Parte 2 – Estudo empírico
3. Discussão
3.6. Tipos de tratamento e nível de sexualidade
De acordo com os resultados obtidos, os tratamentos mais comuns no tratamento mostram influenciar os níveis de satisfação ao nível da sexualidade. A radioterapia é um dos tratamentos mais usuais, e que acarreta diversos efeitos adversos (Siegel et. al, 2012). A radioterapia pode ser realizada de forma externa, onde o procedimento passa por incidir os raios X na zona do corpo afectada, e de forma interna, onde se insere o material radioativo directamente no local do tumor (Patrão, 2007). Salienta-se que os nossos resultados vão de encontro à literatura, uma vez que demostram que os indivíduos que tiveram tratamento de radioterapia manifestam uma menor satisfação ao nível do funcionamento sexual. Estes resultados encontram-se de acordo com estudos de Muniz e Zago (2008), que denotam os diversos efeitos adversos que a radioterapia acarreta, nomeadamente ao nível da sexualidade. A falta de força nos braços e ombros, no caso do cancro da mama e a disfunção eréctil, devido à lesão no feixe neurovascular na prostectomia radical e à lesão na artéria cavernosa no cancro da próstata são dos efeitos mais comuns relatados pelos pacientes (Hyun, 2012; Siegel et. al, 2012), a par da fadiga, lesões cutâneas devido às radiações, assim como falta de apetite (Muniz et al., 2008).
Os tratamentos cirúrgicos, são transversais à maioria das neoplasias (Siegel et. al, 2012). Este tipo de tratamento tem diversos efeitos, sendo que estes variam consoante o tipo de cirurgia realizada e o tipo de condicionamentos que acarretam. De acordo com os resultados obtidos verifica-se que os pacientes que foram submetidos a tratamento cirúrgico apresentam níveis de funcionamento sexual menos satisfatórios.
O tratamento cirúrgico difere consoante o estádio da doença, a idade dos pacientes, assim como a localização e extensão da lesão (Bosco et al., 2012; Siegel et. al, 2012).
A cirurgia pode ser de cariz conservador, onde se mantem a estrutura anatómica da área com a lesão, no entanto, em casos em que a lesão é mais extensa ou se encontra num estádio mais avançado da doença pode ser necessário a realização da cirurgia onde
o órgão ou parte do corpo é inteiramente removida. Tal facto coaduna-se com os resultados obtidos, onde se evidencia a relação existente entre o tratamento cirúrgico e a diminuição dos níveis de funcionamento sexual.
É de salientar que a literatura também demonstra que os pacientes quando realizam intervenção cirúrgicas de reconstrução aumentam os seus níveis de qualidade de vida e de autoestima (Avelar et al., 2006). Deste modo, os nossos resultados vão de encontro à literatura, uma vez que os pacientes que não se submeteram a intervenção cirúrgica apresentam valores mais baixos de autoestima.
A cirurgia de reconstrução devolve, diversas vezes à pessoa mutilada a configuração e o aspecto físico geral anterior à doença, sendo que tal factor permite o aumento dos níveis de autoestima e diminuição de sentimentos de menos valia, por não se enquadrar no esperado pela sociedade. Este aumento da autoestima e da imagem corporal permite que as relações sexuais sejam vividas com maior satisfação uma vez que as consequências da mutilação foram corrigidas (Teixeira, 2007). A prótese peniana ajuda os pacientes que foram submetidos a prostectomias radicais a aumentar os seus níveis de auto-estima (Hyun, 2012) No entanto, nem sempre tal facto é conseguido, uma vez que existem situações em que a cirurgia de reconstrução não pode ser completa. O cancro no escroto, esfíncter anal e próstata, são exemplos em que a cirurgia de reconstrução não consegue ter os mesmos efeitos, que na reconstrução da mama. Embora a mama perda funções como a amamentação e a sensibilidade fique mais reduzida, na cirurgia de reconstrução do escroto e do esfíncter anal, um dos objectivos primordiais é a prevenção de infecções e não apenas a questão estética (Tran, 2011). A terapia de reposição de testosterona, tem sido um tratamento utilizado após a prostectomia radical, no entanto este é um processo ainda em estudo uma vez que ainda não se conhece a probabilidade de recorrência de cancro devido a esta terapia (Hyun, 2012).
