RESUMO DO BALANCETE JANEIRO-2007
TOTAL RECEITAS 10.356,12 TOTAL DE DESPESAS 8.989,07 SALDO PARA FEVEREIRO 2007 (caixa 1.209,75+157,30 á receber) 1.367,05
Quadro 10– Balanço Mensal da Cotramare
Fonte: Assessora Contábil da Cotramare – Março de 2007
De acordo com o quadro acima, o valor da receita mensal da Cotramare foi de R$ 10.356,12. A receita provinha da comercialização da Cooperativa com os catadores. Isso revela que as receitas dependiam basicamente das vendas dos materiais dos cooperados. Observa-se, ainda, que no balanço não eram registradas as quotas-partes pagas pelos associados. Segundo a assessora contábil, tratava-se de uma soma ínfima e simbólica, pois os sócios tinham dificuldade de efetuar o pagamento estipulado de R$ 50,00 (dividido em 10 parcelas de R$ 5,00). Além
disso, o capital social até então integralizado nunca fora distribuído a cada sócio ao final do exercício, mas proporcionalmente com aqueles que se afastavam da Cooperativa.
De acordo com informações da Diretoria, os resultados contábeis eram apresentados aos associados durante as assembléias mensais:
“[...] quando se tem assembléia mensal, Edileusa apresenta a contabilidade. Ela explica tudo direitinho aos associados: o que entrou e o que saiu. Ela faz tudo numa cartolina bem grande. Depois, ela pergunta aos catadores se tem alguma dúvida”. (M. do S. D. Conselheira da Cotramare, 18 de julho de 2007).
Pelo exposto, podemos concluir que a Cooperativa exorbitava algumas de suas regras institucionais, no que tange aos princípios do cooperativismo. Ao mesmo tempo, amoldava-se, criando mecanismos com fidelidade aos princípios. No caso particular observado, “abria-se um circulo de participação” ou o “exercício de autogestão”, durante as assembléias, apresentando os resultados contábeis e distribuindo os seus lucros.
b) Infraestrutura
Quanto à infraestrutura a Cotramare possuía:
Estrutura Física Equipamentos
01 Galpão de armazenamento do material com uma sala de prensagem
01 Galpão de triagem (para separação de material)
02 Banheiros 01 Cozinha
01 Sala de reunião
01 Sala de aula (com cerca de trinta cadeiras)
01 Prensa (antiga) 01 Balança mecânica 01 Trator
50 sacos para colocar materiais 02 carrocinhas
01 fogão; 01 geladeira; 01 liquidificador*
Quadro 11 – Infraestrutura da Cotramare Pesquisa Direta, 18 de Julho de 2006.
A área (o terreno) onde funcionava a COTRAMARE foi cedida pela Prefeitura Municipal. Por não acumular capital de giro suficiente, apesar de parte dos cooperados terem efetuado o pagamento das quotas partes, os demais equipamentos foram obtidos através de doações. Os principais equipamentos adquiridos, através do Projeto “Fortalecimento da Cooperativa de Trabalhadores em Materiais Recicláveis de Campina Grande (COTRAMARE)”,
foram: uma balança mecânica, um triturador, um computador, uma impressora laser, um aparelho de fax, e outros. Tais equipamentos não se encontravam na Cooperativa: diante dos constantes roubos ocorridos, foram instalados nas dependências da Faculdade de Serviço Social da UEPB.
A ausência de recursos para formar capital de giro na COTRAMARE estava relacionada às baixas vendas dos materiais. Isto é, as vendas efetuadas mal davam para pagar as despesas dos salários da direção, e re-financiar a compra dos materiais, conforme informou uma voluntária:
“Eles não têm essa coisa de guardar dinheiro, por exemplo, pra comprar uma coisa pra melhorar a cooperativa. Eles pensam só no imediato! Agora, eu sei que é difícil, porque o que a cooperativa ganha com a venda dos materiais só dá pra pagar algumas despesas. E olhe que eu já ajudei muito, dando e dando dinheiro, porque tinha semana que num tinha saldo nenhum, pra iniciar as compras [...] emprestei dinheiro pra comprar trator. Teve uma época que Valdomiro quase quebra a cooperativa [...] porque quando a cooperativa começou a comprar o plástico dentro do lixão, o preços do plástico estava a dez centavos por quilo, e a cooperativa entrou nessa concorrência, comprando a quinze centavos o quilo [...] isso porque a gente ajudou, deu dinheiro!”. (I. C., voluntária da Cotramare, 14 de fevereiro de 2005).
