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Tomar as noites e retomar nossos corpos!

Nathália Eberhardt Ziolkowski1

Introdução

No ano de 2013, aos 25 anos da chamada Constituição Cidadã brasilei-ra, o país viveu uma série de manifestações populares de luta, denúncias e rei-vindicações que reconfiguram a compreensão da sociedade civil, do Estado e de governantes sobre os direitos conquistados e a materialização desses direitos no cotidiano. Brasileiros tomaram as ruas das cidades, com apoio de grupos regio-nais, nacionais e internacioregio-nais, para fazer frente às incoerências do não diálogo entre a sociedade civil e o sistema político institucionalizado numa ação proativa de ocupação das ruas.

O perfil das manifestações trouxe novidades ao cenário de luta nacional. Muitas frentes expressaram-se diante da imprecisão das relações sociais que envol-vem nossa sociedade e suas instituições, o Estado, os partidos políticos, a cultura de violência que se perpetua desde o espaço doméstico ao público, as concepções obsoletas e retrógradas no poder executivo e no legislativo, sobretudo. Não houve uma pauta definida, foi um tempo de reivindicações sociais.

A famosa expressão positivada que carrega a bandeira deste país – “Ordem e Progresso” – durante as manifestações, no ano de 2013, traduziu-se no lema “sem vandalismo”, adotado pelo Estado, Governos e mídia. Emblematicamente,

1 Cientista Social, formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Mestra em História das Mulheres pela Universidade Federal da Grande Dourados. Ativista feminista, integrante da Articulação de Mulheres Brasileiras no Mato Grosso do Sul. Integrante do Núcleo de Estudos de Gênero - UFMS (NEG-UFMS), do Grupo de pesquisa em Socieda-des e Culturas nas Fronteiras de Mato Grosso do Sul (UFGD) e ativista do Movimento de Estudos de Sexualidade, Liberdade e Ativismo de Mato Grosso do Sul (MESCLA).

tudo o que é ordem pressupõe o não direito de escolha. Além disso, o “progresso”, não por acaso, chegou pelas mãos dos que até hoje definem o próprio sentido da palavra progresso para esta Nação e que em nada tem ligação com o desenvolvi-mento social e garantia de direitos a todas as pessoas, conforme mostraram as ruas em movimento naquele ano.

O movimento “Passe Livre”, em 2013, impulsionou articulações temá-ticas a ganharem as ruas e se projetou de maneira sólida pelo imaginário social, ganhando um corpo mais amplo e difuso de expressão. Contraditoriamente, nas mesmas manifestações, participantes entoaram a expressão “sem vandalismos” cunhada pelo poder público e midiático, o que deslegitimava a ação do próprio manifesto, tendo como pano de fundo a ideia de garantia da ordem nacional, no momento em que o país demostrava seu desequilíbrio social.

Não muito diferente desse moralismo, o movimento feminista e de mu-lheres organizadas sofreu duras críticas e rechaços de uma sociedade ainda muito dogmática e repleta de contravenções ao adotar, em 2011, o discurso do opressor e definirem-se como vadias em marcha pelas ruas das cidades do mundo.2

“Tomar as noites e retomar nossos corpos” foi um título escolhido para uma reflexão da luta feminista e de mulheres organizadas que, há séculos, busca se renovar e alcançar conquistas que permitam, por exemplo, que nós mulheres sejamos valorizadas no que produzimos, pelos nossos textos, nossas políticas, nos-sas artes, nossos trabalhos e nosnos-sas escolhas.

No ano de 2010, uma imagem foi publicada em um blog feminista e nela mulheres nas ruas empunhavam a frase “Tomar as noites! Retomar nossos corpos!”.

2 A Marcha das Vadias é um evento político feminista, mas que tem também a adesão de outros movimentos de mulheres organizadas que não se declaram feministas, e também de homens, cujo surgimento ocorreu no ano de 2011 a partir de um fato emblemático que, mais uma vez, tentou arraigar os princípios sexistas e conservadores sobre o ser mu-lher no ocidente. Depois de vários casos de estupro ocorridos dentro de uma Universidade em Toronto, Canadá, naquele mesmo ano, o representante da segurança pública Michael Sanguinetti sugeriu em sua fala que as estudantes e demais mulheres não se vestissem ou se comportassem como vadias, para evitar os abusos que vinham sofrendo. O episódio levou à rua cerca de três mil pessoas revoltosas com o discurso que mais uma vez colocava a mulher como responsável pela violação de seus direitos e dignidade. Com vistas a rebater tal excen-tricidade ofensiva, a qual se perpetua por séculos nos discursos dominantes, tal qual algumas culturas orientais que cobrem e aprisionam os corpos das mulheres, sob a justificativa de não provocar a libido masculina, feministas pelo mundo aderiram ao ato, questionando o controle sobre os corpos femininos, suas sexualidades, comportamentos e autonomias.

