• Nenhum resultado encontrado

Toros complexos tˆem o formato de c ´ubicas projetivas planas!

2.5 Curvas el´ıpticas como curvas projetivas planas

2.5.2 Toros complexos tˆem o formato de c ´ubicas projetivas planas!

Chega de geometria projetiva, afinal este ´e um mini-curso de curvas el´ıpticas! Mas agora temos os conceitos necess´arios para poder interpretar um toro complexo C/Λ como uma curva projetiva complexa, ou seja, como o conjunto de zeros de um po- lin ˆomio homogˆeneo f(X, Y, Z) ∈C[X, Y, Z]em P2

C.

Para isto, observe inicialmente que a equac¸˜ao diferencial da func¸˜ao℘(z),

(℘0(z))2=4(℘(z))3−g2℘(z) −g3

mostra que, para todo z 6≡ 0 (mod Λ), o par (℘(z),℘0(z)) ´e um ponto da curva afim de equac¸˜ao

y2 =4x3−g2x−g3

Para “acomodar” o caso z ≡ 0 (mod Λ), ´e necess´ario “compactificar” a curva acima acrescentando um “ponto no infinito”. A curva correspondente no plano projetivo ´e obtida “homogeneizando-se” o polin ˆomio acima; defina o polin ˆomio homogˆeneo de grau 3

f(X, Y, Z) =Y2Z−4X3+g2XZ2+g3Z3

A curva correspondente

E= {(x : y : z) ∈P2C | f(x, y, z) = 0}

´e tal que sua restric¸˜ao `a carta U2 = {(x : y : z) ∈P2C | z6=0} ´e justamente a curva afim acima. Note que E possui um ´unico “ponto no infinito” com relac¸˜ao a esta carta. De fato, a intersecc¸˜ao de E com a “reta no infinito” Z=0 ´e o conjunto de pontos(x : y : 0)

satisfazendo f(x, y, z) = 0 ⇔ −4x3 = 0 ⇔ x = 0, ou seja, consiste em apenas um ponto(0 : y : 0) = (0 : 1 : 0).

Assim, ´e natural definir um mapa

ι: C/Λ→ E

do toro complexo C/Λ `a curva projetiva plana E sobre C, dado por

ι(z modΛ) =

(

Odef= (0 : 1 : 0) se z ≡0 (mod Λ) (℘(z): ℘0(z) : 1) se z 6≡0 (modΛ)

Este mapa ´e cont´ınuo no seguinte sentido: como℘(z)e℘0(z)possuem polos em z =0 de ordem 2 e 3, respectivamente, com limz→0z3℘0(z) = −2, temos que quando z→0

(℘(z) :℘0(z) : 1) = (z3℘(z) : z3℘0(z) : z3)

→ (0 :−2 : 0) = (0 : 1 : 0) =O

Agora vamos mostrar que ι ´e uma bijec¸˜ao, o que fornece uma maneira de enxergar o toro complexo C/Λ como uma curva projetiva E.

Teorema 2.17 (Toros complexos como curvas projetivas planas) Na nota¸c˜ao acima, ι ´e uma bije¸c˜ao.

DEMONSTRAC¸ ˜AO:

• ι ´e injetiva: devemos provar que

ι(z1modΛ) = ι(z2modΛ) ⇒ z1 ≡z2 (mod Λ)

´E claro, a partir da definic¸˜ao de ι, que

ι(z modΛ) =O=ι(0 modΛ) ⇔ z≡0 (mod Λ)

Assim, podemos supor que z1, z2 6≡ 0 (modΛ)acima. Devemos ent˜ao mostrar

que



℘(z1) = ℘(z2)

℘0(z1) = ℘0(z2) ⇒z1 ≡z2 (mod Λ)