Embora parte dos cooperados tenha efetuado o pagamento das quotas-partes, a Cooperativa era impossibilitada de constituir um fundo de reserva por algumas razões.
O Estatuto Social recomendava que o valor do capital social da Cooperativa não poderia ser inferior a R$ 1.200, 00 (um mil e duzentos reais), o qual deveria ser subdividido em 50 quotas-partes à vista ou dividido em 10 prestações mensais de R$ 5,00 (cinco reais); apesar de o valor estipulado ser insignificante, os catadores cooperados apresentavam dificuldades para efetuar o pagamento, uma vez que o valor obtido com as vendas dos materiais não garantia o suprimento de suas necessidades básicas.
De acordo com o levantamento feito pelo grupo de voluntários, dos 50 catadores associados ativos, apenas 50% (25 cooperados) chegaram a efetuar o pagamento correspondente à parte da quota, enquanto a outra metade não efetuara nenhum pagamento.
O valor total obtido através do pagamento das quotas-partes, segundo informação da assessora contábil, foi na ordem de R$ 515,00, não atingindo a quantia determinada pelo Estatuto Social (R$ 1.200,00).
Além disso, o Estatuto Social estabelecia que o número de quotas-partes do capital social a ser subscrito pelo cooperado, por ocasião da sua admissão, seria variável tendo por base a produção de cada cooperado na Cooperativa. Contudo, o Estatuto não deixava claro que as referidas quotas pudessem se transformar em capital de giro para a Cooperativa.
Segundo informação da Diretoria, parte daquele saldo (R$ 515,00) fora reintegralizada para pagamentos de débitos da Cooperativa, “[...] também, a gente teve que pagar quotas para alguns ex-cooperados [...], agora tem alguns ex-sócios que não receberam o retorno. Dona Edneusa disse que tinha que fazer um levantamento para ver isso direito” (Presidente-Diretora da Cotramare, abril de 2007). A deliberação foi uma decisão tomada pela diretoria junto com o grupo de voluntários. Coube à diretoria, por sua vez, transmitir a informação para o restante dos cooperados.
Verificamos que certas decisões tomadas pelos dirigentes tendiam a negar dois aspectos importantes da experiência da cooperativa: não permitia aos seus associados que emergissem como reais proprietários da cooperativa e, ao mesmo tempo, inibia a prática da autogestão que, por ventura, deveria ser assumida por todos em igual medida. (ARAÚJO, 1982). Voltaremos, posteriormente, a tratar mais detalhadamente sobre os mecanismos de participação.
Contudo, chamamos atenção acerca da influência dos voluntários nas decisões e na condução dos negócios da Cooperativa. Este tipo de postura era bastante criticado dentro do Movimento Nacional. Ao entrevistar uma liderança do MNCR (regional-Nordeste), ele se posicionou criticamente sobre as intervenções de algumas entidades,
“Geralmente, os intelectuais, as ONGs, e outros parceiros ou voluntários que nos apóiam querem conduzir o nosso movimento [...] querem conduzir as associações de catadores achando que pelo fato de saberem mais podem interferir. As ONGs, as organizações religiosas e até mesmo o governo querem determinar como as cooperativas de catadores devem caminhar. Por isso, em nosso último encontro, isso foi bastante debatido. E agora, estamos lutando por nossa autonomia. Aqui mesmo em Recife, a representação do MNCR em Pernambuco, não trabalha com a Cáritas [...]. Acho a parceria com a ASPAN41 positiva, é uma parceira que respeita nossa
41 Associação Pernambucana de Defesa da Natureza, fundada em Recife, em 05 de junho de 1979. É uma entidade
ambientalista, de direito privado, essencialmente cultural e tecnicocientífica, autônoma, sem fins lucrativos e de caráter associativo. Surgiu da necessidade de se organizar uma entidade que defendesse os interesses comuns no tocante à preservação ambiental e à melhoria da qualidade de vida da população excluída. Sua atuação prioritária é na região Nordeste, especialmente no estado de Pernambuco; dentre suas atuações empreendidas, pode-se constatar, a proposta de implantação de loteamento que destruiria os 190 ha da mata do Engenho Uchôa, localizada no Recife (1979); A luta pela preservação das áreas de manguezais predestinados ao aterro, quando da proposta de instalação do projeto chamado “Memorial Arcoverde”, entre as cidades de Recife e Olinda (1993), também merece registro. A ASPAN, através da parceria estabelecida com a representação do MNCR do estado de Pernambuco, promoveu diversos cursos, dentre eles: A primeira “Capacitação de Lideranças do Movimento dos Catadores de Materiais Recicláveis no Estado de Pernambuco” (2005). Além do mais, desenvolveu nos últimos cinco anos projetos de reciclagem com apoio e articulação do “Movimento Nacional dos Catadores, através de uma parceria com a organização não-governamental canadense ACTION RE-BUTS (La Coalition Montréalaise pour une Gestion Écologique et Économique des Déchets), e com o apoio financeiro da Agência Canadense de Desenvolvimento
autonomia”. (Representante do MNCR regional-Nordeste; Recife, 25 de novembro de 2005).
