• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO I – Uma crítica à forma de definição da responsabilidade civil ambiental no Brasil

CAPÍTULO 2 – Da responsabilização por danos ambientais nos Estados Unidos

2.1. Teorias da responsabilidade nos EUA por danos ambientais, breve panorama

2.1.3. Tort law X Environmental law, em que casos aplicar?

Existem, no direito norte-americano dois mecanismos aptos a impor a responsabilização por danos ambientais. Primeiramente por meio da tort law, se trata de uma corrente mais antiga com registros da sua teorização ainda no século XVIII, esta já foi aplicada para resolver casos de responsabilidade por desastres ambientais anteriormente.

Esta utilização, entretanto, era mais comum antes da promulgação da legislação federal sobre matéria ambiental. Hoje, entende-se que a tort law não é o melhor mecanismo para abordar desastres ambientais, mas pode ser aplicada a casos em que há “liberação de substâncias perigosas no meio ambiente por partes identificáveis que causam danos diretos aos seres humanos ou danos à propriedade.”52 (LATHAM; SCHWARTZ; APPEL, 2011,

50 “[...] The reality has been that ever larger accidents always challenged the then existing regime.” (WANG;

FAURE, 2010).

51 “On 24 March 1989, shortly after midnight, the single-hulled bulk oil carrier T/V Exxon Valdez ran aground on Bligh Reef in the eastern part of Prince William Sound, Alaska (PWS 61◦020 N, 146◦050 W), spilling approximately 36,000 metric tons (10.8 million gallons) of North Slope crude oil onto a topographically varied, biologically rich, and poorly known, high latitude marine ecosystem The spill, the largest to date in US maritime history, had a number of immediate repercussions: It shocked the American public, dominating the news media for weeks; individuals and organizations were galvanized into action, generating an economic boom for southeast Alaska; the Oil Pollution Act of 1990 was passed by Congress; the spill thwarted then-President Bush’s intent to explore for and exploit known and suspected oil reserves in the Alaska National Wildlife Refuge; and it generated the largest corporate response and subsequent fine in US financial history.” (PAINE et al, 1996)

52 “hazardous release into the environment by readily identifiable parties that causes direct harm to humans or property damage.” (LATHAM; SCHWARTZ; APPEL, 2011),

tradução nossa), ou seja, é preferível que este meio seja acionado quando o dano, o poluidor e as pessoas afetadas são facilmente determináveis.

Na clássica tort ambiental envolvendo negligência, ou incômodo, ou ambos, ocorre um acidente liberando substâncias perigosas na terra de outra pessoa. O poluidor é claramente identificável, a área impactada é relativamente delimitada, as lesões causadas e capazes de serem causadas na ausência de reparação são conhecidas, a extensão do dano tanto às pessoas quanto à propriedade é facilmente quantificável.

Os elementos das ações da tort estão satisfeitos e a common law pode fornecer um remédio eficaz.53 (LATHAM; SCHWARTZ; APPEL, 2011, tradução nossa)

É possível perceber, desta forma, que em casos de grandes desastres ambientais em que o dano é de difícil apreensão e que o número de pessoas afetadas também é indeterminado a utilização da tort law pode ser ineficiente e, assim, deve ser evitada.

[…] Os Problemas e disputas entre as partes as vezes se desenvolvem com relação a área afetada, as partes responsáveis, a causa, e os possíveis efeitos a longo prazo de uma liberação de substâncias perigosas. Onde não há acidente imediato ou evento que dê origem à ação, mas sim uma liberação gradual envolvendo múltiplas substâncias perigosas com diferentes graus de potencial tóxico e rotas de exposição, ou várias possíveis fontes e réus, os benefícios do sistema da tort começam rapidamente a falhar e podem resultar em uma solução muito cara, prolongada e insatisfatória da demanda.54 (LATHAM; SCHWARTZ; APPEL, 2011. p. 753, tradução nossa)

Já em casos mais simples é possível uma aplicação da tort law.

