1 EDUCAÇÃO: CONSTRUÇÃO DE UM DIREITO SOCIAL
2.1. Traços Gerais da História do Ministério Público
Para fazer uma abordagem do atual perfil do Ministério Público brasileiro, instituído especialmente na Constituição da República de 1988, é necessário que se forneçam dados do seu desenvolvimento, ainda que de forma panorâmica, desde a possível origem no mundo das organizações dos Estados, iniciando pela antigüidade clássica, até a contemporaneidade.
Com as informações, será possível compreender, com certeza, a essencialidade dessa instituição destinada a ser guardiã do Estado Democrático de Direito, defendendo, de maneira aguerrida, os direitos sociais, quer seja com linhas escritas, ou verbalmente.
A história do Ministério Público leva a reflexões sobre os antigos Estados e sobre a trajetória política dos homens e das leis que instrumentalizaram a performance de atuação desse órgão.
Existem várias correntes que tratam da possível origem do Ministério Público, como apontam Rangel (2005), Zenkner (2006), Gomes Filho (2003) e Mazzilli (2005).
Segundo Rangel (2005), há autores que afirmam que a origem do Ministério Público se deu no cargo do magiaí, o qual era um funcionário real do Egito, na Antigüidade clássica, que exercia, em nome do rei, as funções de castigar os rebeldes, punir os homens violentos, proteger os cidadãos leais às ordens e aos princípios do reinado, promovendo a acusação na busca da verdade. Normalmente, essa função era conferida ao chefe político da cidade.
Ainda de acordo com Rangel (2005), as características embrionárias do Ministério Público também são encontradas nas atividades dos éforos de Esparta – que, embora juízes, tinham a incumbência de fazer a acusação, de modo a estabelecer um equilíbrio entre o poder real e o poder senatorial –, e dos tesmótetas
gregos, que, em Atenas, zelavam pela justa aplicação das leis perante o arcontado (junta de magistrados).
Gomes Filho (2003) ensina que também influenciaram para o surgimento do Ministério Público as funções dos romanos advocatus fisci, do defensor civitatis, do irenarcha, dos curiosi, stationarii e frumentarii, dos procuratores caesaris.
Leyete (apud Zenkner, 2006) frisa que os procuradores de César (procuratores Caesaris) não podem ser considerados exemplos da origem do Ministério Público, pois eles não passavam de administradores dos bens do imperador.
Também há citações da origem do Ministério Público na Idade Média com a figura dos saions germânicos ou dos bailios e senescais, incumbidos de defenderem os senhores feudais em juízo, ou dos missi dominici, ou dos gastaldi do direito longobardo, ou ainda do gemeiner anklager alemão, que era o acusador comum encarregado de exercer a acusação quando a vítima (particular) permanecia sem fazê-la (GOMES FILHO, 2003).
Tornaghi (1967) afirma que há quem veja no vindex religionis do direito canônico uma possível raiz do Ministério Público.
Mazzilli (apud Gomes Filho, 2003) ensina que a doutrina italiana procura ter o advocatus de parte pública ou os advocatus di comum della repubblica veneta, ou os conservatóri delle leggi di firenze como ícones da origem italiana do Ministério Público.
Entretanto, esses autores citados concordam que a grande maioria dos pesquisadores relaciona a origem do Ministério Público atual com a figura dos procureurs du roi (procuradores do rei) do direito francês, mediante a Ordenança de Felipe IV (o belo), rei da França, em 25 de marco de 1302, a qual disciplinou as atividades destes, determinando o juramento deles igualmente aos dos juízes e a proibição de patrocinar outros interesses que não os da coroa.
Por intermédio dessa lei, o rei da França demonstrou a intenção de se instituir uma magistratura diferente daquela que julgava, com independência para exercer suas atribuições em pé de igualdade com os juízes, tanto que os membros se situavam no mesmo plano do assoalho que eles, recebendo a denominação de Parquet – que em francês significa assoalho –, diferentemente das outras pessoas que falavam do chão. Porém, os juízes permaneciam sentados, ao passo que os
membros do parquet atuavam em pé, surgindo daí a alcunha de Magistratura de Pé (Magistrature debout), conforme ensina Rangel (2005).
Essa postura, ao que me parece, se encontra bem caracterizada em nossa cultura brasileira, tanto que o inciso XI do Art. 41, da Lei Federal n. 8.625/93 (LONMP), assegura ao Promotor de justiça o direito de assentar-se, nas audiências, ao lado direito do juiz.
