É que o mundo de fora também tem o seu ‘dentro’, daí a pergunta, daí os equívocos. O mundo de fora também é íntimo. Quem o trata com cerimônia e não o mistura a si mesmo não o vive e é quem realmente o considera ‘estranho’ e ‘de fora’. A palavra ‘dicotomia’ é uma das mais secas do dicionário.
Clarice Lispector
Sabe-se que o olhar é indissociável da história da formação da subjetivida-de. No plano sociocultural, Norbert Elias sugere que a gênese da subjetividade pode ser traçada a partir de uma série de cuidados e controles do comporta-mento, da conduta, do decoro corporal externo, das práticas de limpeza, de saúde e de beleza que se constituem inicialmente numa estreita atenção ao olhar do outro (Cf. Elias, 1994 e Vigarello, 1996). Este cuidado com o que é imediatamente visível ao outro é um aspecto fundamental tanto na tessitura das relações sociais, das normas, regras de conduta e codificação dos costumes no processo civilizador, quanto na gênese da subjetividade, da interioridade e da intimidade (Cf. Elias, op. cit.). A hipótese histórica é a de que a atenção com o que é visto por outrem vai sendo progressivamente interiorizada, cons-tituindo todo um campo de cuidados consigo, de autocontrole, autorregra-mento e autovigilância que passa a reger a esfera íntima e privada. Conforme Elias, a propósito dos tratados e preceitos de conduta e civilidade:
Embora seja ainda bem visível nos escritos de Courtin e La Salle que os adultos, também, foram inicialmente dissuadidos de comer com os dedos por consideração para com o próximo, por ‘polidez’, para poupar a outros um espetáculo desagradável, e a si mesmos a vergonha de serem vistos com as mãos sujas,
mais tarde isso se torna cada vez mais um automatismo interior, a marca da sociedade no ser interno, o superego, que proíbe ao indivíduo comer de qualquer maneira que não com o garfo. O padrão social a que o indivíduo fora inicialmente obrigado a se conformar por restrição externa é finalmente reproduzido, mais suavemente ou menos, no seu íntimo através de um autocon-trole que opera mesmo contra seus desejos inconscientes (op. cit, p. 134-5).
Uma hipótese similar é proposta por Vigarello, que em suas análises so-bre a história da limpeza mostra “como são, em primeiro lugar, as superfícies visíveis do corpo e o olhar dos outros que oferecem seu código” (op. cit., p. 249). Numa história que tem seu início na Idade Média, o autor mostra que, neste primeiro momento, “ser limpo é cuidar de uma zona limitada da pele, a que emerge da roupa, a única que se oferece ao olhar” (Idem). Mais tarde, o sentido e as práticas de limpeza passam por um progressivo distanciamento do olhar do outro, constituindo uma maior intimidade do corpo e uma “inten-sificação gradual dos autorregramentos, ‘levando’ o asseio físico para além do visível, desenvolvimento de um trabalho de civilização, refinando e diferen-ciando até as sensações menos explícitas” (Idem, p. 250).
No âmbito da constituição psíquica, a psicanálise, especialmente Freud e Lacan, ressaltam a importância do olhar do outro na formação e unificação do corpo narcísico do bebê, consolidando um primeiro sentido de ‘eu’ (Cf. Freud, 1980). Lacan (1987) segue esta pista e elabora o conceito de estágio do espelho, segundo o qual o olhar do Outro Primordial origina o eu, conce-dendo-lhe uma imagem unificada e testemunhando a visibilidade que atesta a existência do sujeito2.
Uma última referência, que retornará adiante, concerne às análises de Foucault sobre a modernidade disciplinar. Em sua genealogia da alma moder-na, uma das definições do projeto de Vigiar e Punir (1983, p. 31), a subjetivi-dade é inseparável dos dispositivos de visibilisubjetivi-dade. As instituições disciplina-res, que encontram seu modelo ideal no panóptico, são máquinas de ver que produzem modos de ser. O poder disciplinar e a produção de individualidades e subjetividades que lhe corresponde não podem ser dissociados de um jogo de
2 Cabe ainda lembrar a relação entre existência e visibilidade na esfera política, proposta por H. Arendt (1958): o homem político só existe se se fizer visível ao outro no espaço público como sujeito da ação política.
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olhares e uma “arte obscura da luz e do visível” (Idem, p. 154), presentes nos seus diversos dispositivos, mais ou menos materiais.
Foucault destaca em sua análise um movimento que encontra continui-dade hoje: a incidência do foco de visibilicontinui-dade sobre o indivíduo comum. Este movimento se faz em contraste com as sociedades de soberania, que co-locavam em cena a visibilidade do poder monárquico, encenando sua força e seu brilho por meio de toda uma arte do ser visto. O fausto da arquitetura, o espetáculo dos rituais de celebração e de punição põem em obra um poder que se exerce ostentando a sua própria visibilidade. As sociedades disciplinares in-verterão esse foco, voltando-o não mais para os que exercem o poder, mas para aqueles sobre quem o poder é exercido. Para o indivíduo comum, mediano e, ainda mais, para o desviante e o anormal. É a propósito deste deslocamento a célebre passagem de Vigiar e Punir.
Nossa sociedade não é aquela do espetáculo, mas da vigilância (...). Não estamos nem nas arquibancadas nem no palco, mas na máquina panóptica, investidos por seus efeitos de poder que nós mesmos renovamos, pois somos suas engrenagens (Idem, p. 190).
Entretanto, se considerarmos a história moderna e contemporânea das tecnologias de percepção, visão e comunicação, notamos também a renova-ção de regimes de visibilidade atrelados ao espetáculo (Crary, 1994). Confor-me já apontamos no priConfor-meiro capítulo, o advento da comunicação de massa, particularmente da televisão, implicou a emergência de um novo dispositivo de poder e visibilidade onde muitos veem poucos – o sinóptico –, em con-traste com o modelo panóptico (Cf. Mathiesen, 1997; Bauman, 1999). O foco de visibilidade aí se deslocou mais uma vez, voltando a incidir sobre as elites e pequenos grupos. A este deslocamento, entretanto, soma-se um ou-tro, mais recente e objeto maior de nosso interesse, conforme já anunciado: aquele em que o foco privilegiado de visibilidade volta a ser o indivíduo e sua vida comum, agora não mais no âmbito da máquina disciplinar, mas sim das tecnologias comunicacionais. Os diversos formatos de reality shows prome-tiam pôr em cena, num aparato que mistura vigilância e espetáculo, o indi-víduo e sua vida banal. Na Internet, ampliaram-se ainda mais as tecnologias do ver e do ser visto, tornando os indivíduos ao mesmo tempo mais sujeitos à vigilância e relativamente mais autônomos na produção de sua própria
visi-bilidade, dado que neste caso a exposição de si não está sujeita à autorização e à intervenção de terceiros. Nas atuais plataformas da web 2.03, passamos da tentativa de ingresso na mídia para a possibilidade de o indivíduo ser sua própria mídia e criar, consequentemente, seu próprio público.
Contudo, se permanece presente esta íntima relação entre a produção de subjetividade e a exposição do indivíduo comum à visibilidade, ela tam-bém ganha novos contornos e envolve uma outra topologia da subjetividade, distinta daquela que voltava os cuidados, os saberes e a observação para uma interioridade cheia de sombras. O contraste entre essas duas topologias e seus respectivos regimes de visibilidade são os temas dos próximos três tópicos.