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Fonte: Elaborado pela autora

Esse relato de P1 apresenta duas importantes situações a serem observadas: a primeira, uma dificuldade de aceitação dos demais estudantes devido a uma

45 Diante da comparação da motivação do estudante no primeiro e segundo anos letivos cabe observar que ao final do 1º ano letivo o estudante não obteve aprovação. Poderia a desmotivação ser resultado dessa situação de reprovação?

atenção maior que era destinada ao estudante com DI, essa situação é apresentada em algumas pesquisas (ANJOS; ANDRADE; PEREIRA, 2009; LAPLANE, 2014; MATOS; MENDES, 2015) como uma forma de exclusão, em que o professor ou consegue dar atenção ao estudante com deficiência ou aos demais estudantes da turma, especialmente quando há um número elevado de estudantes em sala de aula e não há um trabalho compartilhado entre o docente e outros profissionais; o segundo aspecto, no entanto, indica a importância que a interação proporcionada entre estudantes com e sem deficiência na classe comum auxiliaram àqueles que não têm deficiência a mudar as suas atitudes em relação às diferenças.

E que outros aspectos do processo de escolarização podem ser beneficiados por meio da mediação da aprendizagem?

Ao observar a proposta pedagógica de um curso técnico integrado ao ensino médio é possível verificar que, em termos de estrutura curricular, há uma demanda diferenciada de conteúdos, carga horária e objetivos, se comparado ao ensino médio regular, uma vez que essa modalidade de ensino, para além da formação para conclusão da última etapa da educação básica, também objetiva uma formação técnica específica que dará ao egresso do curso uma habilitação para atuar profissionalmente no mundo do trabalho. Dessa forma, a mediação também pode favorecer aspectos referentes à formação dos conceitos científicos necessários ao processo de escolarização.

A aprendizagem de diferentes conteúdos curriculares tem como base a formação de diversos conceitos científicos que são estudados nos diferentes níveis de ensino. Vigotski (1998b, p.104) alerta para o fato de que a formação de conceito “é um ato real e complexo de pensamento que não pode ser ensinado por meio de treinamento”.

O desenvolvimento dos conceitos, ou dos significados das palavras, pressupõe o desenvolvimento de muitas funções intelectuais: atenção deliberada, memória lógica, abstração, capacidade para comparar e diferenciar (VIGOTSKI,1998b, p.104).

Da fase mais precoce da infância à puberdade, ocorrem atividades psicológicas complexas, que vão desde formações intelectuais básicas até a formação dos conceitos. Segundo o autor, para chegar à formação de conceitos há uma série

de formações de pensamento (pensamento sincrético, pensamento por complexos e conceitos potenciais) que antecedem a formação dos conceitos verdadeiros.

Vigotski salienta que o “aprendizado é uma das principais fontes de conceitos da criança em idade escolar, e é também uma poderosa força que direciona o seu desenvolvimento” (1998b, p.107). Nesse aspecto observa-se a importância da experiência escolar no processo de formação de conceitos, que ocorre de forma complexa e articulada entre as diferentes experiências vivenciadas pela criança, havendo assim um processo que leva a uma transição entre os conceitos espontâneos e os conceitos científicos. “O aprendizado escolar induz o tipo de percepção generalizante, desempenhando assim um papel decisivo na conscientização da criança dos seus próprios processos mentais” (VIGOTSKI,1998b, p.115).

Pletsch (2014, p. 123) destaca que o sujeito com deficiência intelectual tem dificuldades em aspectos de metacognição, em aprender a aprender. “Tais processos, por sua vez, explicam que os diferentes modos de desenvolvimento e funcionamento cognitivo de pessoas com deficiência mental46 seriam mais lentos em consequência

de uma viscosidade em seu raciocínio.”

Considerando que o estudante com DI apresenta limitações no desenvolvimento intelectual e que isso resulta em uma necessidade de mais tempo para aprender, uma das inquietações apontadas pelos profissionais era a respeito da bagagem de conhecimento que esse estudante trazia ao ingressar em um curso técnico integrado ao ensino médio, uma vez que no novo contexto escolar seriam trabalhados de forma mais aprofundada os conceitos desenvolvidos ao longo do ensino fundamental, além da inserção de novos conceitos específicos dos componentes curriculares do ensino médio e da formação profissional. A mediação, dessa forma, pode auxiliar os profissionais a compreender as aprendizagens que já fazem parte do desenvolvimento real desse estudante, e elaborar estratégias que possibilitem atuar na zona de desenvolvimento proximal.

Dessa forma, cabe observar que estratégias foram proporcionadas pelos profissionais da educação para identificar o que esse estudante com DI já apresentava em sua bagagem conceitual, que representa seu nível de desenvolvimento real, e,

46 A autora utiliza o termo deficiência mental, à época de realização de sua pesquisa. A alteração para o conceito deficiência intelectual pela AAIDD deu-se em período posterior.

como foram trabalhados conceitos aos quais ele ainda precisava de auxílio para desenvolver na zona de desenvolvimento proximal.

O nível de desenvolvimento real pode ser caracterizado por aquela aprendizagem já internalizada pelo estudante, e a qual ele tem autonomia para desenvolver sem a mediação de outras pessoas. Quando um estudante é promovido para o próximo ano letivo, ou quando chega a um novo ambiente escolar, as atividades desenvolvidas na nova etapa têm como referência o novo currículo proposto que fará uso de conceitos e aprendizagens que o estudante deveria ter desenvolvido na etapa anterior.

Devido às dificuldades relacionadas à metacognição e ao tempo necessário para a aprendizagem, pode haver uma dificuldade, por parte dos profissionais, em identificar os conhecimentos prévios desenvolvidos pelo estudante com DI na etapa escolar anterior. Como identificar as aprendizagens que estão internalizadas em um estudante com deficiência intelectual? Como compreender o seu nível de desenvolvimento real?

Para compreender como os profissionais buscaram conhecer o estudante e seu nível de desenvolvimento real, foram analisadas falas sobre ações que tinham como objetivo compreender os conhecimentos prévios desse estudante. Destaco inicialmente os relatos apresentados no diagrama 31, que apontam para a necessidade de conhecer inicialmente esse estudante para compreender suas potencialidades.