Ao conversarmos sobre tal questão com a representante da Cáritas, esta rebateu com a seguinte crítica:
“Eu não sei que história é essa, que a gente não respeita a autonomia dos catadores. Nós trabalhamos aqui com o Celso, um representante do Movimento Nacional, e ele presencia várias decisões tomadas pelos associados. Agora, sabemos das dificuldades que estas associações têm enfrentado por não conseguir dispor para sua gestão de pessoal com formação ou experiência em administração, eu não vejo problema se elas contam com um grupo ou parceiros para assessorar. Se as grandes empresas contratam assessoria para administrar ou gerenciar seus negócios! Por que uma cooperativa ou associação não pode contar com esse apoio? Qual o problema, então?” (A. da C., João Pessoa, março de 2006).
A Assessora da Cáritas, em seu discurso, nos chama atenção para a necessidade de assessoramento na fase inicial de estruturação das cooperativas, que exige do grupo conhecimento sobre o sistema cooperativista e entendimento sobre a gestão do empreendimento. Dessa forma, tanto a demanda inicial quanto o projeto para a estruturação destes empreendimentos foram construídos por pessoas externas ao grupo.
c) Organização da produção e Condições de trabalho
Os catadores cooperados realizavam seu trabalho de coleta dos materiais recicláveis dentro do lixão. Assim, a organização do trabalho na Cotramare era diferente da forma de organização da Astramare, desde o local de execução do trabalho até suas dinâmicas envolvendo a divisão de tarefas dentro da referida organização, bem como os instrumentos de trabalho utilizados.
Internacional ACID/CIDA, com a realização da Feira dos 3Rs (Reduzir, Reutilizar e Reciclar); também uma parceria com a Fundacão AVINA (Suiça).
Foto 08 – Catadores (Cotramare) “garimpando” no lixão de Campina Grande-PB (2006)
Os resíduos sólidos da cidade de Campina Grande eram dispostos a céu aberto. De acordo com dados fornecidos pela Prefeitura Municipal, a taxa de cobertura da coleta de lixo domiciliar é de 90%; o volume de resíduos depositados no lixão é maior que um milhão de toneladas e menor que cinco milhões de toneladas. Os tipos de resíduos depositados eram os mais diversos possíveis, tais como: domiciliar, comercial, industrial, construção civil, serviço de saúde, hospitalar, abatedouro/ matadouro e outros, sem nenhuma política de acondicionamento adequada, inclusive com relação ao lixo hospitalar.
Os resíduos sólidos hospitalares, produzidos na cidade de Campina Grande, eram os mais diversos: agulhas, seringas, gazes, bandagens, algodões, órgãos e tecidos removidos, meios de culturas e animais usados em testes, sangue coagulado, luvas descartáveis, remédios com prazos de validade vencidos, instrumentos de resina sintética, filmes fotográficos de raios X, etc. Resíduos assépticos destes locais, constituídos por papéis, restos da preparação de alimentos, resíduos de limpezas gerais (pós, cinzas etc.), e outros materiais Aproximadamente 22 toneladas destes resíduos eram geradas semanalmente, na cidade (VASCONCELLOS et al., 2006).
Diante da irregularidade na forma de depósito do lixo hospitalar, várias denúncias foram feitas pela imprensa local, sobretudo por tratar-se de um crime ambiental. Esse tipo de lixo, quando depositado de forma irregular, pode gerar um tipo de “chorume” (líquido escuro e turvo
proveniente do armazenamento e repouso do lixo) bastante perigoso e poluente, já que o risco de contaminação do local é muito alto. Outras denúncias foram feitas por catadores que vasculhavam aquele tipo de lixo.
Vários estudos denunciam as condições precárias do trabalho dos catadores nos lixões (GROSSI, 1999) e (MAGERA, 2003), principalmente os vários riscos aos quais estão expostos. O trabalho desempenhado pelos catadores cooperados da Cotramare, no lixão de Campina Grande, não poderia ser diferente. Portanto, longas jornadas de trabalho em péssimas condições, baixos salários e etc., o que reflete uma das formas contemporâneas que o trabalho informal assume: a de um trabalho precário.
