• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO III. CRENÇA ACERCA DA MEDICINA E DOS MÉDICOS

3.5. Tipos de custos relacionados com a relação a longo prazo

necessidades médicas verificou-se que a satisfação aumentava em 50%, naqueles que tinham a percepção da responsabilidade médica. Para além disso, quando se comparou as novas relações pessoais entre médico-paciente com a responsabilidade total dos cuidados dos seus utentes observou-se que a satisfação era 2,5 maior quando a percepção da responsabilidade total dos médicos era percepcionada (Hjortdahl & Laerum, 1992).

Quanto à satisfação com as consultas, segundo (Hjortdahl & Laerum, 1992), são precisos 5 anos para se desenvolver, para os utentes uma satisfação com as consultas. Segundo Fan e colegas (2005), esta manter-se-á ao longo do tempo. Já no estudo de avaliação da relação terapêutica e sua prática (Safran, et al., 2006), entre as clínicas privadas e organizações de saúde pública verifica-se que as experiências que os utentes obtêm da relação são iguais, porém é de notar que nas clínicas privadas a relação é de curta relação e que existe um baixo envolvimento. Ainda relativamente às experiências dos utentes com os cuidados de saúde, Lempp e colegas (2006), afirmam que as experiências dos utentes com um serviço de saúde são construídas através do impacto positivo dos cuidados que houve nos seus familiares e amigos íntimos. Quando se comparou, no estudo de Hjortdahl & Laerum (1992), o número de horas de trabalho de um médico no serviço médico com o grau de satisfação dos seus utentes, verificou-se que os utentes daqueles médicos que trabalhavam mais horas no centro apresentavam uma maior probabilidade de ter satisfação com os cuidados (82%), do que aqueles que trabalham menos (Hjortdahl & Laerum, 1992).

3.5. Tipos de custos relacionados com a relação a longo prazo

Estas multi-vantagens e benefícios de uma relação terapêutica a longo prazo, aprendida por vários trabalhos científicos ao longo dos anos, foram em 2003, estudados numa meta-análise de Pereira Gray e colegas. Como resultado desta meta- análise podemos afirmar que existem benefícios na continuidade dos cuidados para os utentes (Pereira Gray et al., 2003), mesmo quando os utentes perspectivam os cuidados como fracos (Cardol, 2005; Jung et al., 2002).

No entanto, num relacionamento médico-paciente também existem custos (Pereira Gray et al., 2003), tais como, o facto de o clínico geral seguir um paciente durante muitos anos, conhecer a sua condição médica e a sua história pessoal, poderá

levar a erros de diagnóstico devido a uma enorme afinidade. Especialmente na progressão lenta da doença do indivíduo, em que existe uma perda da objectividade, poderá haver um compromisso da investigação da saúde dos utentes adversamente e gerar relutância para evitar confrontação, tanto no médico como no paciente.

Num estudo de natureza qualitativa (Infante et al., 2004), verificou-se que os utentes afirmavam que às vezes os clínicos gerais eram impessoais, demissionários. Estas afirmações foram, maior parte das vezes, relatadas por idosos e utentes com algumas doenças específicas e com as consultas curtas ou pressionadas pela falta de maior tempo. Estas situações levaram ainda a que os utentes classificassem o trabalho destes médicos como fraco a nível clínico (Infante et al., 2004), e que os médicos classificados como fracos apresentassem enormes dificuldades em abordar as questões emocionais e psicológicas. Mais, neste estudo foi valorizado, como sendo importante, o conhecimento dos médicos relativamente às novas técnicas e conhecimentos clínicos. Já Mercer e colegas (2007) afirmam que os utentes não só criticam as competências dos médicos, como também os comportamentos e educação dos profissionais, sobretudo quando estes são questionados pelos utentes.

Ainda relacionado com os custos, observou-se nos utentes (32 indivíduos) da investigação de Guthrie e Sally (2006), que as crenças sobre os sintomas da sua doença corriam o risco de serem descurados nos cuidados médicos continuados. Nesta pesquisa, esta foi a desvantagem mais relatada pelos utentes; ter um médico que não leve a sério os utentes. Guthrie e Sally (2006) afirmam que para os utentes parece não existir desvantagens quanto ao acesso rápido aos cuidados. Anteriormente, já Bollam e colegas (1988) verificaram que nas consultas “fora de horas”, os utentes acreditavam num fornecimento apropriado do diagnóstico da doença, sendo que, 83% dos utentes desta amostra acharam que o seu médico percebeu o seu problema, mesmo quando 79% dos indivíduos, que receberam atendimento, relataram que não entendiam as consultas “fora de horas” e as substituições.

Para além disso, para muitos utentes esta relação poderá levar a uma perda da autonomia (Pereira Gray et al., 2003). Esta crença poderá surgir pois pode ter sido desenvolvido uma relação paternalismo/ materialismo, mas também ser vista uma obrigação de manter uma relação, quando não existe confiança (Pereira Gray et al., 2003). É por isso que quando existe confiança e percepção de apoio, por parte do seu

médico, podemos encontrar uma satisfação com os clínicos (Baker, et al., 2003; Sans-Corrales et al., 2006).

Numa amostra de 1068 utentes, dos EUA (418) e do Reino Unido (650), observou-se que quando a satisfação dos utentes era baixa, mesmo em consultas com os médicos regulares ou outros médicos, a confiança nos médicos era relatada como baixa. Para além disso, que esta confiança nos médicos era influenciada pelas experiências passadas que por sua vez influenciava a continuidade dos utentes em ir ao clínico (Baker et al., 2003).

Lings e colegas (2003) afirmam que devido à confiança entre médico- paciente podemos verificar um fenómeno curioso: o paradoxo de satisfação, que consiste em os utentes expressar insatisfação com alguns procedimentos, mesmo continuando a ter uma relação positiva com os seus médicos. Isto pode acontecer porque os utentes avaliam num contínuo, ao longo dos anos, os seus médicos, através da integridade pessoal, da competência, dos conhecimentos médicos, da aceitação de alguns erros e do valor dos utentes atribuído ao trabalho dos clínicos. Ainda relativamente à satisfação dos utentes, existem estudos que demonstram que os utentes se queixam que os médicos de família não querem escutar os pacientes (Lempp et al., 2006), que estão pouco tempo com eles e apresentam falta de conhecimento de algumas doenças, e que os médicos demoram imenso tempo a efectuar o diagnóstico.