Decididamente, a ética intercultural, de índole filosófica, representa a aposta pela reconstrução das condições discursivas fundamentais, requeridas por um diálogo que assegure o vínculo de reciprocidade entre os novos modos de vida. Essa exigência apresenta, pelo menos, três pressupostos que devem ser explicitados: a universalização, a diferença e a conflitividade. Em primeiro lugar, como já foi indicado, trata-se de uma modalidade teórica em torno da universalização do discurso humano – em uma tensão entre as ciências humanas e a filosofia que tratam da dinâmica da vida em comum. Em
função disso, é preciso reconhecer a virtualidade de um discurso argumentativo, que tolera uma pretensão de universalidade, em vistas a dar conta da conflitividade inerente à vida moral. A discussão, a partir desse primeiro pressuposto, é uma exigência inerente da vida moderna e da vida humana cotidiana.
O segundo pressuposto salienta que esta proposta tem raízes em contextos cul-turais, constituídos através das ricas experiências históricas de testemunhos, de inicia-tivas, de lutas e mobilizações de pessoas, de sujeitos históricos, de minorias étnicas e religiosas e de comunidades latino-americanas de vida, na defesa da construção de identidade e da justiça. Trata-se, então, de uma aposta teórica dialógica, em vista da reconstrução de tradições morais, isto é, da reconstrução de memórias definidoras dos caminhos a serem recorridos para alcançar uma mútua inclusão entre universalidade e diferença. Esse processo garantiria as novas interdependências entre os povos, cujos sentidos culturais das minorias articulam o conflito essencial com o fim de alcançar um determinado mundo comum para maiorias e minorias. Nesse sentido, o projeto ético não representa a mera tolerância, mas um novo modo intercultural de conviver recipro-camente.
Em terceiro lugar, a ética intercultural requer um pressuposto sócio-histórico e cultural, na procura de saber os sintomas conflitivos presentes, especialmente, nas sociedades latino-americanas que viveram, desde suas origens até as últimas décadas, signos de várias violências, de exclusões e de discriminações, as quais formam parte do patrimônio de nossas comunidades. Nesse sentido, a ética intercultural tracejada signi-fica, principalmente, uma reflexão filosófica dos símbolos e imaginários destes mundos culturais e sociais, caracterizados pela conflitividade e pela procura de formas procedi-mentais articuladoras dos sistemas de valores, de sistemas de mediação e de sistemas de conciliação de interesses. No decorrer da obra, iremos expondo como estes pressupos-tos, em relação a uma idéia de conflitividade mais depurada, devem ser entendidos.
Atualmente, é sabido que os conflitos inerentes à universalidade fáctica e intrín-secos à globalização são crescentes, cuja sustentação no tempo é muito frágil e contra-ditória. Existem problemas radicados na precariedade ecológica do planeta e na própria racionalidade instrumental, cuja ampliação a todos os homens e sociedades é pratica-mente impossível. Esse modelo unímodo e homogêneo dá consentimento a matérias éticas complexas, longamente debatidas nestes anos, cruciais para darmo-nos conta das dificuldades desta facticidade científico-tecnológica. Hoje, o terreno da ética, por exem-plo, demanda por questões muito complexas. Como determinar os limites da tecnologia e da ciência em seus processos de intervenção no corpo humano? Como conciliar os
inumeráveis interesses sociais e econômicos para cuidar e preservar a ecologia plane-mundial unipolar? Estas questões exigem uma ética aberta às limitações contingentes da facticidade e seu vínculo com a vida humana. No interculturalmente predominante, a epítome estaria numa visão do humano que – sem desconhecer sua estrutura ontológica como ser consciente e livre – incorpora as raízes contextuais do ecológico, do político e do social, os quais se encontram, intrinsecamente, unidos às raízes dos mundos de vida e ao impacto dos modos da racionalidade instrumental.
A conflitividade
Na nossa discussão intercultural, a categoria conflitividade tem relevância na formulação dos problemas históricos e sócio-culturais dentro dos quais cabe situar os problemas éticos. Todavia, não se trata de uma idéia de conflito entendida como um elemento estrutural e bipolar da sociedade de classes, mas de um conflito inerente às sociedades humanas. Essa conflitividade se “apresenta como um processo dinâmico de acordos e desacordos em diversos níveis.”14 Além do mais, o conflito é considerado como um elemento fundamental da deliberação humana e, portanto, fator chave para a compreensão do agir humano em sociedades concretas. O conflito é um elemento de-cisivo para as ciências humanas e a filosofia, que interagem em diversos âmbitos. Com certeza, o modelo do conflito contém implicações político-sociais, cujo reconhecimento é imprescindível. No entanto, assim como se reconhece o papel crucial do conflito, nem tudo pode ser reduzido ao conflito. Por isso, essa categoria também apresenta limita-ções: Sem dúvida, “o esforço para superar os obstáculos pode ser considerado como uma forma ou momento da sociabilidade, precedido por uma convivência que foi rom-pida ou cuja experiência da reconciliação seja dela resultante.”15 Não se trata de exage-rar o papel do conflito, mas de assumi-lo como um novelo de Ariadne.