Os Estatutos ambientais, de modo geral, não parecem implicar ou se sobrepor com ações de tort menores e menos complexas que afetam o meio ambiente (por exemplo, inundando acidentalmente a propriedade de outrem). Isso pode acontecer porque o sistema da tort continua a fornecer um meio eficaz de resolução de tais danos, negando a necessidade de ajuda legislativa, ou que a lei ambiental simplesmente não se desenvolveu suficientemente, e está preocupada com riscos

53 In the classic: environmental tort action involving negligence, or nuisance, or both, an accident occurs releasing hazardous substance onto another’s land. The polluter is clearly identifiable, the impacted area relatively confined, the injuries caused and capable of being caused in the absence of remediation are known, and the extent of the damage both to persons and property are readily quantifiable. The elements of the tort actions are satisfied, and the common law can provide an effective remedy. (LATHAM; SCHWARTZ; APPEL, 2011)

54 […] Problems and disputes among the parties often develop over the scope of the impacted area, the parties responsible, causation, and the potential long-term effects of a hazardous substance release. Where there is no immediate accident or event giving rise to the action, but rather a gradual release involving multiple hazardous substances with differing degrees of potential toxicity and exposure routes, or multiple potential sources or defendants, the benefits of the tort system quickly begin too break down and can result in a very costly, protracted, and unsatisfactory resolution of the claim. (LATHAM; SCHWARTZ; APPEL, 2011. p. 753)

ambientais mais sérios e potencialmente catastróficos.55 (LATHAM; SCHWARTZ;

APPEL, 2011. p. 757/758, tradução nossa)

Ainda nesse diapasão, cabe ressaltar que os objetivos da tort law e da environmental law são distintos, enquanto a primeira objetiva o ressarcimento individual e de modo reflexo o ambiental a segunda visa primordialmente a reparação do meio ambiente e o retorno ao status quo ante. Conforme se observa na passagem a seguir:

De acordo com a common law de tort, como por meio das ações de incômodo e negligência, o principal objetivo da política é, novamente, fornecer a justiça corretiva por meio de compensação ao indivíduo lesado. O benefício resultante para o meio ambiente obtido pela correção do dano por meio dos remédio da tort assemelha-se mais a uma consideração secundária ou subproduto dessa justiça corretiva. Simplificando, as ações de tort de incômodo e negligência não estçao diretamente preocupadas com a melhoria ou prevenção das condições ambientais; o objetivo é restaurar as partes à sua condição original, antes da lesão, independentemente de como o ambiente foi adversamente afetado.

Em geral, para que um demandante seja bem-sucedido de acordo com a tort de negligência ou incômodo, um dano de algum tipo deve ter ocorrido. Isso é contrário à natureza preventiva dos estatutos ambientais e seus regulamentos de implementação.56 (LATHAM; SCHWARTZ; APPEL, 2011, p. 19, tradução nossa)

Assim, entende-se que apesar de ter sido muito utilizada para tratar de reparação de danos ambientais, a tort law deve ser aplicada somente a casos mais simples, nunca a grandes desastres ambientais. A estes devem ser aplicadas as chamadas leis ambientais, que em sua maioria, são implementadas por meio de regulações emitidas pela Environmental Protection Agency que veremos mais a seguir.

Não importando o tipo de responsabilização escolhida, tanto a tort law como a environmental liability, é imprescindível ressaltar que ambas possuem como objetivo a prevenção do dano, que o autor tome as medidas necessárias para que se evite ao máximo o

55 Environmental statutes, generally speaking, do not appear to implicate or overlap with smaller, less complex, tort actions affecting the environment (e.g., accidentally flooding another’s property). This may either be because the tort system continues to provide an effective means of resolution such harms, negating the need for legislative help, or that environmental law has simply not developed enough, and is preoccupied with more serious and potentially catastrophic environmental hazards. (LATHAM; SCHWARTZ; APPEL, 2011. p.

757/758)

56 Under the common law of tort, such as through nuisance and negligence actions, the primary policy objective is, again, to provide corrective justice through compensation to the injured individual. The resulting benefit to the environment achieved by correcting the harm via tort remedies more closely resembles a secondary consideration or byproduct of such corrective justice. Put simply, the nuisance or negligence actions are not directly concerned with improving or preventing environmental conditions; the objective is to restore the parties to their original, pre-injury condition, regardless of how the environment was adversely impacted.

In general, for a plaintiff to succeed under a tort law theory of nuisance or negligence, a harm of some type must have occurred. This is inapposite to the preventative nature of environmental statutes and their implementing regulation. (LATHAM; SCHWARTZ; APPEL, 2011, p. 19)

dano. Pois se sabe que “[…] o fato de que os custos de limpeza, restauração e recuperação são, muitas vezes, enormes e de longo alcance.57 (OLAWUYI, 2012, tradução nossa).