas no setor informal, como baixa produtividade e baixos salários. A divisão do trabalho é incipiente e

as empresas competem, principalmente, via preços. Recebem, em muitos casos a denominação de survival cluster.

• clusters mais avançados, situados na parte intermediária do espectro, com processos de produção diferenciados e um volume considerável de produção. Nesses casos, observa-se o surgimento de pequenas e médias empresas participando da cadeia produtiva, com impactos sobre a governança do cluster. Trabalham para atender um mercado mais amplo, até mesmo para o mercado nacional;

• clusters de grandes empresas transnacionais, com uma divisão do trabalho aprofundada, com a presença de seus fornecedores principais e de outras organizações de apoio fortemente conectadas com o sistema produtivo local, trabalhando para o mercado nacional e internacional. Na verdade, são filiais e plantas de empresas multinacionais, muitas vezes sem poder de decisão sobre uma série de atividades típicas de uma empresa, como o marketing, por exemplo. Atuam, normalmente, nas atividades mais complexas, como na indústria eletrônica e automobilística, mantêm ligações com fornecedores locais apenas para um subconjunto de suas compras, mas usufruem de vantagens locacionais.

Embora tais definições formem um continuum, ocorrem transformações ao longo do temp. Além disso, não contemplam, inteiramente, algumas outras formas de arranjos, envolvendo os recursos naturais, os serviços e as redes de subcontratação (ALTENBURG; MEYER-STAMER, 1999).

Os três tipos têm, obviamente, alcance regional diferenciado e demandam interferências externas distintas, das agências e políticas públicas. Quanto mais maduros os clusters, maior a tendência a ter mecanismos internos de cooperação, mas, também em função da maior diferenciação, o potencial de conflito é aumentado. Isso é um sério problema da administração e sobrevivência do cluster (local governance) – um obstáculo a ser analisado do ponto de vista econômico, mas, sobretudo, do ponto de vista político, conforme será visto, adiante, neste capítulo.

Britto e Albuquerque (2001) propõem uma tipologia baseada na intensidade tecnológica das atividades desenvolvidas. Usando a classificação definida pela OECD (1996a), são definidos três grupos: i) alta tecnologia, como a

indústria aeroespacial, de computadores, de medicamentos, etc.; ii) média tecnologia, como as indústrias químicas, de material de transporte, de maquinaria não-elétrica, etc., e iii) baixa tecnologia, como as indústrias de alimentos, bebidas, vestuário, aço, refino de petróleo, dentre outras.61

Essa tipologia pode ser usada em conjunto com a taxonomia proposta por Paviit (1984), que identifica a fonte e a natureza das oportunidades de inovação em função dos fluxos de conhecimento, ou seja, os canais pelos quais as empresas adquirem seu conhecimento tecnológico. A taxonomia se refere às firmas e às atividades por elas desenvolvidas, mas pode ser adaptada para os clusters, tendo como referência as suas empresas dominantes.

As firmas foram divididas em quatro grupos: i) dominada pelos fornecedores (supplier dominated); ii) baseadas nas economias de escala (scale-

intensive firms), iii) fornecedores especializados (specialised suppliers), e iv)

baseadas na ciência (science based)62.

Com relação aos tipos de cluster apresentados, pode-se pensar em combinar os seus elementos para que uma taxonomia seja proposta, mesmo sabendo que toda classificação significa um compromisso e a escolha de uma classificação e seus princípios norteadores visa satisfazer as necessidades do usuário a que se destina (CAMPOS, 2002). De qualquer forma, a menos que se possa relacionar essa taxonomia com o desempenho dos clusters, ela servirá apenas como uma referência descritiva. Ainda assim, há autores que ressaltam a importância de uma classificação de cluster que indique a importância dos processos cognitivos, conforme os objetivos das taxonomias sobre inovação (JONG; MARSILI, 2006, p. 215).

A análise das relações entre a formação de clusters com as atividades de inovação pode ser realizada com outros enfoques, como aqueles que abordam os

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Essa mesma referência foi usada pela (UNIDO, 2002), acrescentando um quarto grupo, o das atividades baseadas em recursos naturais, incluindo aqui parte das atividades da transformação de produtos alimentares, a indústria do fumo, refino do petróleo e química orgânica, pedras preciosas, dentre outras.

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Archibugi (1988) aponta que uma 5ª categoria foi introduzida por Chesnais (1986), englobando as firmas que trabalham diretamente para atender as demandas específicas do governo ou sob concessão do governo (aviões, armamentos, energia e telecomunicação) e que (PAVITT; ROBSON; TOWSEND, 1987) desenvolveu sua taxonomia para incluir uma outra categoria: as firmas intensivas em informação. Essas mudanças não têm impacto nos objetivos desta seção e não serão analisadas.

clusters como sistemas locais ou regionais de inovação, conforme poderá ser visto,

posteriormente, neste capítulo.