TIPOLOGIA E GÊNEROS TEXTUAIS
TIPOS TEXTUAIS
Os tipos textuais consistem, por si só, não em textos, mas em sequências de natu- reza linguística, caracterizadas por especificidades de composição (aspectos léxi- cos, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas, etc.). Compreendem a narração, a descrição, a argumentação, a injunção e a exposição, podendo aparecer todas em um único texto, pelo que Marcuschi (2008, p.155) afirma que: “O conjunto de categorias para designar tipos textuais é limitado e sem tendência a aumentar. Quando predomina um modo num dado texto concreto, dizemos que esse é um texto argumentativo ou narrativo ou expositivo ou descritivo ou injuntivo”. Vejamos mais sobre cada tipo textual.
NARRAÇÃO
O texto narrativo relata um acontecimento em tempo definido e espaço concreto. Nele ocorrem mudanças de um estado para outro, gerando situações de anterioridade e posterioridade. A classe gramatical que se destaca é o verbo, predominando os tempos verbais do pretérito, sobretudo o perfeito, e o futuro do pretérito do indi- cativo. Veremos mais sobre o texto narrativo na Unidade 3. Por enquanto, vejamos a sequência textual a seguir:
Certa vez, Mota sumiu de circulação. Já havia quinze dias que Carvalho não o encontrava em lugar algum. Curioso para saber notícias do amigo, Carvalho foi visitá-lo em casa. Mota explicou que andava ausente por causa de um “achado”, uma “mulata deliciosa” que conhecera. Contou, então, como a tinha encon- trado. Tinha tomado um barco onde marcara um encontro de negócios com um comerciante nordestino. No barco, viu uma linda mulata passando. De indagação em indagação, soube que ela se chamava Alice e que viajava com um alferes do Exército. Também soube que o alferes era apenas um “amigo” e que ela
estava indo para o Rio de Janeiro “fazer a vida”. Mota desceu do barco com a moça, levou-a para uma pensão e começaram a na- morar. Orgulhoso de sua conquista, o comendador estava decidido a montar um apartamento para Alice, cobri-la de jóias e presentes, fazer dela sua amante permanente (BArrETo, 1993, P. 36).
DESCRIÇÃO
A sequência textual descritiva compreende o relato das características, propriedades e atribuições de um objeto particular concreto (pessoa, paisagem, etc.) ou de um processo, mecanismo, etc. A descrição atua como uma fotografi a, captando um instante do referido objeto ou situação, daí não existindo progressão temporal de fatos relacionados ao que é descrito, ou seja, não há um anterior e um posterior ao captado no momento. Existem descrições objetivas, técnicas, baseadas em léxico denotativo, como é o caso dos relatos de resultados de pesquisas, e descrições subjetivas, literárias, que contemplam um vocabulário conotativo, como se pode observar nas descrições de personagens em contos e romances. Na descrição, cos- tuma predominar o pretérito perfeito e a classe gramatical que mais se destaca são os adjetivos e locuções adjetivas. Seguimos com um fragmento descritivo de texto:
ARGUMENTAÇÃO
A sequência textual argumentativa integra um horizonte textual maior que costuma- mos chamar de dissertação. Visa ao convencimento do leitor, para que concorde/abrace uma ideia, um ponto de vista, compondo-se tradicionalmente de uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão. O texto argumentativo contempla tanto um léxico concreto como um mais abstrato, podendo aproximar-se mais ou menos da linguagem conotativa conforme o gênero no qual estiver circulando: por exemplo, um artigo de opinião em uma revista ou jornal tenderá a tomar mais liberdades conotativas do que um artigo científi co apresentado a um professor como trabalho A Rua da Imperatriz, às oito e meia, com uma porção de casas comerciais velhas e tão juntas, tão trepadas na calçada, que parecem despejadas na rua, estava em plena febre. Os botequins reles, as barbearias sujas, as tascas imundas gargulejavam gente, e essa gente era curiosa – trabalhadores em mangas de camisa, carroceiros, carregadores, fumando mata-ratos infectos, cuspinhando cachaça em altos berros, num calão de imprevisto, e rapazes mulatos, brancos, de grandes calças a balão, chapéu ao alto, a se arrastarem bamboleando o passo, ou em tabernas barulhentas. A nossa passagem era acompanhada com um olhar de ironia, e bastava parar dois segundos de- fronte de uma taberna, para que dentro todos os olhos se cravassem em nós.
FoNTE: João do Rio. Disponível em: <http://contobrasileiro.com.br/as-criancas-que-matam- -conto-do-joao-do-rio/>.
EDUCAÇÃO DO CAMPO|Leitura e produção de textos · 53
de conclusão de uma disciplina de graduação. Na Unidade 3, estudaremos o texto argumentativo com maiores detalhes. Fiquemos por agora com um exemplo:
INJUNÇÃO
O texto injuntivo almeja instruir, explicar sobre um procedimento, embora não busque o convencimento do leitor sobre o que deve ser feito nesta ou naquela situação. Usa linguagem simples, objetiva e denotativa, com predominância de verbos no modo imperativo. Por relatar instruções, não pode prescindir de uma certa progressão temporal, pressupondo, de certo modo, acontecimentos que geram transformações. Por outro lado, partilha uma qualidade descritiva, na medida em que relata o passo a passo de um processo ou procedimento. É o tipo textual pre- dominante em bulas de medicamentos, receitas culinárias, manuais de instruções, editais de concursos, etc. Observemos um exemplo:
O ideal seria, antes de fazer uma Reforma da Previdência Social, garantirmos a qualidade do trabalho no Brasil, melhorando o salário e a formação de quem vende sua força física, proporcionando a eles e elas qualidade de vida – seja através do desenvolvimento da tecnologia, seja através da adoção de limites mais rigorosos para a exploração do trabalho. O que tende a aumentar, é claro, a produtividade. Mas como isso está longe de acontecer (basta ver a ''vida'' dos empregados de frigorífi cos em todo o país, que são aposentados por invalidez aos 30 e poucos anos por sequelas deixadas pelo serviço), a discussão talvez passe por um regime diferenciado para determinadas categorias.E, mesmo assim, não será simples, pois em algumas delas os profi ssionais são levados aos limites e aposentados por danos psicológicos – ou chegam aos 60 sem condições de desfrutar o merecido descanso.
FoNTE: Leornado Sakamoto. Disponível em: <https://goo.gl/vcJtBX>.