Em outras palavras, devemos mostrar que z2modΛ ´e a ´unica soluc¸˜ao do sistema

na vari´avel z



℘(z) − ℘(z2) =0

℘0(z) − ℘0(z2) =0

Mas j´a sabemos, pela demonstrac¸˜ao do teorema 2.16 que a func¸˜ao℘(z) − ℘(z2)

possui exatamente dois zeros em C/Λ, contados com multiplicidade. Temos 2 casos: se 2z2 ≡ 0 (mod Λ), z2 modΛ ´e um zero com multiplicidade 2 e neste

caso ´e a ´unica soluc¸˜ao do sistema acima; por outro lado se 2z2 6≡ 0 (mod Λ),

temos 2 soluc¸ ˜oes distintas z ≡ ±z2 (mod Λ) para ℘(z) = ℘(z2). Mas z ≡ −z2

(modΛ) n˜ao satisfaz a segunda equac¸˜ao do sistema, pois ℘0(−z2) − ℘0(z2) =

−2℘0(z2) 6= 0 pois 2z2 6≡ 0 (mod Λ) (ver teorema 2.15). Assim, tamb´em neste

2.5. CURVAS EL´IPTICAS COMO CURVAS PROJETIVAS PLANAS 49 • ι ´e sobrejetora: Como O ∈ E, ´e suficiente mostrar que um ponto(x : y : 1) ∈ E est´a

na imagem de ι, ou seja, que o sistema na vari´avel z 

℘(z) −x =0

℘0(z) −y=0

possui soluc¸˜ao. Mas a func¸˜ao℘(z) −x tem exatamente 2 zeros em C/Λ (contados com multiplicidade), pois possui exatamente um polo duplo na origem (ver teo- rema 2.12). Sendo℘uma func¸˜ao par, estes zeros s˜ao da forma z ≡ ±a (mod Λ)

para algum a ∈ C (se 2a ≡ 0 (mod Λ), temos que z ≡ a (mod Λ) ´e um zero duplo pois ℘0(a) = 0 neste caso). Da equac¸˜ao diferencial de ℘ e do fato de que

(x : y : 1) ∈E, temos

(℘0(±a))2 =4(℘(±a))3−g2℘(±a) −g3

=4x3−g2x−g3

=y2

Portanto℘0(±a) ∈ {±y}e assim um dos dois valores±a modΛ ser´a soluc¸˜ao do sistema acima. Isto conclui a prova da sobrejetividade e, com isto, a do teorema.

Nosso pr ´oximo passo ser´a mostrar como a lei de grupo em C/Λ se transfere para E: afinal se podemos somar pontos em C/Λ, pela bijec¸˜ao acima tamb´em podemos somar pontos de E! Desta forma, teremos uma descric¸˜ao puramente geom´etrica para a lei de grupo em E, o que ser´a muito importante para definirmos curvas el´ıpticas sobre corpos arbitr´arios e n˜ao somente C.

Antes disto, precisaremos dar uma descric¸˜ao dos pontos de intersecc¸˜ao de E com retas em P2C. Uma reta no plano projetivo P2C nada mais ´e do que o conjunto de zeros de um polin ˆomio homogˆeneo linear`(X, Y, Z) = aX+bY+cZ n˜ao nulo. As restric¸ ˜oes desta “reta projetiva” `a cada carta X 6= 0, Y 6= 0 e Z 6= 0 ´e uma reta afim usual do C2 (surpreso?).

O resultado de que precisamos, um caso particular do teorema de B´ezout, ´e que uma reta em P2Csempre intercepta E em 3 pontos, n˜ao necessariamente distintos; com isto, queremos dizer que pontos de intersecc¸˜ao devem ser contados com a devida “multiplicidade”. Por exemplo, pontos de tangˆencia possuem multiplicidade pelo me- nos 2. Em nossa situac¸˜ao particular, temos que analisar 3 casos: seja aX+bY+cZ=0 a equac¸˜ao de uma reta.

(i) b 6= 0, de modo que a reta n˜ao passa por O = (0 : 1 : 0). Neste caso, as intersecc¸ ˜oes da reta com E est˜ao todas contidas na carta Z 6= 0 e correspondem `as soluc¸ ˜oes do sistema de equac¸ ˜oes

   y2 =4x3−g2x−g3 y= −a bx− c b

Note que como a equac¸˜ao polinomial de terceiro grau  −a bx− c b 2 =4x3−g2x−g3

possui exatamente 3 ra´ızes em C, contadas com multiplicidade, temos exatamente 3 pontos de intersecc¸˜ao, se definirmos a multiplicidade do ponto como a multipli- cidade da raiz correspondente! Geometricamente, um ponto de intersecc¸˜ao com multiplicidade pelo menos 2 ´e um ponto de tangˆencia.

