2.2 MODELO DE GESTÃO ECONÔMICA
2.2.4 Tomada de decisão
2.2.4.3 Tomada de decisão, risco e incerteza
A questão do risco tem larga importância tanto pelos aspectos de resultado das decisões quanto pela influência para os gestores ao tomarem decisões. A premissa é que sempre se tomará a melhor decisão, o risco é enfocado de forma ambígua: os gestores tomam a melhor decisão considerando todos os riscos envolvidos? Sendo a resposta positiva, a indagação sucessiva: eles têm noção ou tomam decisões desconhecendo os riscos e incertezas? Embora a resposta pareça óbvia, não o é, porque necessitaria particularizar cada decisão, para efeito de mensuração e avaliar somente após a conclusão dos efeitos.
Os modelos de decisão, com as suas peculiaridades e características objetivam criar estruturas conceituais e aplicáveis ao processo decisório, essencial entre as atividades dos gestores. Riscos e incertezas afetam diretamente essas decisões.
Frank Knight (1972: p.249) fez a distinção entre riscos e incertezas:
A diferença prática, entre as duas categorias, risco e incerteza, é que na primeira a distribuição do resultado num grupo de casos é conhecida, seja através do cálculo a priori, ou estatísticas do aprendizado passado (experiência), na
incerteza isso não ocorre, em geral “devido ao fato de que é impossível formar um grupo de casos, porque a situação que se enfrenta é, em alto grau, singular. A diferença básica entre risco e incerteza é a presença ou não de uma distribuição de probabilidades sobre um evento. Dessa forma, incerteza é ocasionada por eventos em que a probabilidade dos resultados não é conhecida. Risco é a situação em que se pode estabelecer os possíveis resultados e suas respectivas probabilidades de ocorrência.
Risco como uma probabilidade, destinado a estabelecer as possibilidades de ocorrência de cada experimento aleatório, é um conceito bastante aceito para tomada de decisão, incorporado à teoria de finanças, risco e retorno receberam contribuições na tentativa de minimizá-lo, diversificar ou estabelecer mínimos e máximos de ganhos ou perdas de um ativo, como, por exemplo, Markowitz com a seleção de portfólios, Sharpe com a substituição da covariância no modelo de Markowitz pela regressão linear, Black e Scholes com o Capital Assets Price Model - CAPM e Jorion com o Value At Risk - V@R, mensurando a perda máxima de um investimento em uma temporalidade especificada.
Os eventos incertos impossibilitam estabelecer um espaço amostral (Ώ) limitando o uso da probabilidade. Para solucionar problemas com alto grau de imprecisão e incerteza tem- se a Lógica Fuzzy, cujos primeiros trabalhos sobre os “conceitos vagos” datam de 1920, publicados pelo lógico polonês Jan Lukasiewicz que introduziu graus de pertinência entre 0, ½ e 1 e posteriormente expandiu para um número infinito entre o intervalo de 0 e 1.
Lofti A. Zadeh, em 1965, então professor da Universidade da Califórnia, introduziu o conceito de Conjuntos Fuzzy para automatizar atividades de natureza industrial, que compreendessem problemas não solucionáveis pela lógica clássica ou aristotélica.
Os psicólogos israelenses Daniel Kahneman e Amos Tversky, pioneiros da ciência cognitiva, após entrevistarem um grupo significativo de pessoas, concluíram que a decisão sob risco decorre do contexto em que os indivíduos estão inseridos e verificaram que as pessoas não fazem escolhas como previsto na Teoria da Utilidade Esperada, desenvolvida por Bernoille. Neste contexto, o empresário maximiza a utilidade em vez do lucro e a utilidade esperada é razão da renda e do grau de risco. Em situação de risco as pessoas tendem a optar por soluções mais conservadoras. Esse estudo foi denominado de Teoria do Prospecto.
Nessa teoria os estudiosos segregam o sistema de pensamento. O sistema 1 é veloz, sem esforço, associativo, e com frequência, carregado de emoções, possui hábitos difíceis de lidar e controlar. O sistema 2 é racional, consciente, lento, capaz de ser controlado e seguir regras. Kahneman (2004: p.47) afirma que “a primeira coisa que sentimos é o medo, e a partir deste medo sentimos o risco. Portanto a visão do risco está se tornando menos cognitiva”, diverge de Simon quanto ao aprendizado para a melhoria nas tomadas de decisão porque crê que o sistema 1 não é muito educável, ao tomarem decisões as pessoas “nem sequer registram mentalmente o fato de tê-la tomado” (Kahneman; Tversky, 2004: p.48)
Ao estender essa propensão para evitar o risco para os gestores, sobretudo quando são agentes, conclui-se, empiricamente, que em decisões de risco o gestor optará pela alternativa mais segura, nem sempre a mais maximizadora, em detrimento dos acionistas e proprietários. Hendriksen & Breda (1999: p.139) advertem que quando os proprietários são avessos ao risco os administradores assumem-no por conta da remuneração.
Riscos e incertezas ocorrem em resposta às variáveis ambientais, embora os gestores tenham pouco, ou nenhum, controle sobre elas, não podem se eximir de seus efeitos porque são responsáveis por cumprir a missão e os objetivos organizacionais e garantir a continuidade. Afetam diretamente o processo de gestão, independentemente do modelo de gestão adotado (Beyond Budgeting ou Gestão Econômica), assim como a forma como se
lidará com os modelos de previsão ou planejamento, o Rolling Forecast no primeiro caso e o Orçamento Flexível no segundo.
O planejamento e a técnica de projeção de cenários, incorporada pela Gestão Econômica, são formas de antever a mudança ambiental e quais os reflexos das mudanças para a organização, como forma de redução de riscos.
Como forma de reduzir o risco, a Gestão Econômica incorpora o custo de oportunidade, ao selecionar a melhor alternativa, considera-se ou a alternativa de menor risco, ou o risco que o investidor está disposto a absorver em virtude do prêmio previsto.
O custo de oportunidade na Gestão Econômica tem diversas finalidades como esclarecem Pereira e Oliveira (2001: p.388):
Mensuração do resultado econômico e do custo de capital da empresa; seleção de alternativas de investimento; estudo de preços de venda; avaliação de desempenho das áreas e de resultados dos produtos/serviços gerados internamente.
A aplicação do preço de transferência a variáveis passíveis de decisão, conforme citação, possibilita ao gestor conhecer os riscos que a empresa está incorrendo e tomar medidas para evitá-los ou aproveitar as oportunidades por ele proporcionadas.