5 ENSAIO DE FERTILIDADE E PERFORMANCE REPRODUTIVA . 81
5.3.1 Toxicidade masculina
O ganho relativo de massa corporal dos machos tratados com 50, 150 ou 450mg/kg de glifosato durante os 70 dias do pré-acasalamento e os 15 dias de acasalamento não sofreu alterações significativas, assim como os consumos de água e ração avaliados durante o pré-acasalamento. Entretanto, sinais de toxicidade sistêmica foram observados neste ensaio, por meio do aumento na massa relativa de fígado e rins, acompanhado de alterações histopatológicas. Não somente sinais de toxicidade sistêmica, mas, principalmente, sinais de toxicidade reprodutiva foram observados mediante decréscimo no número de espermatozóides, na produção diária de espermatozóides e na concentração sérica de testosterona, como também mediante aumento da percentagem de espermatozóides anormais e de degeneração dos túbulos seminíferos.
Em ratos, a toxicidade sistêmica do glifosato técnico foi observada, principalmente nos machos, por aumento na massa relativa do fígado, rins e testículos, em várias concentrações administradas via ração. Também, foi observado o aumento das enzimas fosfatase alcalina e alanina aminotransferase em machos expostos a concentrações maiores ou iguais a 6250mg/kg de glifosato, revelando, portanto, sinais de hepatotoxicidade (WHO, 1994).
Segundo Amann (1982), as principais variáveis de toxicidade masculina são a massa relativa dos testículos, a histologia testicular, o número de espermatozóides e a morfologia espermática. A massa relativa dos órgãos sexuais não foi afetada neste ensaio. Entretanto, a falta deste efeito sobre os órgãos
sexuais não pode negligenciar significativas alterações em outras variáveis que podem ser mais sensíveis (DALSENTER et al., 1999).
Segundo Orth (1982), a produção diária e a maturação dos espermatozóides podem ser criticamente dependentes do número de células de Sertoli presentes nos testículos. Estas células, no rato adulto, não se dividem e constituem uma população fixa.
A atividade funcional das estruturas do trato reprodutivo masculino é controlada pelo nível sérico de testosterona. A espermatogênese nos túbulos seminíferos, a maturação dos espermatozóides nos epidídimos e a atividade secretora das glândulas sexuais acessórias requerem adequados níveis de testosterona (WALLER et al., 1995).
Conforme os resultados descritos, os níveis séricos de testosterona mostraram significativa redução nos animais expostos à maior dosagem. Este fato poderia explicar tanto a redução do número de espermatozóides, da produção diária de espermatozóides, como o aumento na percentagem de espermatozóides anormais. Também, a degeneração tubular poderia explicar a redução dos níveis de testosterona.
Apesar dos efeitos sobre as variáveis reprodutivas masculinas, a fertilidade, avaliada mediante as taxas reprodutivas referentes ao acasalamento, não apresentou redução significativa. Isto se deve a uma característica da espécie em questão que reduções de até 60% na concentração espermática não são capazes de comprometer a fertilidade masculina (AMANN, 1982).
Embora o mecanismo preciso de toxicidade não esteja ainda claro, a exposição masculina ao pesticida glifosato-Roundup® induziu uma variedade de anormalidades no trato reprodutivo dos ratos. Os resultados aqui apresentados mostraram um aumento significativo no risco potencial deste pesticida desregular o sistema endócrino masculino.
O ganho relativo de massa corporal e os consumos relativos de água e ração das progenitoras mostraram não haver sinais de toxicidade materna. Também, a massa relativa dos órgãos, tanto sistêmicos quanto reprodutivos, não apresentou diferença significativa entre os grupos tratados com glifosato em relação ao grupo controle. Os índices reprodutivos avaliados nas fêmeas ao final da gestação, como também aqueles avaliados ao final da lactação, não sofreram qualquer alteração em relação ao grupo controle. Apesar dos machos terem revelado sinais de hepato e nefrotoxicidade, além de sinais específicos de toxicidade reprodutiva, estas variáveis não foram alteradas nas fêmeas tratadas com as mesmas dosagens.
O período de tratamento das fêmeas sacrificadas no final da gestação foi de 37 a 51 dias (dependendo do tempo de acasalamento) e das fêmeas sacrificadas no final da lactação foi de 58 a 79 dias (dependendo do tempo de acasalamento, de gestação e do ciclo estral no pós-desmame). O período de tratamento dos machos foi de 92 dias. Sendo assim, as diferenças quanto aos sinais de toxicidade sistêmica evidenciados nos machos e não nas fêmeas podem se dever a diferenças no período de tratamento. Entretanto, conforme WHO (1994), a redução da massa corporal de ratos expostos via ração é observada em machos em concentrações de 25000mg/kg e em fêmeas somente em concentrações de 50000mg/kg. Também, a redução na massa relativa de fígado e rins foi observada somente nos machos, nas várias concentrações testadas. Estes resultados sugerem uma possível sensibilidade maior dos ratos machos à exposição ao glifosato em relação às fêmeas.
As progênies avaliadas no final da gestação não sofreram qualquer alteração devido à exposição ao herbicida glifosato Roundup® nas dosagens testadas neste ensaio (dosagens inferiores ao do ensaio de teratogênese referido no item 4). As etapas de pré-implantação, implantação, organogênese e desenvolvimento fetal avaliadas, respectivamente, mediante as taxas de perdas pré e pós-implantação, malformações macroscópicas externas, vitalidade, massa corporal e sexo dos fetos, revelaram que a exposição pré-natal dos progenitores, associada à exposição durante o período gestacional, não influenciaram negativamente as progênies até o momento da cesariana.
Ensaios de teratogênese realizados com doses equivalentes a 300, 1000 e 3500mg/kg de glifosato técnico revelaram sinais de embriofetotoxicidade, caracterizados por aumento da incidência de reabsorções precoces, decréscimo do número total de sítios de implantação e do número de fetos viáveis somente para a maior dose (WHO, 1994). Apesar da maior dosagem utilizada neste ensaio ser 7,7 vezes menor que a dose que manifestou efeitos embriofetotóxicos (WHO, 1994), deve-se atentar para o fato que, neste ensaio, ambos progenitores foram tratados previamente ao acasalamento e que o produto utilizado não foi o glifosato técnico e sim, o produto comercial Roundup®. Também, que a maior dosagem utilizada neste ensaio é 2,2 vezes menor do que a utilizada no ensaio de teratogênese, referido no item 4, em função do caráter crônico do tratamento.
A relevância da avaliação teratogênica em ratos expostos não só durante o período de organogênese, mas oriundos de progenitores machos e fêmeas expostos durante o pré-acasalamento, o acasalamento e toda a gestação, prende-se ao fato de que os gametas podem ter se alterado antes da fertilização e manifestarem efeitos posteriores a esta. Também, mudanças nas concentrações hormonais podem interferir na manutenção e/ou no desenvolvimento gestacional,
afetando diretamente o desenvolvimento sexual ou geral e a viabilidade dos embriões e/ou fetos (KELLY, 1991 e MAcLUSKY & NAFTOLIN, 1981).