(ii) b = 0 e a 6= 0, de modo que a reta passa por O = (0 : 1 : 0). Trabalhando na carta Y 6=0, que cont´em O, temos que O corresponde `a soluc¸˜ao(x, z) = (0, 0)do sistema    z=4x3−g2xz2−g3z3 x = −c az Mas como z =0 ´e uma raiz simples de

z=4−c az 3 −g2  −c az  z2−g3z3

o ponto de intersecc¸˜ao O deve ser contado com multiplicidade 1. Geometrica- mente, isto significa que a reta corta “transversalmente” a curva em O. Na carta Z 6= 0, temos que esta reta ´e a reta “vertical” x = −c

a, que encontra a curva E em dois pontos sim´etricos com relac¸˜ao ao eixo “horizontal”, correspondentes `as soluc¸ ˜oes do sistema

   y2=4x3−g2x−g3 x= −c a ⇔      y2 =4−c a 3 −g2  −c a  −g3 x = −c a

Note que as retas verticais definem a direc¸˜ao do vetor(0, 1), logo s˜ao justamente as que passam pelo ponto O = (0 : 1 : 0)na “reta do infinito” Z =0.

(iii) Finalmente, o ´ultimo caso ´e a =b=0 e c6= 0, ou seja, a reta de equac¸˜ao Z=0. Ela ´e a “reta do infinito” para a carta Z6= 0, carta esta que cont´em todos os pontos de E com excec¸˜ao de O. Assim, temos apenas 1 ponto de intersecc¸˜ao, correspondente `a soluc¸˜ao do sistema



z =4x3−g2xz2−g3z3

z =0

Como a equac¸˜ao polinomial 4x3 = 0 tem uma raiz tripla x = 0, devemos contar O com multiplicidade 3. Geometricamente, isto significa que O ´e um ponto de inflex˜ao de E.

Talvez devˆessemos explicar melhor o que queremos dizer com uma reta tangente a E em um ponto(a : b : c) ∈ E. Antes, um pequeno

Lema 2.18 Seja

f(X, Y, Z) =Y2Z−4X3+g2XZ2+g3Z3

2.5. CURVAS EL´IPTICAS COMO CURVAS PROJETIVAS PLANAS 51 (a) O discriminante

∆def=44(e1−e2)2(e2−e3)2(e1−e3)2 =16(g32−27g23)

do polinˆomio

p(x) = 4x3−g2x−g3=4(x−e1)(x−e2)(x−e3)

´e n˜ao nulo. Logo as ra´ızes de p(x)s˜ao todas simples.

(b) E ´e uma curva projetiva lisa, sem singularidades. Em outras palavras, o gradiente

∇f(a, b, c) =  ∂ f ∂X(a, b, c), ∂ f ∂Y(a, b, c), ∂ f ∂Z(a, b, c)  6= (0, 0, 0)

para todo ponto(a : b : c) ∈ E.

DEMONSTRAC¸ ˜AO: Lembre que o discriminante ´e definido como ∆ =44(e1−e2)2(e2−e3)2(e1−e3)2

uma express˜ao sim´etrica em relac¸˜ao `as ra´ızes e1, e2, e3 de p(x), logo pelo teorema das

func¸ ˜oes sim´etricas (ver [Lan02], IV.§6, p.190)∆ pode ser escrito em termos das fun¸c˜oes sim´etricas elementares em e1, e2, e3:

e1+e2+e3 =0

e1e2+e2e3+e1e3 = −g42

e1e2e3 = g43

Com um pouco de paciˆencia, vocˆe pode verificar que∆ = 44(e1−e2)2(e2−e3)2(e1−

e3)2 ´e, de fato, igual a 16(g32−27g32), o que deixamos como exerc´ıcio para o leitor, vocˆe

´e claro!

