CAPÍTULO III: Análise Cenográfica das “Cenas da Árvore”
3.3. Toca do Nilson do Boqueirão da Pedra Solta
É um sítio relativamente pequeno, com dimensões: 30 m de
comprimento por 10 m de largura, a abertura do sítio está voltado para
noroeste. Em sua mancha gráfica existem poucas pinturas rupestres, todas
com coloração avermelhada, com relação à “cena da árvore” têm duas cenas
que apresentam características necessárias para fazer parte dessa temática.
Essa cena é característica da temática sugerida com “cena da árvore”
por possuir antropomorfos dispostos ao redor de um fitomorfo (ver figura 35). A
pintura está a 3,61 m de altura em relação ao solo, os antropomorfos medem
em média 8 cm de comprimento e o fitomorfo 15 cm. A cena possui algumas
pinturas que estão bastante degradadas, devida desagregação de sedimentos
do paredão rochoso, dificultando a identificação dos antropomorfos
Fig. 35: “cena da árvore” 1, sítio Toca do Nilson do Boqueirão da Pedra Solta.
A cena possui cinco antropomorfos visíveis, onde três deles
apresentam um objeto de mão, dois apresentam objetos do tipo 1, os
antropomorfos nº 2 e 3, o antropomorfo nº 1 segura um objeto do tipo 3 (ver
figura 35), esses antropomorfos estão localizados um pouco mais afastados do
fitomorfo. Todos os antropomorfos da cena estão com as duas mãos erguidas,
nos três antropomorfos a mão que segura o objeto se opõe a localização do
fitomorfo, sugerindo uma intenção totalmente voluntária do artista.
Fig.36: “cena da árvore” 1. Antropomorfos numerados.
Os dois antropomorfos de nº 4 e 5, mais próximos do fitomorfo estão
com as mãos erguidas tocando o primeiro “galho” do fitomorfo. Eles não
apresentam nenhum tipo de objeto de mão, porém, apresentam ornamentos na
cabeça do tipo 2, os ornamentos são morfologicamente parecidos, aonde vai
se alongando e afinando na extremidade (ver figura 37).
Fig. 37: Antropomorfos segurando o “ramo” do fitomorfo, | Detalhe do ornamento de cabeça do
tipo 2.
Com relação o fitomorfo, possui nove galhos, cinco de um lado e quatro
do outro, esse fitomorfo é relativamente pequeno em relação aos
antropomorfos se comparado aos outros sítios com a mesma composição
cenográfica.
Análise da Cena 02
A segunda cena do sítio é composta por oito antropomorfos com o
tamanho médio de 6 cm e um fitomorfo de aproximadamente 12 cm de
comprimento. Pela primeira vez observamos dois antropomorfos em lados
opostos portando um objeto de mão, que havia sido comentado no início da
pesquisa como sendo a segunda hipótese da pesquisa (ver figura 38).
Dentre os oito antropomorfos, três apresentam ornamentos de cabeça
do tipo 2. Das cenas escolhidas para essa pesquisa, essa cena é a mais
uniforme, ao que se referem à técnica da representação dos antropomorfos,
com exceção dos três indivíduos que apresentam ornamento, todos foram
representados de maneira semelhante, a cabeça é arredondada, bem como a
morfologia do corpo, que não tem mais o formato retilíneo observado na
maioria dos antropomorfos das cenas analisadas anteriormente (ver figura 39).
Fig. 39: “cena da árvore” de n° 2 segregada. Toca do Nilson do Boqueirão da Pedra Solta.
As mãos e os pés dos antropomorfos foram representados de forma
semelhante. Como pudemos observar apenas os indivíduos de nº 1 e 2 se
apresentam diferente dos demais do grupo, pois enquanto a maioria foi
representada de perfil e de mãos estendidas fazendo reverência à árvore, os nº
1 e 2 se apresenta frontalmente e possuem um objeto de mão, os dois fazem
gesto de comando, sugerindo ser alguém de grande importância para o ritual.
Nenhum dos antropomorfos dessa cena foi representado com o falo (ver figura
39).
Fig. 40: Antropomorfos segregados, portando objetos de mão.