Os catadores associados à Cotramare trabalhavam sob sol e chuva. Durante o verão, conviviam com o mau cheiro dos gases exalados do lixo acumulado, além da fumaça intensa produzida pela combustão dos gases; durante o inverno, a chuva e a lama prejudicavam o trabalho de coleta.
Os catadores executavam um processo rudimentar de triagem, vasculhando os sacos de lixo com um gancho ou ferro42. Ou seja, retiravam apenas aqueles materiais do lixo (plásticos, vidros, metal, ossos e etc.) possíveis de comercialização, jogando-os dentro de um tambor ou de sacos; em seguida, transportavam o material catado para suas barracas, separando-o de forma grosseira.
A jornada de trabalho dos catadores do lixão de Campina Grande tinha início após as nove horas da manhã, horário em que os carros de coleta começavam a depositar o lixo, e só terminava por volta das dezessete horas, alguns entrando pela noite. Portanto, estes catadores eram obrigados a prolongar a jornada de trabalho até o limite do esgotamento físico, uma vez que recebiam segundo o critério de produtividade (quanto mais catava mais ganhava), embora não exercessem nenhum controle sobre os preços de compra e venda. O depoimento de uma catadora associada é um exemplo das centenas de catadores que eram obrigados a prolongar sua jornada de trabalho:
42
Tal denominação atribuída pelos catadores, o gadame, era uma espécie de ancinho com grandes dentes de ferro para arrastar estrume. Além do gadame (instrumento de ferro pontiagudo improvisado), os catadores também vasculham o lixo com enxadas.
“Eu moro aqui dentro do lixo. Quando eu chego da escola, pego meu saquinho e vou
pra lá catar minhas coisinha. Eu moro aqui dentro, nessa barraca porque a minha casa lá na Catingueira tá caindo, e roubaram as minha coisa lá, até minha geladeira, o que eu sinto mais falta [...] eu ganhei ela aqui no lixo, jogaram e eu peguei [...]. Eu também cato de noite mai o meu marido, aquele ali [apontou com a mão]. Mai, eu num vou atrai dos carro não, porque eu num tenho mai idade [...]. Eu tenho medo, porque é muito escuro e a gente num vê nada! Você sabe que tem muita coisa ruim aqui dentro!” (L. P. da S., 57 anos, cooperada da Cotramare, outubro de 2005).
Era possível perceber que a atividade de catar lixo revelava uma forma de auto-exploração do trabalho, mediante relações informais que podiam ser definidas na esfera da circulação. Ou seja, Parafraseando Karl Marx (1984), trata-se de uma auto-exploração que ocorre pela forma transfigurada do “salário por peça”. O salário por peça não expressa diretamente nenhuma relação de valor, não se mede o valor da peça pelo tempo de trabalho nela corporificado, mas, ao contrário, o tempo despendido pelo trabalhador para o número de peças produzidas. No salário por tempo, o trabalho se mede diretamente por duração; no salário por peça, pela quantidade de produtos que o trabalhador materializa num dado espaço de tempo.
Logo, o salário diário, semanal ou quinzenal tende a variar com as diferenças individuais do trabalhador, de modo que, num determinado espaço de tempo, cada um pode produzir um mínimo, uma média ou acima da média. Assim, dentro dos lixões, era possível observar diferenças no tocante à quantidade de produtos coletados. Tais diferenças dependiam da força, da energia e da persistência de cada trabalhador/catador.
Alem disso, no salário por peça, conforme Marx demonstrara (1984, p. 629), é interesse do trabalhador empregar sua força de trabalho o mais intensivamente possível, como forma de elevar o salário, o que facilita ao capitalista elevar intensamente o grau de exploração, através do prolongamento da jornada de trabalho. Isso pode nos explicar porque os catadores da Cotramare se submetiam a longas jornadas de trabalho com o propósito de aumentar a renda semanal.
Muitos catadores construíam barracos, improvisando-os com lonas, panos, estopas, sacos e pedaços de pau que encontravam no lixo. Além do mais, garimpavam e coletavam o lixo com as próprias mãos. Muitos improvisavam os equipamentos de trabalho com luvas, roupas, tênis, sapatos, sandálias que encontram no próprio lixo.
