Capítulo V UMA TENTATIVA DE INTERPRETAR O MUNDO
5.3.3. O tornar-se cliente fixo
A terceira categoria foi formulada após notar que, tanto na bibliografia sobre a temática em investigada, como nos relatos das mulheres com quem conversei, na casa 06, aparecia a preocupação em fixar uma clientela. No jornal “Beijo da Rua” (2002), em matéria que aborda as características do bom programa, Carla – uma mulher que presta serviços sexuais em Niterói – diz:
“É fundamental saber conquistar, fazer com que o cliente volte a te procurar. Pra isso tem que ser simpática, saber conversar, trocar idéia e também saber se impor nas negociações antes mesmo de ir para dentro do quarto.” Carla
As mulheres com quem conversei disseram que os clientes são homens casados, solteiros, divorciados, velhos e novos e, com menor freqüência, algumas mulheres também constituem sua clientela. Segundo seus relatos, na prostituição, existe muita carência, tanto da parte delas, como das pessoas que compõem sua clientela. A fala de Flora expressa a carência referente a mulheres que prestam serviços sexuais, que embora se vejam cercadas de companhia, à noite, nas boates, por vezes, sentem-se solitárias em seu cotidiano:
“Porque as garotas, elas são carentes, querendo ou não elas são. Porque ela tem todos e, ao mesmo tempo, ela não tem nenhum. Ali ela tem quem ela quiser, e o cara paga pra ficar com ela, mas durante o dia-a-dia dela, ela não tem nenhum. Tem tanto à noite, e agora? Quer conversar com alguém e não tem ninguém.” Flora
De acordo com Fábia, o cliente e a prostituta gostam de receber atenção e gostam de relacionar-se com pessoas que não ignoram seu jeito pessoal. Ela afirma:
“Independente de quem está comigo eu brinco, eu dedico tempo. Entendeu? É onde se cria aquele elo de amizade. Por que uma pessoa que ignora você, ignora seu jeito, suas brincadeiras, seu jeito de ser [...] pode ter certeza que essa pessoa não te chega perto.” Fábia
Em reportagem cedida ao jornal Beijo da Rua, tanto clientes como mulheres trabalhadoras do sexo apontaram, como característica da boa profissional do sexo, o ato de não ignorar o cliente e sua conversa. Reafirmando, mais uma vez, que a função da prostituta não se limita à execução de práticas sexuais e que a demanda apresentada pela clientela é mais vasta do que se imagina.
Ao ser indagada sobre as características da clientela, Fran revela que o bom cliente é aquele que tem educação e respeita a mulher que presta serviços sexuais, além de ser limpo e estar disposto a gastar com ela. Quando indagada se essa última característica, por si só, daria conta de definir o bom cliente, Fran respondeu:
“Não. Ele pode estar disposto a gastar, mas pode não ser uma pessoa educada, te tratar sem educação e respeito. Tem cliente que acha que só porque está pagando, tem o direito de fazer o que quiser e bem entender.” Fran
O cliente fixo diferencia-se das demais pessoas que compõem a clientela por evitar a fugacidade das relações e não buscar apenas sexo, mas também um vínculo afetivo. É o que aponta os relatos abaixo:
“Por que muitos dão aquele ar que só querem você por um momento e tem aquele que quer ser seu amigo pra sempre. Essa é a diferença entendeu? Um te usou por uma noite, se deixar... passou meia hora para ele descansar, ele pega outra. No meu caso, com o Ricardo* é diferente... Falei até o nome dele. È diferente! Ele saiu comigo uma vez e depois outras vezes, e falou que me adorava porque eu dedicava tempo pra ele.” Fábia
“Não é só isso que as pessoas pensam. Não é só essa coisa de transa, não! Tem outras coisas, rola amizade” Fádia
O cliente fixo resguarda a relação, ele se torna amigo, se preocupa com a mulher que presta serviços sexuais e a ajuda como pode, seja financeiramente, quando ela precisa de alguma quantia emprestada, seja emocionalmente, em momentos que ela precisa desabafar.
“Tem cliente que vira amigo. Entendeu?! Tem hora que você fala “Ah! Estou precisando de tal coisa!”. Ele vem e te ajuda. Vira uma amizade.” Flora
“Eu tenho um cliente que é um grande amigo meu, ele mora em São Paulo, ele faz entrega aqui, em São Carlos. Eu tenho um amor muito grande por ele e ele me trata de menina, ele me chama de menina. E olha... o que eu posso falar é que ele tenta me ajudar da maneira que ele pode [...].” Fábia
Com o cliente que vira amigo é possível viajar, sair para passear e conhecer novos lugares, como a maioria dessas mulheres é migrante, a apresentação da cidade e dos
*Fábia referindo-se a seu cliente-fixo. O nome empregado é fictício a fim de preservar a identidade do cliente.
serviços de correio, banco, pontos de táxi, sistemas de saúde e outros, geralmente, é feita por meio de clientes ou de outras colegas de ocupação.
