As três idéias básicas que examinaremos são representadas respec tivamente pelos calvinistas extremados, calvinistas moderados e
arminianos modernos (wesleyanos).10 Primeiro, vejamos o calvinismo extremado.
( "alvinismo extremado: predeterminaçao a
tlespeito da presciência
Descrição da
idéia
do calvinista extremadoSegundo essa idéia, a predeterminaçao de Deus é feita a despeito de sua presciência dos atos humanos livres. Deus opera com soberania tão inacessível que suas escolhas são feitas com total desconsideração das escolhas dos mortais. O puritano calvinista William Ames assevera:
Não há presciência que seja pré-requisito ou pressuposta para o decreto da predestinação, além da simples inteligência que diz respeito a todas as coisas, visto que ela não depende de causa, razão ou condição exterior alguma, m as procede puramente da vontade dele, que predestina.
Além do mais, segundo Ames, Deus determina salvar quem ele quiser, sem levar em consideração se a pessoa escolhe crer ou não. O fato é que Deus dá a fé a quem ele quer. Sem essa fé, que é dom de Deus, ninguém poderia crer e nem haveria de crer. Para ser mais cla ro, o ser humano caído está tão morto em pecados que Deus deve primeiro regenerá-lo, antes mesmo de ele poder crer. Os mortos não crêem em nada: estão mortos!11
Há um corolário importante para essa idéia. Se as escolhas livres não foram levadas em conta quando Deus elaborou a lista dos elei tos, então a graça irresistível vem sobre os que não desejam a salva ção. Isso quer dizer que ninguém poderia dizer “não” no que diz respeito à própria salvação. Por conseguinte, o fato de alguma pes soa não ter escolhido amar, adorar e servir a Deus não fará nenhuma diferença para ele. Ele simplesmente “se apodera” dos que escolhe com seu poder irresistível e força-os a entrar em seu Reino, contra a vontade deles (v. cap. 5).
As raízes dessa idéia do calvinismo extremado são encontradas no Agostinho da velhice. Versões mais recentes se encontram nos escritos de John Gill, Jonathan Edwards, John Gerstner e R. C. Sproul. Visto que Agostinho veio a crer que os hereges poderiam ser forçados a crer
contra a livre-escolha deles, ele não viu problema algum em Deus
produzir o mesmo efeito nos eleitos (v. ap. 3).
Os problemas com o calvinismo extremado
Há, naturalmente, problemas sérios com essa posição. Primeira mente, ela envolve a negação da livre-escolha do ser humano (isto é, o poder da escolha contrária), que tem o apoio tanto da Escritura quan to do raciocínio sadio (v. cap. 2 e ap. 4). Como o próprio Agostinho anteriormente afirmou, “aquele que deseja é livre de compulsão...”.12 No final das contas, a pessoa que é coagida, seja externa ou interna mente,13 não tem escolha na própria salvação. Jonathan Edwards sus tentava que “livre-escolha” é fazer o que nós desejamos, e é Deus quem nos dá o desejo. Mas visto que Deus somente dá o desejo para alguns (não para todos), isso conduz a outro problema.
Em segundo lugar, “a graça irresistível” viola o livre-arbítrio da quele que não a deseja, pois Deus é amor (ljo 4.16), e o verdadeiro amor é persuasivo, mas nunca coercitivo. Jamais poderá haver um casamento forçado no céu. Deus não é como B. F. Skinner que, em sua teoria da conduta, modifica as pessoas fazendo que ajam contra a própria vontade. C. S. Lewis em dois pontos de seus escritos se opõe à idéia da “força irresistível” usada contra a vontade dos incrédulos.14 Nas Cartas do Diabo ao Seu Aprendiz, Lewis conclui que “o Irresistível e o Indisputável são duas armas que a própria natureza de Seu plano [de Deus] o proíbe de utilizar. Sobrepor-se meramente a uma vonta de humana [...] seria para Ele algo inútil. Ele não pode violentar, pode apenas persuadir”.15 No livro The GreatDivorce [O Grande Abis
mo], Lewis tem outra passagem grandiosa mostrando como Deus, em
última instância, respeita a livre-escolha com que equipou suas cria turas. Ele diz: “Há somente duas espécies de pessoas no final: aquelas
que dizem a Deus: ‘Seja feita a tua vontade’, e aqueias a quem Deus diz, no final: ‘Tua vontade será feita. Todos os que estão no inferno escolheram esta última. Sem esta auto-escolha não poderia haver in ferno”.16
A despeito de algumas inconsistências evidentes nessa questão (v. seus comentários sobre Lc 14.23), João Calvino enfrenta honesta mente o ensino bíblico de que se pode resistir ao Espírito Santo. Ele reconhece que Estêvão disse dos judeus: “Povo rebelde, obstinado de coração e de ouvidos! Vocês são iguais aos seus antepassados: sempre
resistem ao Espírito Santo ’ (At 7.51).17Calvino assinala: “Finalmente, é
dito deles que estão resistindo ao Espírito, quando obstinadamente re jeitam o que ele diz pelos profetas”. Calvino descreve essa resistência com frases como “obstinadamente rejeitam” e “fazem guerra contra Deus”.18 Mas, se é possível resistir à graça de Deus, então ela não é irresistível. Uma força irresistível usada por Deus nas criaturas livres seria violação tanto do amor de Deus quanto da dignidade do ser hu mano. Deus é amor. E o verdadeiro amor nunca força ninguém, seja externa, seja internamente. “Amor forçado” é contradição de termos.