Segundo informações da Diretoria, os catadores não usavam os equipamentos de trabalho (inclusive máscaras) porque não ganhavam o suficiente para comprar tais instrumentos. Além disso, a Cooperativa não dispunha de recursos suficientes para poder fornecê-los aos seus associados. Segundo depoimento de uma das cooperadas da Contramaré,
“Nós vive trabalhando aqui dentro desse lixão sem proteção nenhuma. A gente arruma as coisas daqui do lixo. Agora mermo eu vou procurá um cadarço para esse tênis que eu encontrei [mostrou-me o tênis]. As luva, nói tira do carro da Besa [empresa fabricante de luvas e outros produtos do gênero]. Agora, era pra prefeitura doar esses material pra gente, [...] num dizem que a gente tá trabaiando pro meio-ambiente?”. (L. L. B., 33 anos, cooperada, 15 de agosto de 2005).
Outra característica do trabalho dentro do lixo era a prática da antecipação, por parte de alguns catadores, aos carros de coleta que chegavam até o lixão. Este fato marcava uma diferença de hábitos de trabalho daqueles catadores em relação aos demais que aguardavam os carros dentro do lixão.
Em várias ocasiões, presenciamos este movimento na entrada do lixão, (local da pesagem dos carros que chegavam para depositar o lixo), quando vários catadores ficavam sentados no chão aguardando os caminhões: “Os carros do lixo são de todos, mais os carros pequenos [...] a gente encosta e ninguém se aproxima não! Mas, o lixo é de todos, num tem dono [...]”. (J. L. F., 22 anos, catador no lixão de Campina Grande, dezembro de 2005).
Embora, o catador justifique que o lixo não tem dono, talvez, por isso muitos se antecipavam para garantir os materiais no caminhão. Assim, quando o lixo era depositado num determinado local dentro do lixão, ninguém se aproximava, pois o grupo já tinha tomado posse. Naquele dia, ao perceber nossas observações, a presidente da cooperativa se aproximou e teceu o seguinte comentário:
“Você tá vendo aqueles catadores ali, eles ficam esperando os carros com o lixo bom [...] ficam esperando que é pra não deixar ninguém catar quando o lixo for descarregado. E você precisa ir lá pra dentro [do lixão] mesmo, pra ver as brigas por causa de lixo. Tem carro que quando despeja o lixo, aquele lixo já tem dono. Tem uma família aí dentro do lixo, irmãos, cunhado [...] que já são donos de alguns carros. E ninguém mexe no lixo deles. Já teve muita briga, até de murros, e ameaças por causa disso. Até os bichos apanha se chegar perto, os cachorros e porcos” (L. H. N., 26 de setembro de 2005).
A precariedade do trabalho executado pelos catadores se revelava, ainda, diante da vulnerabilidade do risco de se acidentarem. Foram muitos os relatos de acidentes, dois dos quais são ilustrativos:
“Faz seis meses, foi numa sexta- feira, que sofri um acidente, o carro de lixo vinha de ré, e eu pensei que ele ia pra frente, aí passou em cima do meu pé. Ainda bem que ele vinha devagar, e eu estava com as botas, e quando eu puxei o pé debaixo do pneu, aí quebrou os ossos. Eu fiz uma cirurgia, e ainda está com problema. O médico quer fazer outra e, eu não posso. Pois, como eu vou sustentar meus filhos. Quando eu fiz a
cirurgia, em fiquei seis meses sem trabalhar, a cooperativa ainda me ajudou e minha mãe. O dono da firma do caminhão do lixo comprou os medicamentos, mas depois foi o motorista do carro que ajudou. Faz quinze dias que eu voltei a trabalhar, mas estou sentido muita dificuldade, pois não posso mais correr atrás dos carros, Tenho dificuldade pra andar” [interrompeu a fala e começou a chorar] (L. M. L., 34 anos, associada da Cotramare, 19 de Julho de 2005).
“Meu menino, tava no lixo e pisou, não viu que debaixo do lixo tinha fogo [...], aí queimou as perna com plástico, ficou tudo queimado. Aí, eu peguei ele nos braços e levei pra o hospital de ônibus [...] e ela gritava, gritava de tanta dor! Ficou internado quase uma semana. E eu fiquei sem trabalhar, porque eu fiquei com ele o tempo todo no hospital, se não fosse Celine [...] foi ela que me ajudou, me deu feira, comprou remédio, porque a gente que trabalha aqui dentro só tem se trabalhar!” [...] (L. H. do N., outubro de 2005).
Percebemos que o trabalho executado pelos catadores, associados ou não, no lixão, tinha como característica o signo do desamparo, da precariedade e da desolação, assinalando, o lado perverso da desregulamentação das relações de trabalho e da reestruturação produtiva no cenário