Fábia diz que os clientes procuram as profissionais do sexo porque sabem que, mesmo pagando, terão uma satisfação pessoal. Para ela, nem sempre as esposas querem conversar ou estão dispostas a entender os problemas do marido, por esse motivo, os homens deixam seus lares do jeito que estão, com seus conflitos, e vão buscar o carinho das mulheres que prestam serviços sexuais:
“ [...] tem mulheres que não deixam o homem tocar e que não aceitam conversa, que não sabem conversar, apenas discutir. Entende? Então ele deixa a casa dele do jeito que está, porque sabe que, mesmo pagando, ele vai ter uma satisfação pessoal e não é só no sentido sexual” Fábia
Ainda de acordo com sua opinião, quando a vida conjugal torna-se repetitiva e o homem não sabe como contornar o tédio, ele tende a buscar novidades nas relações extraconjugais:
“Muitas vezes eles compram carinho da profissional do sexo. Eles buscam mais por isso, pois como eu mencionei chega uma fase do casamento que vira um tédio. Né?! As coisas são repetitivas, é quando eles não sabem contornar...” Fábia
Não são raros os envolvimentos afetivos entre prostituta e cliente. Fiona era a funcionária que realizava serviços de limpeza, na casa 06, além disso ela prestava serviços sexuais até o início de 2006. Depois casou-se com um cliente fixo, parou de exercer o trabalho sexual e continua a fazer limpezas esporádicas na casa 06. Conversei com ela antes de seu casamento:
“Eu vou me casar com um cliente. É um cliente antigo, faz tempo que ele quer casar comigo, acho que vou aceitar. Vou parar de trabalhar à noite, vou ficar só fazendo a limpeza durante o dia.” Flora
Também acontece do cliente tornar-se namorado, é o que revela Flora ao dizer que já se apaixonou por um cliente. Segundo Flora, quando isso ocorre, muitas vezes ela deixa de cobrar o valor do programa, além de encontrar dificuldades para concentrar-se em seu trabalho:
“Ah! É ruim... Porque se ele chega, eu não consigo trabalhar mais. Eu fico prestando atenção nele, para ver se ele está olhando para outra garota, não consigo mais trabalhar.” Flora
Flora lança mão da seguinte estratégia para minimizar sua falta de concentração no trabalho, pede para o namorado aparecer na casa noturna, apenas uma vez na semana ou à tarde:
“Uma vez por semana, para não atrapalhar (risos). De preferência na segunda-feira ou no final do mês, pois não tem movimento e eu posso dar mais atenção para ele. E a gente se encontra à tarde também.” Flora
Os relatos das trabalhadoras do sexo de São Carlos apontam que alguns clientes buscam seus serviços com intuito de compreender as mulheres. Elas também disseram que aprendem com o cliente, a não ignorar o homem, seu jeito de ser e seus desejos. Em estudos realizados por Mane e Aggleton (1999), nos países México, Costa Rica, Senegal e Indonésia, foi possível observar que o nível de comunicação verbal acerca do contexto e da natureza do sexo era maior entre prostituta e cliente, que entre mulheres e seus maridos ou parceiros fixos. Nas suas relações, mulheres que prestam serviços sexuais e clientes buscam conhecer um ao outro, sem ignorar suas diferenças e, juntos, podem quebrar as barreiras da comunicação verbal que legitima e perpetua a sexualidade como mito e tabu.
Após análise dos relatos coletados, percebi quem, realmente, há essa busca em conhecer o outro com quem se relaciona. Flora revela que procura entrar no estilo do cliente:
“Tem que sempre entrar no estilo dele, que ai ele vai se soltar, você vai descobrindo mais, vai arrancando bebida, é ai que ele se identifica com você e acaba fazendo o programa.” Flora
A questão da identificação entre mulheres que prestam serviços sexuais e clientes também foi destacada por Fátima e Fran, quando questionadas se era possível obter prazer na relação com o cliente. Elas responderam que isso é difícil, mas pode acontecer. Seus relatos mostram a possibilidade em sentir prazer com o cliente, desde que haja identificação e conversa entre ambos:
“Ah! Quando você encontra uma pessoa que é legal com você, você se identifica. Entendeu?! Você tá fazendo o programa com o cara e ele é legal, acaba até rolando.” Fátima
“Quando ele chega em você e conversa, não é igual àqueles caras que chegam enfiando a mão na gente. Aquele que tem uma conversa sadia” Fran
Fábia também confirma essa opinião e revela que, por ser uma mulher sem compromissos afetivos, nada a impede de sentir prazer com clientes:
“Eu já falei até para os meus clientes, porque eles perguntaram “Você não goza?” “você não sente prazer?”. É, eu não tenho namorado, eu não tenho ficante, eu não tenho marido. Entendeu? Fala pra mim, o que é que me impede de tirar uma casquinha de vez em quando? (risos)” Fábia