CAPÍTULO I ENQUADRAMENTO TEÓRICO
4. TIPOS DE MOVIMENTOS DOS MEMBROS SUPERIORES
Após a pesquisa breve sobre o funcionamento e interligação das estruturas situadas na parte superior do nosso corpo, torna-se necessário conhecermos os tipos de movimentos que as nossas articulações realizam, para que possamos ficar a conhecer quais as alterações que ocorrem no nosso corpo ao passar da posição anatómica para a posição de tocar.
Os movimentos realizados por cada uma das articulações dependem muito das suas estruturas: algumas conseguem mover-se apenas numa só direção, enquanto que outras conseguem em várias direções. Segundo Seeley, Stephens & Tate (1997, p.257), quanto à posição anatómica, existem dois tipos de movimento: movimento que se afasta da posição anatómica e movimento que faz regressar uma estrutura à sua posição anatómica.
A maioria dos movimentos têm um movimento de direção oposta, por isso, são descritos aos pares. Existem vários tipos de movimentos no membro superior, tais como: movimentos angulares, movimentos circulares, movimentos especiais e movimentos combinados.
Os movimentos angulares ocorrem quando
“uma parte de uma estrutura linear, como o corpo no seu todo ou um membro, se dobram em relação a outra parte da mesma estrutura, modificando o ângulo entre as duas partes. São também movimentos angulares os que implicam o movimento de uma haste sólida, como um membro, ligada ao corpo na outra extremidade, de modo a alterar o ângulo que faz com o corpo. Os movimentos angulares mais comuns são a flexão e a extensão e a abdução e a adução” (Seeley, Stephens & Tate, 1997, p.257) (Figura 16 e 17 respetivamente).
Os movimentos circulares “consistem na rotação de uma estrutura em torno de um eixo ou no movimento em arco da estrutura” (Seeley, Stephens & Tate, 1997, p.261). Os movimentos circulares são: rotação (Figura 18), pronação e supinação (Figura 19) e circundação.
Os movimentos especiais “são os que são exclusivos de uma ou duas articulações; não se encaixam totalmente em qualquer das outras categorias” (Seeley, Stephens & Tate, 1997, p.261). Os movimentos especiais são: elevação e abaixamento (Figura 20), projeção e retração, didução, oponência e retorno à posição neutra, inversão e eversão.
Os movimentos combinados são combinações dos movimentos explicados anteriormente.
“A maior parte dos movimentos que ocorrem no decurso das atividades normais são combinações dos movimentos previamente explicados e são descritos pelo nome dos movimentos individualizados envolvidos no movimento combinado. Por exemplo, se alguém estender a mão para o lado à altura do ombro e depois a trouxer para a frente mantendo-a à altura do ombro, este movimento pode ser considerado uma combinação de abdução e flexão” (Seeley, Stephens & Tate, 1997, p.261).
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Figura 16
Exemplos de movimentos de flexão e extensão (reproduzido de Seeley, Stephens, & Tate, 1997, p. 257)
Figura 17
Exemplos de movimentos de abdução e adução (reproduzido de Seeley, Stephens, & Tate, 1997, p. 258)
Figura 18
Exemplos de movimentos de rotação interna e externa (reproduzido de Seeley, Stephens, & Tate, 1997, p. 259)
28 4.1 Postura anatómica vs Postura a tocar violino
Segundo Soares, Wecker e Nemos (2001), posição anatómica é “uma posição de referência que dá significado aos termos direcionais utilizados na descrição das partes e regiões do corpo. Todos os estudos relacionados com a anatomofisiologia do corpo são realizados nesta posição específica. Para Mattos (2018), a posição anatómica é determinada com o paciente em posição ortostática ou bípede, ou seja, o paciente com o corpo em pé e ereto, direito. A face e os olhos devem estar em direção ao horizonte, os braços ao longo do tronco, tendo as palmas das mãos viradas para a frente, e as pernas ligeiramente afastadas, com a ponta dos pés viradas para a frente.
