SUMÁRIO
6. SUMÁRIO DE CONCLUSÕES
1.4 Os Tityus sp do Brasil
1.4.1 Tityus bahiensis (Perti, 1834)
Tityus bahiensis é conhecido popularmente como escorpião-marrom
devido à sua coloração marrom-escuro nos apêndices, assim como no seu prossoma e mesossoma (Figura 3A). Embora endêmica do Estado de São Paulo, esta espécie pode ser encontrada em outros estados da região sudeste (Minas Gerais), assim como nas regiões sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), nordeste (Bahia) e centro-oeste (Mato Grosso do Sul e Goiás) (Figura 3B). Por serem sinantrópicos (encontrados em ambientes urbanos), essa espécie é a segunda maior causadora de envenenamento por escorpiões no Brasil e a maior causadora de acidentes no estado de São Paulo (12).
Além de sua distribuição pelo território brasileiro, T. bahiensis também ocorre na Argentina [Províncias Misiones, Corrientes, Entre Ríos, Santa Fé; Chaco e Formosa; (210,211)] e Paraguai [Províncias Cordillera, Guairá, Alto Paraná e Itapuá;
(212,213)], em regiões próximas à Tríplice Fronteira (bordas entre Brasil, Argentina e Paraguai). Existem registros do aparecimento dessa espécie na Venezuela, entretanto acredita-se que este fato esteja relacionado ao fluxo de turistas entre Venezuela e Brasil (214,215). Em contraste com o Brasil, T. bahiensis não possui importância clínica nos demais países uma vez que nenhum caso de envenenamento grave ou morte fora reportado (210,216).
Embora tenha sido a primeira espécie de Tityus sp. descrita no Brasil (inicialmente como Scorpio bahiensis por Perty, 1833), seu veneno assim como as frações cromatográficas e toxinas isoladas permanecem pobremente estudados, totalizando hoje pouco mais de 25 artigos em periódicos indexados no PubMed.
Figura 3. Espécimes macho e fêmea do escorpião Tityus bahiensis no estado de São Paulo (7) e sua distribuição geográfica (A, B, respectivamente). A área em vermelho indica o estado de São
Paulo, de onde T. bahiensis é endêmico sendo o maior causador de acidentes. As áreas em laranja indicam os estados do Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Goiás estados onde acidentes por T. bahiensis também são frequentes. Poucos acidentes foram reportados nos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Bahia e Mato Grosso (áreas em amarelo claro).
Recentemente, foi publicado o transcriptoma da glândula produtora de veneno do T. bahiensis (217). Foram identificados transcritos similares aos de compostos que atuam em canais de potássio (8,1%) e de sódio (13%). Foram também identificados transcritos de metaloproteinases (33%), que supostamente estão envolvidos com a desregulação da secreção pancreática observada nos envenenamentos (218), assim como na degradação de fibrinogênio in vitro (219). Identificou-se, ainda, substâncias do tipo hipotensivas (4,5%). Em relação às atividades enzimáticas, o veneno bruto de T. bahiensis apresenta atividades hialuronidásicas e proteolíticas, mas não fosfolipásica (220).
Dorce e colaboradores vêm estudando os efeitos do veneno de T. bahiensis no sistema nervoso central e em ratas prenhas/lactantes e suas respectivas proles. Foram observados efeitos sistêmicos transitórios (alteração na frequência respiratória e aumento das secreções salivares e nasais) e locais (dor e rigidez) após exposição de ratas prenhas ao veneno. A ninhada dessas ratas também sofreu alterações em seu desenvolvimento físico e comportamental (221–223); ou seja, os filhotes machos tiveram comprometimento motor, enquanto as fêmeas apresentaram comportamentos similares a estados depressivos, além de se mostrarem mais ansiosas que os machos; nos dois casos foi observada diminuição no número de células do hipocampo (224). O envenenamento materno durante a lactação diminuiu o número de células no hipocampo e aumentou os níveis de IFN-γ no cérebro, e retardou o desenvolvimento físico, reflexo e motor da ninhada. Estes efeitos podem se dar por ação direta - o veneno atinge o leite materno e atingindo os filhotes - ou indiretos – o veneno promove alterações deletérias na progenitora levando a diminuição no volume e alteração na composição do leite (225). A injeção intraperitoneal do veneno de T. bahiensis induziu alterações eletrográficas e comportamentais; entretanto, não foi observada perda neural no hipocampo ou alterações nos níveis extracelulares de alguns neurotransmissores (glutamato, glicina, GABA, 5-HIAA e DPOCA), porém houve aumento nos níveis de ácido homovanílico (HVA), indicando que o veneno pode ultrapassar a barreira hematoencefálica (226).