A quimioterapia que se mostra um dos procedimentos mais utilizados no tratamento do cancro, comtempla diversos efeitos adversos. De acordo com a literatura este procedimento terapêutico influencia negativamente a relação sexual, uma vez que acarreta como efeitos negativos diversas alterações a nível hormonal que impedem um funcionamento sexual satisfatório (Rebelo, Rolim, Carqueja, & Ferreira, 2007). Tal como afirma Cavalheiro et al., (2012) a quimioterapia tem um efeito muito significativo na vertente sexual, nomeadamente ao nível do funcionamento sexual onde os efeitos
secundários da quimioterapia como a perda de cabelo, o aumento do peso, náuseas, vómitos, diminuem a auto-estima e a líbido. Estes dados não vão de encontro aos nossos resultados que afirmam não existir relação entre o tratamento de quimioterapia e a satisfação com o relacionamento sexual. Esta situação pode dever-se ao facto de as pessoas atribuírem diferentes significados à sexualidade (Paula et al., 2009). Dado a qualidade do relacionamento ser o factor central atribuído para o bom funcionamento sexual (Paula et al., 2009), a existência de uma relação afectiva satisfatória ao longo dos tratamentos de quimioterapia poderá ser um factor preponderante para que o nível da sexualidade não seja um domínio tão negativo.
A partilha das necessidades não só físicas como emocionais é possível em relacionamentos estáveis, e como tal estes permitem que os pacientes em processo de quimioterapia não tenham uma visão tão negativa desta dimensão (Paula et al., 2009). Também é de salientar o facto de que receber a notícia que se padece de uma neoplasia é por vezes suficiente para que os níveis da líbido diminuam e como consequência, as relações sexuais diminuam, mesmo antes de serem iniciados qualquer tipo de tratamento (Cavalheiro et al., 2012).
Outros tipos de tratamento também deterioram o nível sexual dos pacientes. De acordo com os resultados obtidos, outros tipos de tratamento diminuem a satisfação com o funcionamento sexual dos pacientes, o que vai de encontro aos estudos de Siegel et al., (2012) que afirma que a terapia de privação de androgénio, no cancro da próstata, é um dos tipos de tratamento que influencia o funcionamento sexual dos pacientes (Siegel etal., 2012). A utilização de outros tipos de tratamento é realizada tendo em conta a idade do paciente, co-morbidades do paciente com outras doenças, condição física do paciente, assim como a localização, extensão e estadio da neoplasia (Bosco et al., 2012; Brandwein et al., 2013). As terapias hormonais são também muitas vezes utilizadas para diversos tipos de cancro devido à eficácia dos mesmos (Asselah & Sperlich, 2013; Goldfarb et al., 2013). No entanto, a utilização deste tipo de terapêutica provoca um desequilíbrio no organismo do indivíduo. Os efeitos de terapias hormonais, como é o caso no cancro de mama da utilização de tamoxifeno e inibidores de aromatase, não podem ser desvalorizados (Conde, Pinto-Neto, Junior, & Aldrighi, 2006). Ressalta-se desses efeitos a tromboembolia, mialgia e diminuição da massa óssea (Conde et al., 2006; Siegel et al., 2012), uma vez que possuem um efeito directo ao nível das disfunções sexuais como dispareunia, perturbação do orgasmo e de excitação. Para além dos efeitos físicos, a componente psicológica destes tratamentos exerce um elevado
impacto ao nível da sexualidade, nomeadamente ao nível do funcionamento sexual (Conde et al, 2006), o que vai de encontro aos nossos resultados.
Na grande maioria este tipo de tratamentos é realizado em conjunto com a quimioterapia, radioterapia ou cirurgia. Desse modo o conjunto de tratamentos também compromete o funcionamento sexual dos pacientes (Conde et al, 2006), pois causam alterações como infertilidade, secura vaginal e impotência (Cavalheiro et al., 2012; Falhamma et al., 2012).