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4.4 – TODOS OS (DES)CAMINHOS LEVAM PARA O CONSELHO?

Bundão.

O professor recua. Os alunos tentam apaziguar a situação, pois sabem que por traz do professor há a Instituição, o Estado. Mas Souleyname; exaltado, joga rispidamente seus cadernos para os lados, levanta-se para sair da sala. O professor tenta impedi-lo; é empurrado. Outro aluno (Carl, que havia sido expulso de outra escola) segura Souleyname para evitar que este agrida o professor. Por fim, ele sai, empurrando todos. Uma aluna é machucada pela bolsa de Souleyname, quando tentava sair da sala.

-“Me deixa em paz, Veado!” E sai, batendo a porta. A frase, pedindo para ser deixado em paz não é gratuita.

4.4 – TODOS OS (DES)CAMINHOS LEVAM PARA O CONSELHO?

O olhar da câmera vê o professor François sentado numa mesa, prenchendo o relatório de incidente. É a única cena em que a câmera olha de fora para dentro da escola. Talvez um recurso para aliviar a tensão da sequencia anterior, que terminara com uma aluna com as mãos no rosto, sangrando.

O diretor não vê outra saída senão levar o ocorrido ao Conselho Disciplinar. Os fatos foram graves; mesmo assim, François tenta minimizar os fatos: “Na verdade,

foi só um incidente que desencadeou tudo. Uma coisa levou à outra. Reação em cadeia”. Uma das muitas reflexões que o filme deixa para o espectador é o que poderia

ser feito de diferente. Neste caso como o professor poderia ter evitado o que ele chama de ‘reação em cadeia’? Não há uma resposta para isso, senão que é da natureza da relação professor – alunos a negociação diária no sentido de pelo menos neutralizar conflitos.

A postura pedagógica de François permite uma abertura dos alunos onde submergem as tensões entre a instituição escolar tradicional e aqueles alunos em particular, que na verdade são reflexo do passado recente da França com suas ex- colônias africanas. Estes garotos, esta geração decide reinvindicar sua cidadania francesa em busca de melhores condições de vida que não encontram no continente africano, outrora devastado pela colonização européia e depois pelas guerras internas. Num nível menor de conflito, é esta uma das grandes razões que geram a reação em

cadeia que fala François. Mesmo assim, o professor insiste em não transformar o incidente em algo grave, que requeria medidas disciplinares mais severas.

Saindo da sala do diretor, François é interpelado por uma colega, que ouvira comentários das alunas que foram xingadas de vagabundas e de que teria sido esta a origem do protesto e da agressão de Souleyname. Além disso, diz a professora, François não mencionara este incidente no relatório. François desce ao pátio para tirar satisfação com as meninas que estão em grupo. Novamente, ele abandona seu posto de professor para discutir com os alunos no mesmo nível (simbolicamente, no pátio, que é sempre visto de cima, exceto por esta vez e na penúltima sequência do filme): “Podiam ter

falado comigo antes, não?” pergunta, querendo de alguma maneira que as meninas não

contassem que foram ofendidas por ele, resolvendo isso informalmente. Mas uma das alunas se defende: “Os professores fazem (denunciar ao Conselho) isso com os alunos.

Fizemos igual.” Mas para François, “o contrário não vale”. Vemos como a relação

cotidiana entre professores e alunos, desde o que diz respeito às notas, comportamento, uso de materiais indevidos em sala de aula (pedir, ou mandar que tire o boné, não usar celulares, sentar direito, não sujar a sala) até nas exaustivas reuniões de Conselhos, são relações muitas vezes tomadas como menores. As políticas públicas, os planos e teorias pedagógicos são obliterados por estas picuinhas no cotidiano da sala de aula.

A tomada de satisfação do professor com as alunas se transforma num bate boca que chama a atenção de todos os alunos no pátio. O território dominante agora é do pátio, dos alunos, não mais a sala de aula. “...(esperamos) que o senhor seja punido,

como nós (...) insultou a gente, vai ser punido. Sabe o que quer dizer vagabunda, para começar?” diz Esmeralda, indignada e sarcasticamente, de frente com François e

rodeada pelos colegas. Ele ainda tenta se esquivar: “(vagabunda) não é nada grave. É

uma mulher que fica rindo, sem modos” diz para revolta dos alunos para o qual

vagabunda significa prostituta. Além disso, é cobrado como responsável pelo fato de Souleyname ir ao Conselho Disciplinar.

Carl, o aluno que havia chegado no meio do ano letivo, transferido de outra escola38 (por ter cometido algo relativamente grave, que não sabemos), interrompe a

38 Ao que parece, o recurso da transferência compulsória usado na escola deste filme é o mesmo das

escolas públicas no Brasil. Quando algum aluno comete infrações reincidentes que se agravam ao ponto de ser instituído um /conselho disciplinar, este delibera não sua expulsão, que é ilegal, mas a transferencia para outra escola. Na verdade há um intercambio de ‘alunos problemas’ de uma escola para outra, num

discussão entre François e tenta defender Souleyname: “Espere aí, todo mundo perde a

cabeça.” François aproveita a ocasião para justificar, novamente como porta-voz do

Conselho, a transferência compulsória de Souleyname, pois o próprio Carl era um exemplo que a transferencia pode ‘acalmar’ os ânimos exaltados dos alunos problemáticos. Ao dizer para Carl, que, com a transferência, “todos os professores

dizem que seu comportamente é perfeito aqui”, o jovem se revolta: “Quer dizer que me dobraram? (...) Nada disso, não entendo essas besterias de vocês! ...Desculpe, mas professor que expulsa aluno é cuzão!”, diz à François. Reestebele-se um discurso de

resistência na voz de Carl, pois o fato de ter sido transferido e melhorado seu comportamento não significava para ele que havia se ‘dobrado’, isto é, se submetido, talvez no sentido da relação senhor-escravo.

François por fim desiste de confrontar seus alunos no território deles, percebendo que tentar impor sua autoridade, “eu sou professor e posso falar coisas que

vocês não podem!” , aos alunos, no pátio é se expor ao ridículo, visto que mesmo

dentro da sala de aula ele encontra dificuldade para isso .

Desistindo da discussão, François volta ao prédio de aula. Mas uma aluna o procura para advertir que, se Souyleyname for expulso, seu pai o mandará de volta à Mali. (a garota deixa subentendido que o pai de Souleyname é intransigente, senão violento). É uma dos poucos diálogos que, sutilmente, indicam razões sociais e familiares para os comportamentos dos alunos. Os muros da escola parecem tão fechados que François desce para a cozinha para fumar um cigarro, como se não houvesse um local aberto na escola.