4. POR DENTRO DOS CASOS DE POLÍCIA: MARA CORNELSEN
4.1 TRÁFICO INTERNACIONAL DE BEBÊS E CASO REGIANE
Dentre todos os casos que cobriu, os que mais tocaram Mara foram os relacionados ao tráfico internacional de bebês, que tiveram seu auge nos anos de 1980 no Sul do Brasil. Estima-se que esse comércio ilegal exportou um número de três mil crianças por ano entre 1985 e 1988 para Israel, especialmente de origem paranaense e catarinense. Os bebês brancos e de olhos claros eram os mais desejados (FOLTRAN, 2012).
Mara trabalhou na publicação da maioria dos crimes que aconteceram no Paraná durante este período, motivada pelo desespero dos pais, que ligavam para a Tribuna pedindo ajuda. A história da pequena Bruna, de apenas quatro meses na época, por exemplo, até hoje faz parte da vida dela: foram 20 anos dedicados a realizar reportagens sobre a ocorrência. Bruna Aparecida Vasconcelos foi sequestrada pela famosa quadrilha liderada pela catarinense Arlete Hilu, denunciada e detida por tráfico em 1986. Ela cumpriu dois anos de prisão, de acordo com a jornalista.
Desde que Bruna desapareceu, a mãe da menina, Rosilda, ia semanalmente à Tribuna pedir que o caso fosse divulgado para que não caísse no esquecimento. A família estava completamente desesperada e Mara sempre atendia aos pedidos. Um dia, saiu uma nota sobre o caso em uma revista de Londres, na Inglaterra, e um produtor de televisão do país acabou se interessando pelos casos de sequestros de crianças no Brasil. Ao fazer contato com os principais jornalistas que cobriam os sequestros, o produtor chegou ao nome de Mara Cornelsen. Ele ligou para ela, pedindo se poderia enviar uma
equipe para Curitiba e ela logo concordou. Durante dois anos, a repórter assessorou os ingleses no caso de Bruna. Nos primeiros três meses, ela passou todas as informações, o contato da mãe e tudo o que já havia sido apurado.
Posteriormente, os jornalistas estrangeiros contrataram um investigador em Israel, depois de confirmar algumas denúncias de que as crianças sequestradas eram enviadas para lá, e ele conseguiu encontrar Bruna. A mãe biológica do bebê foi levada até Israel por esses produtores de televisão e ela confirmou que aquela menina era realmente a sua filha. “Mesmo tão pequena, era evidente que elas eram mãe e filha, porque uma era a cara da outra”, conta Mara, que acompanhou todos os movimentos para solucionar o caso, mesmo de longe.
Sequestrada com quatro meses, Bruna só voltou para o Brasil com quase três anos de idade, após uma briga judicial entre os pais biológicos e os que compraram a criança por US$ 5 mil dólares, na época. O casal alegou que os próprios pais, pobres, quiseram vender Bruna, porque não queriam mais ficar com ela. No entanto, a polícia descobriu que a negociação com o casal adotivo foi realizada no Paraguai com a quadrilha de Arlete Hilu, que fez toda a transação usando documentos falsos. O embate internacional comoveu milhões de pessoas por meio da mídia. O juiz decidiu, por fim, que Bruna deveria ficar com os pais biológicos e Rosilda finalmente a trouxe de volta ao Brasil.
Para mim, esse foi um caso muito importante, porque uma injustiça enorme foi resolvida. Além de ter que conviver com o sumiço da filha, os pais eram acusados de vendê-la. Todo mundo falava “ah, mas os pais são pobres, ela vai viver o resto da vida em uma favela ao invés de ficar com um casal rico e bacana”. Mas e daí? Ela havia sido sequestrada, tirada dos pais, isso era um crime. (CORNELSEN, 2014)
Quase em paralelo, no final da década de 1980, Mara cobriu outro caso que a sensibilizou fortemente e marcou a sua trajetória: o sequestro da menina Regiane, na época, com sete anos de idade. O crime foi cometido por um andarilho na favela do Cajuru, em Curitiba. A criança saiu de mãos dadas com o irmão de cinco anos, do barraco onde a família morava, para buscar um chinelo para a mãe, que tinha uma consulta marcada com um médico no dia
seguinte. Os pequenos estavam a caminho da casa da tia, para emprestar o calçado, já que as duas compartilhavam o mesmo chinelo, quando foram abordados por um homem. “Para ver o nível de pobreza em que eles viviam”, comenta Mara. Ele agarrou Regiane e o irmão começou a gritar. Para silenciar o menino, o criminoso segurou a cabeça dele dentro de uma poça d’água e o matou.