Assim,∆ = 0 ´e equivalente ao polin ˆomio p(x) possuir ra´ızes m ´ultiplas. Mas pelo teorema 2.15, sabemos que

e1= ℘ ω1 2  , e2 = ℘ ω2 2  , e3 = ℘  ω1+ω2 2  ,

que s˜ao dois a dois distintos, pois pela demonstrac¸˜ao do teorema 2.16, j´a sabemos que

ω1

2 ´e a ´unica raiz m ´oduloΛ de℘(z) − ℘ ω1

2 

(com multiplicidade 2) e analogamente para ω2

2 e

ω1+ω2

2 . Isto prova (a).

Para mostrar (b), note inicialmente que∇f ´e um polin ˆomio homogˆeneo de grau 2, logo a condic¸˜ao∇f(a, b, c) = 0 ´e independente do representante do ponto(a : b : c)de E. Por outro lado,∇f(a, b, c) = 0 ´e equivalente a

   −12a2+g2c2 = 0 2bc = 0 b2+2g2ac+3g3c2 = 0

Da segunda equac¸˜ao, temos dois casos: c = 0, mas neste caso a = 0 pela primeira equac¸˜ao e b = 0 pela terceira, o que ´e imposs´ıvel; ou c 6= 0 e b = 0 logo o sistema se reduz a ( −12a2+g2c2 = 0 2g2a+3g3c = 0 ⇔      a c 2 = g2 12 2g2 a c  +3g3 = 0 ⇒g23−27g23=0

Mas por (a), sabemos que∆ =16(g32−27g23) 6=0, o que termina a prova de (b). Agora, observe que, na notac¸˜ao do lema,

f(ta, tb, tc) = t3f(a, b, c) =0 d dt ⇒a· ∂ f ∂X(ta, tb, tc) +b· ∂ f ∂Y(ta, tb, tc) +c· ∂ f ∂Z(ta, tb, tc) =0 t=1 ⇒a· ∂ f ∂X(a, b, c) +b· ∂ f ∂Y(a, b, c) +c· ∂ f ∂Z(a, b, c) =0,

a chamada identidade de Euler. Assim,

`(X, Y, Z)def= (X−a) · ∂ f ∂X(a, b, c) + (Y−b) · ∂ f ∂Y(a, b, c) + (Z−c) · ∂ f ∂Z(a, b, c) =X· ∂ f ∂X(a, b, c) +Y· ∂ f ∂Y(a, b, c) +Z· ∂ f ∂Z(a, b, c)

´e um polin ˆomio linear homogˆeneo n˜ao nulo, que define a reta tangente a E no ponto P = (a : b : c). Note que se escolhermos um outro representante (λa : λb : λc), λ 6= 0, para o ponto P, a equac¸˜ao acima ´e multiplicada por λ2e portanto ainda define

a mesma reta. Esta ´e a “projetivizac¸˜ao” da reta tangente usual, ou seja, para uma carta U contendo o ponto P, obtemos a reta tangente usual. Por exemplo, se c 6= 0, na carta Z6=0, temos que o coeficiente angular da reta tangente `a curva da equac¸˜ao f(x, y, 1) =

0 no ponto a c,

b c, 1



pode ser calculada derivando esta equac¸˜ao com relac¸˜ao a x; por simplicidade, vamos assumir que ∂ f

∂Y  a c, b c, 1 

6=0 (ou seja, a reta n˜ao ´e “vertical”):

∂ f ∂X  a c, b c, 1  +∂y ∂x (x,y)=(ac,bc) · ∂ f ∂Y  a c, b c, 1  =0 ⇒∂y ∂x (x,y)=(ac,bc) = − ∂ f ∂X  a c, b c, 1  ∂ f ∂Y  a c, b c, 1  = − ∂ f ∂X(a, b, c) ∂ f ∂Y(a, b, c)

2.5. CURVAS EL´IPTICAS COMO CURVAS PROJETIVAS PLANAS 53 da reta tangente ´e

y−b c = − ∂ f ∂X(a, b, c) ∂ f ∂Y(a, b, c) ·x− a c  ⇔x· ∂ f ∂X(a, b, c) +y· ∂ f ∂Y(a, b, c) − a c · ∂ f ∂X(a, b, c) − b c · ∂ f ∂Y(a, b, c) =0

