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3. DISCURSOS DE NORMALIDADE E O SEXO DAS PARTES: OS ACÓRDÃOS

3.2. UM PANORAMA NACIONAL

3.2.4. Tipos de decisão em segundo grau

Nem sempre uma decisão que dá provimento a um recurso é “favorável”, pois muitas

vezes um indeferimento pode ser considerado favorável à determinada tese defendida no

processo original e vice-versa. Depende de uma série de fatores, como quem entra com o

recurso, o que foi requerido, qual o objeto em litígio, em que partes da sentença de origem as

partes sentem-se contempladas ou não. Muitas vezes, há decisões de primeiro grau nas quais

ambas as partes recorrem posteriormente, ou recorrem de parte da sentença.

Nos casos que examinei, considerei “favorável” a decisão que reconhecesse a tese de

existência de união estável ou de sociedade de fato entre casais de pessoas do mesmo sexo,

“parcialmente favorável” aquela que acolhesse de alguma forma uma dessas teses, mas não

de modo completo, e “desfavorável” aquela que não acolhe o pedido, nem de um modo nem

de outro.

Um detalhe importante é que os embargos de declaração ou infringentes, sempre

referidos a uma apelação ou a um agravo, entraram na contagem geral, pois são recursos

diferentes, mas foram analisados de um ponto de vista do tipo de decisão de um modo

diverso, pois seu conteúdo muitas vezes repete as razões do apelo ou do agravo de

AC: Apelação Cível AI: Agravo de Instrumento

ED/EI: Embargos Declaratórios/Infringentes CC: Conflitos de Competência

Gráfico 05 - Distribuição Geral de Recursos Estados 2008

60%

25%

12%

3%

AC

AI

ED/EI

CC

instrumento. Por exemplo, num caso em que o resultado da apelação era considerado

desfavorável à tese do reconhecimento de sociedade de fato, se o embargo é rejeitado, não

contei duas vezes a mesma decisão: separei decisões processuais e mantive uma contagem

individual considerando cada “grupo” de recursos interligados.

O mesmo pode acontecer no caso de um agravo de instrumento, que decide por ex.,

que a competência de julgamento do processo de reconhecimento de sociedade de fato deve

ser a do foro do domicílio do réu, que mora em outro Estado. Esta questão é meramente

processual, e embora possa até desagradar a parte que litiga contra um espólio por ex., nada

decide em relação ao centro da discussão, que é o reconhecimento ou não de união

estável/sociedade de fato entre pessoas do mesmo sexo. Assim sucessivamente, fui

aglutinando os recursos que repetiam razões e que se referiam a questões processuais apenas,

excluindo estes últimos da contagem e mantendo os primeiros para identificar os

enquadramentos. Isso significa que o número dos acórdãos computados diminuiu em função

deste refinamento.

A partir daí, então, o quadro geral dos tipos de decisão tomadas nos recursos

demonstra o seguinte, incluindo as ementas em segredo no Rio de Janeiro:

a) No Estado do Rio de Janeiro, considerando 68 acórdãos julgados entre 08/08/1989 e 15/04/08, 41 eram desfavoráveis, 23 favoráveis e 04 parcialmente favoráveis;

b) O Estado do Rio Grande do Sul, contando com 53 acórdãos entre 17/06/1999 e 23/04/2008, possuía 12 decisões desfavoráveis, 32 favoráveis, 06 parcialmente favoráveis, e 03 onde não houve decisão em relação ao mérito da questão, mas somente a questões processuais.

c) No estado de São Paulo contabilizei 45 acórdãos no período entre 21/03/00 e 10/06/2008. Destes, 22 são desfavoráveis, 19 favoráveis, 01 parcialmente favorável, e em 03 não houve decisão em relação ao mérito, mas somente a questões processuais.

d) Em Minas Gerais, finalmente, localizei 21 acórdãos julgados entre 08/04/1997 e 23/11/2007, apresentando 11 recursos com decisões desfavoráveis, 09 favoráveis, e um recurso não conhecido, por questões processuais.

Considerando então o total de 187 acórdãos (excetuados da análise 07 que não

decidem quanto à matéria e um não conhecido), identifiquei, entre 1989 e 2008, um índice de

48% de decisões desfavoráveis, 45% de respostas favoráveis, e 7% de recursos com decisões

parcialmente favoráveis.

É de ressaltar a diferença entre os Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São

Paulo e Rio Grande do Sul que aqui se evidencia, uma vez que nos três primeiros Estados, as

decisões são majoritariamente “desfavoráveis” de algum modo ao reconhecimento de efeitos

jurídicos às conjugalidades homoeróticas, enquanto que no Rio Grande do Sul, a valência se

inverte - como fica visível no gráfico abaixo. Note-se também que há uma diferença maior

entre favoráveis e desfavoráveis nos Estados do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, e nos

Estados de São Paulo e Minas Gerais, a distância entre uma posição e outra é menor.

Gráfico 06

Fonte: Pesquisa no TJRJ,TJRS,TJSP,TJMG – 2008 Base: 187 Acórdãos

Para que ficasse mais clara a classificação que faria das decisões, organizei para

leitura as decisões favoráveis, parcialmente favoráveis e desfavoráveis conforme o deferido

em relação a seu enquadramento no campo do direito das obrigações ou de família. Assim,

agrupei as decisões favoráveis entre aquelas que reconhecem evidência de união estável ou de

relacionamento com caráter de relação familiar, e aquelas em que é deferido o pedido de

reconhecimento de sociedade de fato, no sentido de reformar ou manter a sentença ou a

decisão interlocutória. Há ainda outra subdivisão, que reuni num grupo que considerei

favoráveis indiretamente, pois diziam respeito a situações (principalmente em sede de agravo

de instrumento) onde não se delibera diretamente pelo reconhecimento jurídico das

conjugalidades homoeróticas, mas garante-se algum direito subjetivo conexo neste campo.

Em seguida, agrupei as decisões parcialmente favoráveis entre aquelas que

concedem em parte os pedidos de reconhecimento de união estável ou de sociedade de fato,

incluindo neste mesmo indicador aquelas que aprovam sociedade de fato quando o

requerimento foi para reconhecer união estável.

As decisões desfavoráveis foram divididas em três indicadores que se referem a este

tipo de decisão: quando a competência do foro é declinada da vara de família para a vara

cível, em acórdão que mantém decisão de primeiro grau neste sentido ou que reforma decisão

que diz o contrário, se o processo é extinto sem o julgamento do mérito por impossibilidade

jurídica do pedido, e onde não há qualquer direito reconhecido, nem no campo do direito de

0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 Número de decisões (%) RJ RS SP MG Estado

Tipos de Decisão por Estado - 2008

Desfav. Favorável Parc. Fav. Sem dec.

família, nem no de obrigações. Essa classificação foi base para a apresentação dos dados que

segue.