Segundo Silva (2019), o corpo pode ser observado num ângulo de 360 graus, em várias posições: - posição anterior (observação da parte da frente do corpo);
- posição lateral esquerda (observação da parte lateral direita do corpo); - posição posterior (observação da parte de trás do corpo);
- posição lateral direita (observação da parte lateral esquerda do corpo).
Figura 19
Exemplos de movimentos de pronação e supinação (reproduzido de Seeley, Stephens, & Tate, 1997, p. 259)
Figura 20
Exemplos de movimentos de elevação e abaixamento (reproduzido de Seeley, Stephens, & Tate, 1997, p. 259)
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De uma forma geral, segundo Silva (2019), observando o corpo de um violinista na sua posição de tocar podemos observar as seguintes alterações corporais em relação à posição anatómica anterior (Figura 21):
- zona da cabeça: cabeça é rodada e inclinada para o lado esquerdo;
- zona ocular: o músculo da porção palpebral esquerda (músculo da pálpebra) realiza uma rotação externa e uma inclinação para baixo;
- zona do pescoço: os músculos esternocleidomastóideo e trapézio do lado esquerdo estão em encurtamento e os do lado direito em estiramento;
- zona do peitoral: o músculo do peitoral esquerdo sofre uma inclinação para cima; o esterno sofre uma rotação à esquerda;
- zona dos oblíquos: os músculos do reto abdominal, do oblíquo interno e do oblíquo externo do lado esquerdo encontram-se em extensão máxima e os do lado direito encontram-se em encurtamento;
- zona dos ombros e braços: o deltoide e o bicípite do lado esquerdo estão encurtados enquanto que o tricípite fica estirado – o braço esquerdo realiza um movimento de abdução. O ombro e braço direitos são o oposto dos do lado esquerdo: o deltóide e o bicípite ficam estirados e o tricípite passa a estar encurtado – o braço direito realiza um movimento de adução;
- zona dos antebraços: o antebraço esquerdo realiza uma rotação interna, com um movimento de pronação; o plexo braquial realiza uma rotação externa e encontra-se em estiramento; o músculo palmar longo encontra-se encurtado. O antebraço direito é o oposto do antebraço esquerdo;
- zona dos punhos: o punho esquerdo realiza uma rotação interna, com um movimento de supinação, enquanto que o punho direito realiza uma rotação interna, com um movimento de pronação.
- zona das mãos: em ambas as mãos, o polegar encontra-se em oponência e os restantes dedos em adução e abdução.
Observando o corpo de um violinista na sua posição anatómica posterior podemos observar que na zona das omoplatas a omoplata direita realiza uma rotação externa com uma ligeira elevação. Todos os músculos do lado direito desta zona passam a estar estirados enquanto que os do lado esquerdo passam a estar encurtados. Os músculos pertencentes a esta zona são o trapézio, o supraespinhoso, o romboide maior, o redondo maior e o redondo menor. De salientar que o redondo maior esquerdo está encurtado e ainda apresenta a carga do violino. O músculo grande dorsal direito, situado na sua maioria entre a zona das omoplatas e a zona da lombar, também fica encurtado, à semelhança dos músculos já descritos (Silva, 2019).
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Devido ao facto de a prática violinística implicar uma ligeira inclinação da cabeça e do olhar para a esquerda, a musculatura desse lado fica muito menos forte em relação à do lado direito. O lado direito do corpo necessita de muito mais movimento do que o lado esquerdo, o que proporciona um desgaste ósseo muito maior do lado direito do que do esquerdo. Contudo, apesar de o lado esquerdo apresentar um desgaste menor, apresentará muito mais problemas e lesões devido a passar mais tempo “imobilizado”. Sendo as articulações do punho e da mão as articulações mais solicitadas na prática do violino, estas estarão sujeitas a uma maior probabilidade de lesões (Silva, 2019).