Mas, pela identidade de Euler acima, a· ∂ f ∂X(a, b, c) +b· ∂ f ∂Y(a, b, c) +c· ∂ f ∂Z(a, b, c) =0 ⇒ − a c · ∂ f ∂X(a, b, c) − b c · ∂ f ∂Y(a, b, c) = ∂ f ∂Z(a, b, c)

e assim temos que a equac¸˜ao da reta tangente ´e x· ∂ f ∂X(a, b, c) +y· ∂ f ∂Y(a, b, c) + ∂ f ∂Z(a, b, c) = 0,

que ´e justamente a equac¸˜ao da reta`(X, Y, Z) =0 ⇔ ` X

Z, Y Z, 1  =0 na carta Z 6= 0, fazendo-se x= X Z e y = Y Z.

Agora, voltemos `a nossa tarefa original (qual era ela mesmo?): descrever a lei de grupo do toro C/Λ em termos puramente geom´etricos na curva E. Em uma s´o frase, podemos resumir o resultado da seguinte maneira:

P1+P2+P3 =O em E ⇐⇒ P1, P2, P3s˜ao colineares

Vejamos mais precisamente o que isto quer dizer.

Teorema 2.19 (Lei da Corda-Tangente) Seja ι: C/Λ →∼ E a bije¸c˜ao entre o toro complexo e a curva projetiva E, como no teorema 2.17. Sejam P1e P2dois pontos de E e seja P3o terceiro

ponto de intersec¸c˜ao de E com a reta que liga P1 e P2 (ou a reta tangente, caso P1 = P2). Se

zjmodΛ ´e o ponto de C/Λ correspondente a Pj, i.e.,

Pj =ι(zj modΛ) (j=1, 2, 3)

ent˜ao

z1+z2+z3 ≡0 (mod Λ)

DEMONSTRAC¸ ˜AO: Temos alguns casos a analisar. Note que P1e P2tˆem papel sim´etri-

co no enunciado do teorema.

• P1 = P2 = O def= (0 : 1 : 0). Neste caso, temos que Z = 0 ´e a reta tangente a

P1= P2e, como vimos acima, temos P3 =O tamb´em (O ´e um ponto de inflex˜ao).

• P1 =O e P2 6=O. Neste caso, P2pertence `a carta Z 6=0 e a reta que liga P1 =O a

P2´e a reta vertical passando por P2. Como a curva de equac¸˜ao y2 =4x3−g2x−g3

´e sim´etrica com relac¸˜ao ao eixo x, temos que o terceiro ponto de intersecc¸˜ao ´e o sim´etrico de P2com relac¸˜ao ao eixo x (como mostra o esboc¸o da parte real de E a

seguir).

Assim, temos

P2 = (℘(z2),℘0(z2)) e P3 = (℘(z2),−℘0(z2)) = (℘(−z2),℘0(−z2))

ou seja, temos z3 ≡ −z2 (mod Λ) (lembre-se de que ι ´e uma bijec¸˜ao!). Assim,

como z1 ≡0 (mod Λ), temos novamente z1+z2+z3 ≡0 (mod Λ).

• P1 6=O e P26=O. Se z1 ≡ −z2 (mod Λ), ent˜ao P1e P2s˜ao sim´etricos com relac¸˜ao

ao eixo x, logo a reta que os une ´e a reta vertical passando por eles, que encontra a curva el´ıptica E em P3 =O. Assim z3≡0 (mod Λ)e novamente z1+z2+z3 ≡0

(modΛ).

Agora, suponha que z1 6≡z2 (modΛ). Trabalhando na carta Z 6=0, temos que a

reta por P1 e P2 n˜ao ´e vertical e assim possui equac¸˜ao da forma y = mx+b para

algum m, b ∈ C. Note que um ponto (x, y) ∈ C2 pertence a E se, e s ´o se, est´a na imagem de ι, i.e., ´e da forma (x, y) = (℘(z),℘0(z)). Assim, as intersecc¸ ˜oes de E com a reta acima s˜ao exatamente as imagens por ι das ra´ızes de

℘0(z) =m℘(z) +b (∗)