Durante o processo de segregação o antropomorfo de nº 02
apresentou uma espécie de chapéu primitivo, como podemos observar na
figura 40, onde vemos duas proeminências dos dois lados da cabeça, isso não
foi observado na imagem original (ver imagem 38). Provavelmente, o que pode
ter ocorrido é que alguma saliência da própria rocha durante o processo de
segregação se confundiu com a pintura que tem um tom de vermelho parecido
com a utilizada na manufatura da cena.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O tema “arte rupestre” sempre me interessou e o estudo dos registros
emblemáticos parecia um desafio interessante, já que se trata de uma
composição cenográfica da qual não sabemos o verdadeiro significado. Foi
pensando nisso que decidi fazer meu trabalho monográfico sobre o registro
emblemático da “cena da árvore”, e minha pretensão é poder continuar esse
estudo, utilizando mais cenas, em mais sítios de diferentes áreas
arqueológicas.
A pesquisa teve um direcionamento voltado para a cenografia, já que a
temática já vem sendo explicada como uma cena ritualística, envolvendo
antropomorfos e fitomorfos. Através do software Photoshop Cs foi possível
fazer a segregação da imagem do paredão rochoso, auxiliando-nos na
micro-análise dos componentes da cena em questão. Através dessa micro-análise podemos
sugerir que à arte rupestre presente nesses sítios podem ter sido elaborados
por diferentes grupos étnicos, pois como sabemos esses tipos de vestígios
humanos, que acreditamos ser uma forma de percepção simbólica foram criada
com o intuito de expressar o meio em que viviam. Registrando assim,
características culturais distintas, e através de um estudo micro-analítico, onde
levamos em conta todos os elementos representados na cena, tais como:
adorno, objetos de mão, morfologia da cabeça e dos membros, poderemos
atribuí-la a diferentes grupos étnicos.
Através da análise podemos dizer que a resposta ao problema
levantado no início desse trabalho é negativa. Não existe um padrão na forma
de representar a “cena da árvore” nos diferentes sítios da Subtradição Várzea
Grande, o que notamos é uma série de micro modificações que podem ser
explicadas pelo fato de não pertencerem a um único grupo étnico. Como foi
dito antes o aperfeiçoamento técnico ocorrido durante os muitos anos da
cultura de pintura rupestre, traça uma evolução estilística que é atribuída à
elaboração de uma mesma cena por populações diferentes.
Os adornos apresentados nas cinco cenas analisadas são de apenas
02 tipos diferentes. Na Toca da Extrema II, na cena 1 apenas um antropomorfo,
o de nº 9 (ver figura 24) apresenta adorno, dentre os 12 indivíduos da cena
antropomorfos da cena apresenta adorno. E na Toca do Nilson do Boqueirão
da Pedra Solta nas duas cenas observamos a presença de adorno do tipo 1
(ver figura 41).
Fig. 41: Diferentes tipos de ornamentos - Toca da Extrema II e Toca do Nilson do Boqueirão da
Pedra Solta.
Uma semelhança na representação da “cena da árvore” nos diferentes
sítios está entre a segunda cena da Toca da Extrema II, com a única cena da
Toca do Vento, onde observamos antropomorfos de diferentes grupos
estilísticos participando, ao que parece do mesmo ritual (ver tabela 1).
O falo foi representado nas duas cenas do Sítio Toca da Extrema II e
na Toca do Vento. No primeiro sítio encontramos dois tipos de representação,
já no segundo observamos o falo pintado de maneira semelhante à
representação da cena 2 da Toca da Extrema II (ver figura 42).
Fig. 42: Antropomorfos de diferentes sítios apresentando o falo.
Na construção cenográfica dos três sítios observamos um padrão na
representação da cabeça, sempre arredondada, quando tratamos de
antropomorfos de um mesmo estilo de pintura (ver tabela 2).
Tabela 2: Morfologia da cabeça apresentada nos diferentes sítios; Tipo 1: Toca da Extrema II,
Tipo 2: Boqueirão do Nilson da Pedra Solta, Tipo 3: Toca do Vento.