Em terceiro lugar, a idéia do calvinista extremado conduz logica mente a uma negação da benevolência total de Deus, pois a Bíblia diz que “Deus é amor” (IJo 4.16) e que ele “ama o mundo” (Jo 3.16). “Para com Deus não há acepção de pessoas” (Rm 2.11 [ARA]), tião somente em sua justiça mas em todos os seus atributos, inclu indo o amor (Mt 5.45). A verdade é que se Deus é um ser indivisível, sem composição de partes, como os calvinistas clássicos crêem,19 então seu amor se estende a toda a sua essência, não apenas a parte dela. Em conseqüência, Deus não pode ser parcialmente amor; mas, se é todo-amoroso, então como pode amar somente alguns, a ponto de dar somente a eles o desejo de ser salvos? Se realmente ama a todos, por que não dá a todos o desejo de ser salvos? Segue-se, em análise final, que a razão pela qual alguns vão para o inferno é que 1 )eus não os ama e não lhes dá o desejo de ser salvos. Mas, se a razão real pela qual vão para o inferno é que Deus não os ama, não os
regenera irresistivelmente e não lhes dá a fé para que creiam, então a falha deles em crer resulta verdadeiramente da falta de amor de Deus por eles (v. cap. 2).
Suponha que um fazendeiro encontre três rapazes se afogando na sua represa, onde ele colocou sinais claros proibindo nadar. Porém, vendo a patente desobediência deles, diz a si mesmo: “Eles violaram a advertência e quebraram a lei e, por causa disso, sofreram as mereci das conseqüências”. Até aqui ele está manifestando seu senso de justi ça. Mas se o fazendeiro continua: “Não vou fazer nenhuma tentativa de salvá-los”, perceberíamos que alguma coisa está faltando em seu amor. Suponha, então, que, por capricho inexplicável, ele venha a declarar: “Embora esses rapazes estejam se afogando por causa de sua desobediência, pela boa vontade de meu coração vou salvar um deles e deixar os outros se afogar”.20 Em tal caso, certamente consideraría mos seu amor parcial e imperfeito.
Certamente esse não é quadro do Deus da Bíblia, que “tanto amou o mundo” (Jo 3.16) que enviou seu Filho para ser sacrifício, não so mente pelos pecados de alguns, “mas também pelos pecados de todo o mundo” (ljo 2.2); daquele cujo Filho “morreu pelos ímpios” (Rm 5.6) e não apenas pelos eleitos. Verdadeiramente, o Deus da Bíblia “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimen to da verdade” (lTm 2.4). O próprio Pedro fala dos que negaram “o Soberano que os resgatou” (2Pe 2.1; v. ap. 6).
Nem mesmo João Calvino foi um calvinista extremado nesse pon to (v. ap. 2), porque cria que, pela morte de Cristo, “todos os pecados do mundo foram expiados”.21 Comentando sobre “os muitos” por quem Cristo morreu, no texto de Marcos 14.24, Calvino declara: “A palavra
muitos não significa uma parte do mundo somente, mas toda a raça
humana”.22 Isso significa que pessoas como Jonathan Edwards, John Gerstner e R. C. Sproul, que crêem na expiação limitada, são mais extremados que o próprio João Calvino! Como conseqüência, ganha ram o título de “calvinistas extremados”.