Depois, forçou Regiane a acompanhá-lo, para pedir esmola nas ruas.
Ele foi com a menina até São Paulo, machucando a menina, a obrigando a chamá-lo de pai sob ameaça de morte. Quando chegaram à cidade, a criança estava com o braço quebrado, em condições terríveis. Uma assistente social da Prefeitura que estava no local percebeu que havia algo errado e a levou para o hospital, depois de pedir documentos da menina para o andarilho. Como ele não tinha nenhum, ela encaminhou Regiane a um orfanato. Um casal de São Bernardo do Campo, que frequentava a instituição, se encantou com a garota e acabou a adotando, de forma legal perante a Justiça. Caroline, como passou a ser chamada, morou com os dois por sete anos. Enquanto isso, os pais biológicos estavam desesperados, ainda com esperanças de encontrar Regiane. “E ela estava lá, adotada legalmente. Quer dizer, eles nunca mais a achariam”, avalia Mara.
Foi nessa época que surgiu a primeira versão do programa Linha Direta da TV Globo, com o apresentador Hélio Costa, que simulava casos policiais não solucionados para que o público ajudasse a dar pistas, identificar ou localizar o paradeiro dos suspeitos (Memória Globo, 2014). Um dia, Mara recebeu uma ligação de um colega da Gazeta do Povo, já falecido, sugerindo que ela enviasse para a Central Globo de Produções sugestões de crimes para o programa. Ela escolheu, então, passar adiante, entre outras ocorrências, o caso Regiane, que foi selecionado pelos produtores. Uma equipe da Globo procurou Mara para ajudá-la na reconstituição do sequestro da criança. Após alguns meses, o programa foi ao ar e, de uma maneira completamente inesperada, Regiane, com 14 anos de idade, assistia a televisão no momento e se reconheceu ali. Ela logo falou para a mãe adotiva “essa é a minha história e esses são os meus pais, eles ainda estão me procurando”.
Depois do impacto inicial, a adolescente ficou um mês decidindo se ia atrás ou não dos pais biológicos. Ela, então, procurou o Linha Direta e o
programa promoveu o encontro em âmbito nacional. A descoberta de quem realmente era Regiane resultou, como no caso de Bruna, em uma batalha jurídica entre os casais.
E Regiane, com 14 anos, optou por voltar para os pais biológicos, que ainda moravam na favela. O sangue falou mais alto e ela trocou o conforto de um apartamento, com um pai metalúrgico, para voltar para a “verdadeira” família. No fim, eles ganharam a causa.
(CORNELSEN, 2014)
Apesar do final feliz, nos bastidores, a jornalista conta que o clima foi um pouco complicado com a Globo. Os produtores da emissora, segundo Mara, foram orientados a não contar para ela que haviam encontrado Regiane, para que a Tribuna não desse a notícia antes e “furasse” o Linha Direta. Ela descobriu isso por ter amigos “informantes” do lado da televisão. “Eu achei aquilo uma baita de uma sacanagem, porque eu tinha sido a pivô de tudo.
Mesmo assim, meus colegas me ligaram, lá pelas 23h, avisando que a menina tinha sido localizada”. A equipe do jornal ficou emocionada com a notícia, depois de tantos anos de dedicação ao caso. No dia seguinte, Mara fez uma baita de uma matéria, para a capa, falando do aparecimento de Regiane.
“Enquanto isso, lá na Globo eu virei persona non grata, proibiram de falar comigo sobre os casos do Paraná, porque eu tinha descoberto e feito a reportagem antes” conclui.