2. Direitos culturais como direitos fundamentais
2.2 Titularidade e natureza jurídica dos direitos
Da mesma forma que ocorre com o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, os direitos culturais possuem, no que tange à sua titularidade, uma múltipla conformação que vai desde o indivíduo até à humanidade. Tanto é o indivíduo que tem garantido o acesso às fontes da cultura nacional, quanto é a humanidade que tem direito à preservação daquilo que se considera seu patrimônio cultural. Tanto é o indivíduo que tem direito a expressar-se artisticamente, quanto é uma comunidade que tem o direito de ver preservados e respeitados seus modos de criar, fazer e viver
Sobre o que são os modos de criar, fazer e viver, explicam Celso Ribeiro Bastos e Ives Gandra Martins162:
Os modos de criar, fazer e viver nada mais são do que os hábitos, os costumes e as tradições do povo brasileiro, e a influência que sofrem por parte dos grupos formadores da sociedade brasileira, quais sejam, os negros, os índios, os portugueses, os italianos, os japoneses, os alemães, entre outros. É dizer, a maneira como vive o povo brasileiro, sua culinária, agricultura, crenças, costumes, hábitos e religião. Os modos de fazer, criar e viver dizem respeito à vida cotidiana de determinada sociedade; são o conjunto heterogêneo de fatos, atos, objetos, relações e atividades que se apresentam como mundo em movimento e que dão forma à vida diária das pessoas. A vida cotidiana de uma sociedade está diretamente relacionada com a forma como as pessoas produzem e reproduzem sua existência social e seu modo de vida.
Assim, a titularidade dos direitos culturais até se prende, numa determinada medida, a um titular isolado, mas é a sua dimensão difusa, onde se enxerga sua caracterização como direito de solidariedade, que vai ter maior importância.
162
A Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural menciona que a diversidade cultural é tão importante para a humanidade, quanto o é a diversidade biológica para a natureza, determinando deva ser a diversidade cultural reconhecida e consolidada em prol das gerações futuras.
Vê-se presente, novamente, o compromisso para com os que estão por vir, sendo esta a acepção que consiste no diferencial dos direitos fundamentais ao ambiente e à cultura com relação aos outros direitos fundamentais, e, ao mesmo tempo, o que irmana os dois direitos.
No que concerne à titularidade difusa dos direitos culturais, é relevante lembrar que há interesses no campo destes direitos que não se vinculam sequer a um determinado Estado. São direitos que ultrapassam fronteiras, posto constituírem patrimônio comum da humanidade.
Um exemplo que confere a possibilidade de compreender este alcance dos direitos culturais é dado por José Manuel Pureza163, para o que cita Alexandre Kiss: “La mutilación de la Pietà de Miguel Ángel, o los desgastes sufridos por el Templo de Angkor, hieren la sensibilidad de todo el mundo culto, que experimenta un sentimiento de pérdida irreparable.”
Como direitos fundamentais, os direitos culturais estão vinculados ao princípio da dignidade da pessoa humana, na função de integrar o homem na sociedade em que vive, mantendo-o em permanente contato com os valores cultivados pela comunidade.
O princípio da dignidade da pessoa humana cumpre sua posição constitucional de fundamento da República. Em verdade, tal princípio percorre todo o texto constitucional, e, dizendo de modo mais abrangente, é imanente na ciência do Direito, atraindo valores e justificando posturas.
Assim explica Ingo Sarlet164:
163
KISS, Alexandre.ApudPUREZA, José Manuel.El patrimonio común de la humanidad.2002. p. 344 164
SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição de 1988. 2007. p. 79
Dentre as funções exercidas pelo princípio fundamental da dignidade da pessoa humana, destaca-se, pela sua magnitude, o fato de ser, simultaneamente, elemento que confere unidade de sentido e legitimidade a uma determinada ordem constitucional, constituindo-se, de acordo com a significativa fórmula de Haverkate, no ‘ponto de Arquimedes do estado constitucional’.
No dizer de Ingo Sarlet, portanto, o princípio da dignidade humana confere unidade à ordem constitucional. Vêem-se a ele ligados, tanto o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, quanto os direitos culturais, que estão, portanto, congregados entre si em torno de um fundamento comum.
A dignidade da pessoa humana fornece um vasto campo de reflexão, campo que permite verificar o homem como ele se apresenta, com suas tensões, preocupações, expectativas e valores, em constante relação com a sociedade de que faz parte. Interagem, portanto, homem-sociedade-meio ambiente-cultura.
Sobredita relação surge explícita no texto constitucional. No artigo 3º da Constituição Federal, é previsto como objetivo da República Brasileira a garantia ao desenvolvimento nacional. É de se questionar como o desenvolvimento nacional poderia ser perseguido e alcançado sem o respeito aos direitos culturais, até porque o adjetivo “nacional” conclama a identidade de um povo. Daí a previsão no artigo 215 do direito fundamental à cultura, considerada, como não poderia deixar de ser, em acepções diversas.
É na Carta Política, que se encontra, ainda, no artigo 225, o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Ambos os dispositivos deverão ser interpretados à luz de uma leitura sistemática e unitária da Constituição, segundo a qual o Estado Social Democrático de Direito só se realiza se garantir ao homem a existência com dignidade, o que abrange o direito de manifestar-se culturalmente num ambiente que assegure a sadia qualidade de vida.
A idéia de que o desenvolvimento está ligado ao respeito aos direitos culturais está presente no artigo 3º da Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, que considera a diversidade cultural como fator de desenvolvimento.
Dentro dessa idéia, pensa-se mesmo em falar de um Estado de Direito Socioambiental-Cultural165.
O fato é que os direitos culturais figuram como informadores e limitadores da ação estatal. O Estado precisa, por intermédio de políticas públicas, assegurar o exercício de tais direitos, e não pode agir de forma a restringi-los injustificadamente.
Ocorre que os direitos culturais, quando expressos na forma de um princípio, diferentemente do que ocorre com as regras, tendo em vista a sua elasticidade, a sua plasticidade, demandam formas de aplicação peculiares, o que está de acordo com o caráter múltiplo e popular dos direitos culturais em sua dimensão difusa. Assim como outros direitos fundamentais, podem, dependendo das circunstâncias presentes no caso concreto, ser limitados por outros direitos de mesma natureza.
Até pelo pluralismo que toca os direitos culturais, estes direitos não poderiam ter seu campo de concretização estritamente definido, como ocorre com as regras. Direitos culturais, quando expressos sob a forma de princípios, deverão ser exercidos em harmonia com as demais normas desta natureza, o que, na hipótese de colisão, resolve-se pelo critério do peso relativo de cada princípio no caso concreto em exame.