O modelo da conflitividade, como um elemento central da cultura e da moral, foi bastante estudado por Maliandi. No caso, é possível, hipoteticamente, assumir sua proposição:
Entendo a conflitividade, precisamente, como um tipo de relação que con-juga a oposição e a mútua suposição entre os elementos inter-relacionados. Tais elementos, por sua vez, se ‘excluem’ e, ao mesmo tempo, se ‘incluem’, pois são complementares na constituição daquela unidade que, com a ir-rupção do conflito, corre o perigo de desintegração.16
14 ROIG, citado por PÉREZ ZAVALA, p. 162. 15 MORANDÉ, 1998, p. 93.
Essa definição permite, de este modo, considerar um tipo trágico de conflitos, o qual apresenta sérias dificuldades para a filosofia. É possível aceitar como hipótese que o conflito será entendido, de certa forma, como Maliandi o define, ou seja, como um adequado complemento da ética do discurso de Apel:
Embora seja uma ética que delineia, antes de mais nada, a possibilidade de resolução de conflitos, ela não consegue distinguir, suficientemente, as es-truturas conflitivas da realidade social. Tais estruturas não determinam os conflitos concretos contingentes, porque permanecem – como um a priori – além de sua solução. Assim, como o racional se vincula, sem dúvida, à solução (ou à minimização) de conflitos, constitui-se, ainda assim, na única instância a partir da qual essa conflitividade a priori pode ser reconhecida (inclusive por meio de ‘reflexão pragmático-transcendental’).17
Como é possível perceber, o conflito deve aparecer como uma estrutura cons-tituinte do diálogo intercultural. Ele será entendido como um determinado a priori da ação contextualizada, de forma que deveria ser entendido, então, sempre de forma plu-ral frente a contextos heterogêneos e, de uma forma ainda mais palpável, assumindo crescentes formas díspares e sendo plasmado em diferentes níveis discursivos. Nesse sentido, Kusch salienta que “o problema da América é a falta de tolerar possíveis racio-nalidades diferentes, quem sabe para encontrar uma racionalidade mais profunda, ou melhor, mais próxima a nossos conflitos.”18 É imprescindível reconhecer não apenas os conflitos que desarticulam os mundos de vida presentes em cada uma das socieda-des latino-americanas – que as morais emergentes presenciam. É necessário evidenciar também os múltiplos conflitos os povos e as comunidades vivenciam em suas relações com outros aglomerados, em um mundo econômico internacional que, se, por um lado, gera riquezas para os que se vinculam às redes de racionalidade estratégica, por outro, potencializa a iniqüidade, sob o impulso de uma globalização neoliberal que exige a desarticulação valorativa dos mundos de vida.
A pretensão está em demonstrar que a problemática da ética intercultural pres- supõe uma teoria dos conflitos em sociedades que exigem mediações entre a hermenêu-tica do sentido cultural e o modo pragmático da compreensão de um sujeito auto-im-plicado. Em outras palavras, os conflitos não podem ser definidos nem compreendidos sem um exercício de busca de espaços comuns de auto e hetero-reconhecimento, tanto no interior do próprio contexto cultural como fora dele, isto é, no contato com as outras culturas. Como fala Arpini,
Os modos concretos de afirmação da subjetividade, envolvendo o auto e o hetero-reconhecimento dos sujeitos como tais, constituem o ponto de partida – poderiam, de certa forma, ser pensados como condição de possi-bilidade – de uma hermenêutica do real, cujo sujeito não seja uma consci-ência transparente, mas os túrbidos sujeitos que interagem nas conflitivas práticas cotidianas.19
Este exercício teórico não pode ser completamente construído, dado o predomí-nio de um tipo de racionalidade monocultural, proveniente de um modo etnocêntrico de compreender a razão em sua totalidade e, ainda, dos interesses estratégicos fácticos das aglomerações poderosos.
Nesse sentido, a questão de uma ética intercultural parte do diagnóstico dos níveis crescentes de conflitividade, que a globalização carrega consigo, tanto dentro do próprio mundo de vida que habitamos como em relação às formas de coabitar os di-versos mundos de vida. Diante disso, pretende-se, então, assumir criticamente as ações humanas em meio desta rica e complexa história da reflexividade latino-americana, enraizada em multiformes histórias entrelaçadas de memórias e esquecimentos. Como disse Aguirre, trata-se de conceber que “o diálogo e a crítica são de fato e de jure as duas faces da mesma moeda, isto é, os dois pólos de uma mesma perspectiva, que fazem progredir o aprofundamento da reflexão e no encaminhamento da razão.”20
As opções e perspectivas éticas dos pensadores latino-americanos menciona-dos serão explicitadas em tais marcos históricos e contextuais. Elas serão teoricamen-te analisadas a partir dessa forma inteoricamen-tercultural de compreender a ética. Nosso esforço dar-se-ia por cumprido se, a maneira de apresentar as teses destes filósofos, contribua paramotivar a leitura mais detalhada de seus textos, nos quais encontramos amplos e profundos diagnósticos em torno dos discursos morais.