As mãos e os pés também são representados de maneira semelhante,
os tipos de mão são duas que observamos nos três sítios (ver tabela 3). E os
pés são de 4 tipos como podemos observar na tabela, a diferença encontra-se
quando mudamos de sítios. Quando estamos tratando do mesmo sítio em
cenas diferentes a representação foi praticamente do mesmo tipo, já quando
mudamos de sítio notamos uma diferença maior na representação dos pés (ver
tabela 4).
Tabela 3: Morfologia das mãos apresentadas nos três sítios analisados.
Tabela 4: Morfologia dos pés observada entre os três sítios; Tipo 1: cena 2 do sítio Toca da
Extrema II, Tipo 2: Toca do Vento, Tipo 3: Boqueirão do Nilson da Pedra Solta e o Tipo 4: cena
01 da Toca da Extrema II.
A respeito das hipóteses levantadas no início da pesquisa, o que
podemos dizer é que, não existe um padrão para a localização da “cena da
árvore” dentro da mancha gráfica nos sítios estudados, pois a mesma se repete
em diferentes posições, em relação à altura (em relação ao solo) e orientação
(relacionada à abertura do sítio). A segunda hipótese não pode ser corroborada
com esses sítios, pois apenas no sítio Toca do Nilson do Boqueirão da Pedra
Solta, podemos observar a presença de dois, ou no caso da segunda cena,
três antropomorfos portando um objeto de mão do mesmo tipo que delimitam a
composição cenográfica.
E a terceira hipótese que é corroborada, pois como observamos na
maioria dos sítios, a “cena da árvore” foi representada de maneira distinta
dentro de uma mesma mancha gráfica, ou seja, num mesmo sítio em que
aparecem mais de uma cenografia da árvore ela apresenta algumas
modificações. Como pudemos observar, a introdução de novos estilos dentro
de uma mesma cena é comum, como na cena 2 da Toca da Extrema II em que
são representados antropomorfos do Estilo Serra da Capivara, Serra Talhada e
Serra Branca (ver tabela 2).
Também não observamos a presença de animais participando da
cena, muitos zoomorfos encontram-se próximos à cena, mas nenhum ligado
diretamente com a cenografia. Nos sítios em que observamos a intrusão de
diferentes estilos, podemos sugerir que o formato do rosto dos antropomorfos
do estilo Serra Talhada, possui máscaras. Adornos foram observados na cena
01 da Toca da Extrema II, e na cena 01 da Toca do Nilson do Boqueirão da
Pedra Solta. Contudo, zoomorfos não foram observados em nenhum dos sítios
analisados.
A pesquisa sugere que a Subtradição Várzea Grande seja mais
estudada, para que os questionamentos que não puderam ser respondidos
nesse trabalho sejam contestados. A presença de uma cenografia,
característica da Tradição Nordeste, que apresenta os três tipos estilísticos da
Subtradição Várzea Grande merece um estudo mais aprofundado, e
provavelmente, um estudo da técnica utilizada, como a preparação da
superfície antes da pintura, em cada sítio que tenha a presença desse registro,
pode responder se foram ou não pintados numa mesma época.
Os resultados obtidos na pesquisa consistem nas inferências que aqui
seguem:
• Na dimensão cenográfica não está caracterizado uma prioridade
preferencial dos autores na localização desse tipo de registro
emblemático, podendo surgir em qualquer altura ou domínio dos
registros pintados contendo sítios da Tradição Nordeste;
• No “ritual”, tal como é considerado, a representação dessa cenografia
• Não é padrão a presença de antropomorfos com objetos de mão se
posicionando nas extremidades da composição cenográfica, ocorre em
alguns sítios, mas não é repetido em todos;
Esta pesquisa pretende colaborar para os estudos de arte rupestre que
vêm sendo realizados desde a década de 1970, quando a equipe da
arqueóloga Niède Guidon descobriu o imenso potencial arqueológico que a
região do Parque Nacional Serra da Capivara possui. Respondendo aos
questionamentos levantados no início da pesquisa e lançando novas hipóteses,
esse estudo procura ajudar a um melhor entendimento sobre a Tradição
Nordeste e a Subtradição Várzea Grande.
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ANEXO – A: Delimitação do Parque Nacional Serra da Capivara com a posição
dos sítios analisados na pesquisa.