Zenkner (2006), ao abordar a motivação da Ordenança de Felipe IV, afirma que a institucionalização dos procuradores do rei se deu para fortalecer a defesa dos interesses do reinado ante os interesses dos senhores feudais, bem como à crescente independência da magistratura após a queda do sistema feudal, centralizando a jurisdição nos magistrados, a qual cabia inicialmente ao soberanos.
Esses fatos colaboraram com uma melhor estruturação e organização da jurisdição e com a representação das partes junto à magistratura, centralizando-a no Estado, de modo a proporcionar o desenvolvimento da instituição encarregada também da defesa dos interesses do Estado, agora não mais com uma visão simplista de sinônimo dos interesses da coroa, mas, sim, sob a forte influência dos ideais liberais, que já davam forma à figura de um Estado Liberal mais democrático. Neste, o direito se dirigia aos interesses do povo.
Sob a influência iluminista, em agosto de 1670, Luís XIV outorgou a Ordennance Criminelle, que é considerada por muitos um dos marcos principais do início de autonomia do Ministério Público (ZENKNER, 2006).
A revolução francesa, em 1789, identifica, na idade moderna, a consolidação do Estado Liberal Clássico, que dissemina a idéia de que a liberdade, a igualdade e a fraternidade promoveriam equilíbrio de condições entre os homens nas suas relações jurídicas e sociais, gerando o desenvolvimento socioeconômico.
Em 1790, mediante decreto, o governo francês assegurou aos acusadores públicos a vitaliciedade em seus cargos, reforçando essa garantia no Código de Instrução Criminal de 1808 (ZENKNER, 2006).
Mais tarde, em 1879, a Corte de Cassação Criminal declarou a independência dos membros do Ministério Público em face da magistratura, explicitando a inexistência de subordinação junto aos magistrados que atuavam sentados, não devendo aqueles sofrer destes censura ou críticas quanto ao mérito de seus atos (RANGEL, 2005).
Michele-Laure Rassat (apud Mazzilli, 1996), diz que o perfil institucional do Ministério Público francês atual teve, nos textos da era napoleônica, seus marcos institucionais.
Para Zenkner (2006), essas regras básicas de estruturação das atividades dos procuradores do rei serviram de modelo para leis italianas, inglesas e portuguesas.
A Europa sofreu influências das legislações francesas, uma vez que, à época, a França representava o primado de Estado, tanto que a denominada revolução serviu de inspiração para os movimentos liberais daquele período.
Zenkner (2006) comenta que o tempo demonstrou que a simples liberdade proporcionava a igualdade e a fraternidade, as quais eram bandeiras guias do Estado Liberal. Ao contrário, ficou comprovado que os homens formaram grupos privilegiados pelo poder econômico, fazendo com que aquela idéia de equilíbrio nas relações entre os homens caísse em descrédito. Das reflexões, surgiu a proposta de dirigismo por parte do Estado, com o ideal de procurar equilibrar a relação entre hipossuficientes com os hipersuficientes e com o próprio Estado.
A contemporaneidade exigiu um aperfeiçoamento do Ministério Público, no sentido de promover a defesa dos interesses do Estado no âmbito da democracia, da legalidade, da moralidade, e das ações visando à efetividade das garantias fundamentais do homem, aqui amplamente incluído o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, à moradia, à saúde, e à educação, entre outros.
Há que se ressaltar, no entanto, que na condição de uma instituição pública, ela não se constitui acima das leis. Portanto tem seus limites institucionais e políticos.
Com esse panorama social, o Ministério Público afasta de vez aquela primitiva atribuição de procurador do rei para ser, por incumbência, o procurador do povo.
A respeito da expressão “ministério público”, Mazzilli (2005) ensina que ela é encontrada nos textos romanos clássicos em sentido amplo, significando as funções públicas de modo geral, representadas por todos aqueles funcionários do império. Entretanto, informa que no sentido específico de uma instituição, a expressão ministère public veio a ser usada primeiro pelos procuradores do rei, quando trocavam correspondência entre si falando de seus ofícios, depois passou a
ser empregada também em provimentos legislativos do século XVIII, às vezes para designar as funções próprias de um ofício público, outras vezes para identificar determinada qualidade de magistrado.
No Brasil, a expressão Ministério Público foi empregada pela primeira vez em texto de lei no Art. 18 e 192 do Decreto n. 5.618 (Regimento Interno das Relações do Império), em 2 de maio de 1847 (MAZZILLI, 1996).