O veneno de T. bahiensis apresenta atividade edematogênica e promove infiltração de neutrófilos (227). Além disso, estimula a atividade pancreática e a hipersecreção de saliva por meio da liberação de acetilcolina dos nervos pancreáticos e por estimulação colinérgica sistêmica, respectivamente (228).
Apenas um trabalho envolvendo o veneno bruto e canais iônicos foi publicado (229). Neste, demonstrou-se que o veneno de T. bahiensis, quando incubado a neurônios do gânglio da raiz dorsal, reduz significativamente a taxa de inativação, aumenta a amplitude das correntes e causa mudança negativa na ativação e inativação dos canais de sódio dependentes de voltagem e sensíveis a tetrodotoxina (TTX). Porém, embora seja observada uma pequena diminuição na amplitude das correntes dos canais resistentes à TTX, o mecanismo de abertura e fechamento desses canais não foram afetados. Já em nos canais de sódio cardíacos (Nav 1.5,
resistentes a TTX), o veneno inibiu em aproximadamente 50% a corrente de sódio e promoveu um grande retardo na ativação e inativação da corrente restante.
1.4.1.1 Estudo das frações isoladas
A primeira publicação envolvendo frações e toxinas isoladas do veneno de
T. bahiensis data de 1993 (230), onde se descreveu o isolamento parcial e
caracterização de dois peptídeos: TbTx-VI e IV-5b. Dois anos depois, publicou-se a primeira caracterização bioquímica completa da IV-5b e o estudo de sua atividade em canais de sódio dependentes de voltagem. Relatou-se que esse peptídeo causa retardo na inativação desses canais, porém pouco afeta sua ativação (231).
Um estudo posterior identificou que as frações IV, V e VIII são tóxicas e a fração VI é letal para camundongos. Da fração VI foram então isoladas 3 toxinas: γ- bahiensis (toxina letal que corresponde a 10% do veneno bruto, e que demonstra 90% de similaridade à toxina γ do T. serrulatus), III-8-bahiensis (III-8b) e TbTx-VI (toxina não letal) (232). Do veneno de escorpião também foram isoladas duas toxinas com atividades inseticidas (TbIT-I e Tb2-II) os quais tiveram a sequência de aminoácidos e caracterização bioquímica parcial publicadas (233).
Em 2002, Lourenço e colaboradores (137) estudaram os efeitos de 6 frações isoladas (P2 – P7) no sistema nervoso central de ratos. A injeção intravenosa das frações de baixo peso molecular (P5, P6 e P7) induziram convulsão espontânea (reforçando a habilidade dos componentes do veneno em atravessar a barreira hematoencefálica) enquanto as injeções intrahipocampais promoveram dano neural (P5), alterações comportamentais (P5 – P7) e alterações eletrográficas (P5, P6). A
partir da P5 foi purificada a toxina TbV-4, apontada como a responsável pelos efeitos epilépticos e alterações encefalográficas; os efeitos convulsivos foram concomitantes com altos níveis de glutamato e dano neural (234).
1.5 Relevância deste trabalho
Os venenos escorpiônicos são compostos principalmente por peptídeos neurotóxicos capazes de interagir com elevada afinidade e especificidade com canais iônicos, podendo inativar, ativar, bloquear ou mesmo alterar o mecanismo de abertura e fechamento desses canais. Essa atividade neurotóxica é de grande relevância clínica, pois os principais efeitos observados durante acidentes escorpiônicos estão relacionados à liberação massiva de neurotransmissores no sistema nervoso central e periférico. Toxinas isoladas a partir de venenos de escorpiões têm sido empregadas como ferramentas para estudo da estrutura e fisiologia dos canais iônicos, assim como de doenças como canalopatias, epilepsia, paralisia facial, doenças musculares, arritmias cardíacas e síndromes da dor.
O Tityus bahiensis é segundo maior responsável por acidentes escorpiônicos no Brasil e principal responsável no Estado de São Paulo, porém, ainda são pouco numerosos os trabalhos envolvendo o veneno de Tityus bahiensis ou suas frações isoladas. Grande parte dos trabalhos publicados envolve a gestação e sistema nervoso central e apenas um trabalho estudou as atividades biológicas das frações isoladas do veneno (137), sendo que a partir desse trabalho foi isolada uma toxina com atividades no SNC (234). Foram também isoladas toxinas com atividade inseticida (233). Outros cinco trabalhos estão voltados ao isolamento e sequenciamento de toxinas, proteômica da glândula de veneno e atividades enzimáticas do veneno bruto (217,230,232,233).
Em relação a canais iônicos propriamente ditos, foram publicados apenas um trabalho com veneno bruto (229) e um segundo envolvendo uma toxina isolada (231). Não há trabalhos avaliando a atividade do veneno bruto de T. bahiensis no
sistema nervoso periférico (somático ou autônomo) e na musculatura lisa ou esquelética, o que justifica a originalidade e importância deste estudo.