Portanto z1, z2, z3modΛ s˜ao ra´ızes de(∗), correspondendo aos pontos de inter-

secc¸˜ao P1, P2, P3, respectivamente. Como ℘0(z) −m℘(z) −b possui exatamente

um polo triplo na origem z ≡ 0 (mod Λ), pelo teorema 2.12, a equac¸˜ao(∗)pos- sui exatamente 3 ra´ızes, contadas com multiplicidade. Uma vez que verificarmos que ra´ızes m ´ultiplas correspondem a pontos m ´ultiplos de mesma multiplicidade, teremos que z1, z2, z3 modΛ ´e a lista completa das ra´ızes de(∗), contadas mul-

tiplicidades. E novamente pelo teorema 2.12, concluiremos que z1+z2+z3 ≡0

2.5. CURVAS EL´IPTICAS COMO CURVAS PROJETIVAS PLANAS 55 O caso em que(∗)tem uma raiz de multiplicidade 3 ´e trivial, pois neste caso s ´o h´a um ponto de intersecc¸˜ao. Suponha ent˜ao que(∗)tenha exatamente uma raiz dupla z0e uma simples ˜z0, de modo que h´a apenas dois pontos de intersecc¸˜ao “fi-

sicamente,” a saber(℘(z0),℘0(z0))e (℘(˜z0),℘0(˜z0)). Queremos somente decidir

qual destes pontos ´e o ponto de intersecc¸˜ao com multiplicidade 2, que natural- mente deve ser(℘(z0),℘0(z0)).

Por nossa definic¸˜ao de multiplicidade de ponto, temos que mostrar que x = ℘(z0) ´e uma raiz dupla da equac¸˜ao

(mx+b)2=4x3−g2x−g3

ou seja, queremos mostrar que ℘(z0) ´e tamb´em raiz da derivada do polin ˆomio

acima:

2m(m℘(z0) +b) −12(℘(z0))2+g2=0

Derivando a equac¸˜ao diferencial de℘(z), obtemos

2℘0(z) · ℘00(z) =12(℘(z))2· ℘0(z) −g2℘0(z)

⇔2℘00(z) = 12(℘(z))2−g2

Note que ´e poss´ıvel cancelar o fator℘0(z)pois K(C/Λ) ´e um corpo. Como z0 ´e raiz dupla de(∗), temos



℘0(z0) −m℘(z0) −b =0

℘00(z0) −m℘0(z0) = 0

Assim, substituindo temos

2m(m℘(z0) +b) −12(℘(z0))2+g2=2m℘0(z0) −12(℘(z0))2+g2

=2℘00(z0) −12(℘(z0))2+g2

=0 como quer´ıamos.

Agora temos a nossa deseja descric¸˜ao geom´etrica da lei de grupo em E: definimos uma estrutura de grupo abeliano em E via a bijec¸˜ao ι : C/Λ →∼ E, de modo que

P+Qdef= ι(ι−1(P) +ι−1(Q))

para todo P, Q∈ E. Assim temos que

O def= (0 : 1 : 0) = ι(0 modΛ)

´e o elemento neutro deste grupo. E como

ι(−z modΛ) = (℘(−z): ℘0(−z): 1) = (℘(z) : −℘0(z) : 1)

para z6≡0 (mod Λ), temos que, dado P∈ E, o seu oposto−P∈ E ´e o ponto sim´etrico com relac¸˜ao ao eixo x:

Pelo teorema, temos que se P, Q, R s˜ao colineares, ent˜ao P+Q+R = O. Assim, P+Q= −R pode ser descrito como na introduc¸˜ao: considere a reta que liga P a Q (ou a reta tangente se P = Q); esta reta intercepta E no ponto R = −P−Q; tomando seu sim´etrico com relac¸˜ao ao eixo x obtemos o seu oposto, i.e., P+Q:

Esta descric¸˜ao geom´etrica possui a vantagem de funcionar sobre qualquer corpo e n˜ao apenas C, como veremos no cap´ıtulo a seguir. Precisaremos ainda de mais uma descric¸˜ao da lei de grupo, que ser´a o tema da pr ´oxima sec¸˜ao.

Documentos relacionados