Trata-se de um blog do Coletivo de Ação Feminista de Curitiba, grupo feminista autônomo e não partidário que publicou a imagem na ocasião em que colocava em pauta o dia 25 de novembro – Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher – uma data reconhecida inclusive pelos governos que aderiram, muitos, à agenda dos 16 dias de ativismo, criada por feministas de diferentes países, com o objetivo de organizar ações educativas e conscientizadoras sobre as formas de vio-lência sofridas pelas mulheres, com vistas a erradicá-las. A campanha dos 16 dias de ativismo encerrou-se no dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, uma data muito importante para os movimentos de mulheres, uma vez que a própria nomenclatura representa uma luta feminina e feminista de alcance dos direitos. Desde o século XVIII, quando foi criada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), ao século XX, quando é adotada e proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), a palavra Homem aparece como expressão universal para designar a pessoa humana.

No entanto, em todo esse período, mulheres galgavam seus espaços e al-cançavam conquistas importantes. Nos direitos humanos, a transferência das pa-lavras deu enfim o sentido de incorporação das mulheres como seres sociais e políticos, assim como os homens, na história da humanidade.

A ênfase nas palavras “Tomar as noites! Retomar nossos corpos!” nos traz ao menos dois aspectos relevantes da luta dos movimentos de mulheres. Primeira-mente, a referência às palavras de desordem, como são chamadas pelas feministas no Brasil, ou por alguns grupos feministas. As palavras de desordem são caracte-rística do objetivo que se tem de fugir do controle e disciplinarização estabeleci-dos pelas regras políticas e comportamentais. Não se entoam palavras de ordem com o objetivo de desestabilizar a ordem vigente, mas as palavras de desordem têm essa intenção. Os discursos trazem consigo poderes e saberes e é o sistema de educação, de acordo com Foucault (1996), que os mantém ou modifica para que sejam apropriados de acordo com a intenção.

Vivemos na tênue linha entre a discordância e tentativas de rompimento do que está estabelecido e arraigado e a ameaça de servirmos como reforços à or-dem vigente, como dizia o próprio Foucault (1999). No entanto, é observável que as estratégias de luta dos movimentos sociais venham ganhando uma dimensão cada vez mais contestatória que se fortalece não apenas no pensar, mas também no agir, ainda que as consequências trazidas pelas morais sociais e políticas sejam uma realidade que mais uma vez no Brasil vem acompanhada de atos de tortura e perseguição, como quando militares tomaram o poder, apoiados por alguns

grupos de civis. As intervenções nos espaços públicos fogem agora ao sistema de educação ao qual estamos determinados e viciados, inclusive para a construção dos movimentos sociais. O que é chamado hoje pelo Estado e pela mídia de van-dalismo, e incorporado pelo imaginário social, também é, para uma parcela dos que tomam as ruas, a indigesta reação somática à disciplinarização dos corpos, à fabricação dos discursos ordeiros e aos pressupostos implícitos e explícitos de manutenção dos bons e velhos costumes.

Nossa sociedade não é de espetáculos, mas de vigilância; sob a superfície das imagens, investem-se os corpos em profundidade; atrás da grande abs-tração da troca, se processa o treinamento minucioso e concreto das forças úteis; os circuitos da comunicação são os suportes de uma acumulação e centralização do saber; o jogo dos sinais define os pontos de apoio do poder; a totalidade do indivíduo não é amputada, reprimida, alterada por nossa ordem social, mas o indivíduo é cuidadosamente fabricado, segundo uma tática das forças e dos corpos. Somos bem menos gregos que pensa-mos. Não estamos nem nas arquibancadas nem no palco, mas na máquina panóptica, investidos por seus efeitos de poder que nós mesmos renova-mos, pois somos suas engrenagens. (FOUCAULT, 1999, p.240).

Assumimos, em nossas escolhas, o risco de fortalecer o sistema de regras que nos aprisionam, mas também encaramos o papel de transformação do que vem nos sufocando, ainda que as mudanças estejam vigentes para a lógica desse mesmo modelo. Por ora, se não se destrói o Estado disciplinarizador e repressor, tal como construído, se desobedece a regra, provocando a ignorância; e insere-se outra perspectiva em cena, para a democracia que não foi feita plena ainda.

Dessa forma, apropriar-se de palavras de desordem é um ato contestador que, de tão provocante, será ao menos publicizado e, assim, provocativo ao repú-dio ou à reflexão.

Outro aspecto importante a ser apreendido pela frase aqui colocada em evidência é que essa luta, a feminista, a dos movimentos de mulheres organizadas, não é recente e não deixou de estar em consonância com as realidades vivenciadas e questionadas por outros grupos sociais em ação. Trata-se do respeito à liberdade anunciada, o desprendimento das amarras que cerceiam os corpos em todas as instituições sociais, começando pela família, passando pela religião e desembo-cando no Estado. E, no que diz respeito às mulheres, trata-se da própria auto-nomia não rastreada pelos olhares e reações, simbólicas ou não, que infringem nossos direitos e honra.

Tendo aqui contextualizado minha compreensão sobre os panoramas atuais, mas históricos, que envolvem os movimentos sociais, os movimentos de mulheres e os estímulos que suas intervenções têm causado na sociedade, propo-nho-me a revisitar o corpo feminino pela perspectiva dos movimentos sociais de mulheres organizadas e feministas.

A contribuição dos feminismos para uma