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2. CATEGORIA X CAMPO: SEMPRE “BOM PARA PENSAR”

3.3 TIRO-DE-GUERRA: Escola de Cidadania e Civismo

Essa frase título escrita em uma das paredes do lado de fora da sede do TG foi algo instigante. Em certa medida, a sentença anunciava o sentido daquela instituição, suas intenções, seus interesses e objetivos junto aos jovens reservistas. Assim, uma vez dada a sentença, era preciso buscar compreender o

significado de ‘cidadania’ e também de ‘civismo’ para aquele grupo investigado e, particularmente, identificar quais os procedimentos adotados de apreensão e consolidação dos mesmos. Obviamente, não se trata de teorizar a respeito desses conceitos, mas elucidar as formas como eles são concebidos e legitimados na instituição e por parte daqueles que nela atuam, aspecto que nos possibilita refletir e analisar o contexto estudado em si, as disposições dos sujeitos e os sentidos e as práticas.

Partindo do pressuposto que a cidadania é um processo de construção social e passível de múltiplos significados, no TG esta idéia é concebida como um princípio de emancipação do sujeito a partir, principalmente, da ajuda ao próximo e do cumprimento das obrigações civis. Em relação ao primeiro aspecto, a instituição adota atividades com uma regular sistematicidade, podendo ser enquadrada como ‘assistencialistas’: as chamadas atividades de apoio; além do caráter de ‘ajudar’ ao próximo, essas atividades servem também de estratégias para a integração comunitária de modo geral.

Nesse sentido, o TG estabelece parcerias com diversas entidades assistenciais de Viçosa e instituições de serviço, participando de arrecadação em campanhas de agasalhos, de alimentos, de brinquedos, de livros e de sucatas; atuando em campanhas de vacinação tanto infantil quanto de idosos, entre outros. Aos participantes das atividades são conferidas bonificações que podem corresponder à dispensa do serviço, ao abono das faltas cometidas e, conseqüentemente, à redução dos pontos perdidos e às dispensas de fazer a guarda, além do elogio registrado em sua ficha individual, atrativos que motivam os atiradores a se dedicarem a essas atividades.

No TG, o incentivo ao voluntariado está fortemente reforçado pela gratificação; uma troca de ‘favores’ negociada a serviço dos interesses de cada um, tornando-se uma das principais bandeiras da instituição. Para além da questão do voluntariado, essas ações apontam para questões maiores, desempenhando a função de legitimar aquele espaço e sua própria função de existir tanto dentro do quadro das Forças Armadas quanto no âmbito municipal. Afinal, consta no artigo 194, inciso 7o do regulamento da Lei do Serviço Militar

que: “quando, por qualquer motivo, não funcionar durante 02 (dois) anos

consecutivos, o Tiro-de-Guerra será extinto, por ato do Ministro Militar competente”.

Talvez essa prerrogativa tende a explicitar o quadro de honra ao TG, pregado na sala de entrada da sede, oferecido pelo Hemominas - MG, devido à ação voluntária de doação de sangue. Vale lembrar que o processo de cortes de gastos e a redução orçamentária vivida tanto pelas Forças Armadas, como pelas administrações públicas municipais, têm exigido cautela. Isso significa priorizar apenas atividades fundamentais e necessárias ao bem-estar público. Portanto, o TG precisa mostrar-se como um desses espaços produtivos, evidenciar sua importância para cada um deles e justificar seus gastos no orçamento público.

Essa necessidade de auto-afirmação para além da referida questão de se mostrar útil revela uma outra tentativa, que é de engrandecer a instituição e, de certa forma, ressignificar um espaço que ainda apresenta resquícios de uma história estigmatizada herdada da Ditadura Militar e dos processos políticos e sociais decorrentes dessa época, que arbitrariamente, fomos submetidos.

A tentativa de construção de uma outra imagem socialmente mais positiva leva a justificar as constantes Paradas Militares (por exemplo, a ordem unida), as instruções e os vídeos comumente apresentados sobre a vida militar; seus ganhos e retornos financeiros e sociais, as formaturas54 no decorrer do ano, com e sem a participação da família/comunidade, e as avaliações que periodicamente os TGs são submetidos junto a um superior, geralmente, um Tenente-coronel. Não há dúvidas de que se trata de “uma história que eles

contam a eles próprios sobre eles mesmos” (GEERTZ, 1978:278), com o intuito

de transmitir e garantir novas mensagens e sentidos a essa instituição. Trata-se de uma tentativa de escrever uma outra história, referendada e legitimada pela valorização e pelo reconhecimento público.

O entendimento do civismo tem como marca o culto e o respeito aos Símbolos Nacionais, principalmente à Bandeira Nacional, que diariamente é

54 Concentração de todo o Batalhão, ou parte dele, destinado a conferir o efetivo (faltas), inspeção do

hasteada no TG, com todas as honras militares. Aqui, o civismo reproduzido está fortemente associado ao ideal de cidadania eleito pelas instituições militares de modo geral, onde o cultivo do amor à Pátria é venerado e se sobrepõe à própria vida do sujeito, uma questão de ordem moral. Porém, no TG não há uma delimitação clara das fronteiras entre os espaços civil e militar diante da à cidadania e sua vivência, tornando algo indissociável.

Em termos propriamente pedagógicos o ensino do civismo, principalmente no ambiente militar, reporta-se a um contexto histórico no qual o Exército incorpora para si a obrigação de ‘ensinar’ e ‘instruir’ os sujeitos que nele se inserem, partindo de pedagogia militar e do seu modo de conceber o mundo e as relações.

Segundo Juliana Mendes:

Um exemplo da civilização desempenhada nos quartéis vem da França, no período da segunda metade do Século XIX. Foi uma época em que o Exército realizou uma importante obra de alfabetização da população masculina, afinal, muitos jovens vestiam a farda sem nunca ter freqüentado a escola. Esta experiência culminou na construção - em 1816 - das primeiras escolas nos quartéis, sendo que quinze anos mais tarde ou cursos para analfabetos (principalmente soldados) passaram a ser obrigatórios. Neste período, as possibilidades educativas do Exército não se restringiam a alfabetização, ‘a reflexão sobre a educação militar sublinhava a função nacional educativa e involuntária (MENDES, 2004: 39).

A autora argumenta que na França, em 1891, o oficial era visto como um professor nas Artes Militares, na Higiene e na Economia, no qual o Exército desempenhava a função educativa e involuntária aos seus membros (MENDES, 2004:39). Embora o Tiro-de-Guerra não desempenhe função educativa extensiva às esferas da educação formal, ele atua em nível mais específico, de acordo com seus interesses. Geralmente, compete-lhe a instrução militar para a formação de 2a categoria da reserva e a sua instrumentalização para garantir a continuidade da carreira militar pelos jovens, oferecendo um trabalho de reforço escolar para as provas que fazem parte do processo de seleção, principalmente de EsPECEX e a ESA. Além disso, contribuem nas despesas para a participação das provas, que normalmente são realizadas em município.

Tais atitudes podem ser caracterizadas como algo ‘paternalista’, que acentua ainda mais a proximidade entre o TG e as famílias, possibilitando uma busca por um futuro ‘promissor’ à sua prole, a ao seu rebento. Neste sentido, o caminho promissor é a possibilidade de seguir carreira militar, ainda vista como uma estratégia possível e promissora de ascensão social. É o olhar do atirador sobre esse lugar institucional e sua vivência particular que será abordado a seguir.