2 SER SOCIAL: UM COMPLEXO DE COMPLEXOS
2.5 Traços gerais da tipologia dos complexos
Para Lukács, a partir dessas observações “escassas e fragmentárias” a respeito da esfera jurídica, pode-se tirar uma conclusão importante sobre o funcionamento e a reprodução dos complexos sociais parciais.Segundo ele, trata-se da necessidade ontológica de uma relativa autonomia e desenvolvida especificidade. De acordo com ele, esses complexos podem
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Novamente aqui se anotam aspectos que são úteis ao debate que busca compreender o lugar onde se encontra o Serviço Social na reprodução da sociedade, bem como até que ponto – necessariamente – sua “autonomia profissional” pode ir, sem intentar com essa afirmação, julgo pertinente observar, estabelecerlimites rígidos à atuação desse profissional; procura-seexclusivamente estabelecer, do ponto de vista ontológico, o exato lugar em que se encontra esse complexo social, de onde se deve partir para se entender o papel e se pensar a atuação desse profissional, intentando-se, dessa maneira, não fazer coro nem com as chamadas posições “fatalistas”, nem com as chamadas “messiânicas”, e menos ainda com as conservadoras. Este seria um autêntico tertium datur, porém diferente do proposto por Iamamoto, M. Serviço Social em tempo de capital fetiche. Capital financeiro, trabalho
e questão social. SP: Cortez, 2007, no sentido de sua relativa autonomia.
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cumprir sua função no interior do processo total tanto melhor quanto mais autonomamente desenvolvem suas especificidades:“[...] é uma situação na qual se encontram todos os complexos ou as estruturas que o desenvolvimento social produz”, diz.
Lukács explica que ao considerar de perto dois complexos de natureza diversa – o da linguagem e o do direito –, quis “acima de tudo... precisar um pouco a esfera dos problemas e o tipo de abordagem do ponto de vista ontológico”.Segundo ele, o objetivo foi mostrar “o quão diversamente são estruturados estes complexos, como cada um deles requer um estudo particular da sua gênese, do seu funcionamento e – se for o caso – da perspectiva da sua extinção” 196 , para que seja então verdadeiramente conhecida a sua especificidade ontológica.Dessa forma, ele termina por nos legarna forma de um precioso arsenal teórico importantes eixos investigativos de corte ontológico, além de apontar com sua abordagem formas de lidar com os problemas nos quais cada complexo se encontra situado.
Assim, paraseguir com o esboço acerca da tipologia geral dos demais complexos,Lukács nos diz, a partir dos exemplos escolhidos, que cada complexo singular operante na sociedade dispõe de uma ou mais das características (ou inter-relações) comuns a todos os complexos, como espontaneidade ou participação desejada ou consciente, universalidade e delimitação por outros complexos, ou diretamente da totalidade. Além de serem determináveis com exatidão, “no plano conceitual-metodológico é possível defini-los com precisão em relação a todos os outros complexos”197.
A linguagem, por exemplo, pode figurar como médium, como portadora da comunicação, em todos os complexos do ser social e, ainda que isto em outros complexos não se apresente com a mesma nitidez, todavia acontece com frequência que os complexos singulares se sobreponham, se penetrem reciprocamente um com o outro, etc. mas sem que jamais venham diminuídas a autonomia e a auto-legalidade – bastante relativas – e a exata determinabilidade dos complexos singulares (Ibidem, p. 226).
A mediação entre cada complexo singular e um indivíduo singular é feita pela consciência de pessoas singulares que agem na sociedade (não importa se esta seja justa ou falsa). Por conta disso, “não há na prática nenhum indivíduo – e quanto mais desenvolvida é a sociedade, tanto menores são as exceções – que, no curso da vida, não chegue a entrar em contato, de forma variada, com múltiplos complexos”198. Contudo, a depender da forma como
196 Ibidem, p. 224-25. 197Ibidem, p. 225-26. 198 Ibidem, p. 226.
a consciência em questão seja plasmada, como se processem nela as transformações advindas do seu contato prático com esses complexos, a personalidade do indivíduo em questão pode sofrer certa ‘parcialização’ ou deformação.De acordo com o autor, todas as determinações reais da personalidade advêm“das suas relações práticas com o ambiente social, com as outras pessoas... com os complexos nos quais a sociedade global concretamente se articula”.Como sempre na vida humana a práxis do indivíduo possui um caráter de alternativa, “estas interações podem desenvolver e consolidar sua personalidade, dando-lhe riqueza interior, ou retalhar a unidade em ‘parcelas’”199. O conjunto de questões que daqui derivam se aproxima do fenômeno da alienação, que é tratado em detalhes pelo autor em outra parte da sua Ontologia.
Por fim, após essa exposição da sociedade como complexo de complexos, passaremos agora à análise do complexo total nas suas conexões internas, à abordagem do momento predominante.
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Nesse trecho, Lukács trava uma polêmica – de fundo – contra o existencialismo. Sobre este, ele diz: “Dado que a civilização atual produz esta deformação em escala massiva, é fácil entender por que os movimentos que a ela se opõem de modo abstrato, como o existencialismo, enxerguem o seu ideal na personalidade que repousa sobre si mesma, livre de todo vínculo deformante deste gênero” (Ibidem, p. 227).
3 PROBLEMAS DE PRIORIDADE ONTOLÓGICA
A compreensão da dinâmica pela qual o complexo da sociedade se reproduz vai além do entendimento de cada um dos complexos que a constitui e das interações recíprocas que entre eles se verificam. A captação da determinação decisiva do funcionamento real da sociedade como complexo, da dinâmica da sua reprodução, passa pela compreensão do momento predominante.
Destarte, neste último capítulo, iremos analisar a questão do momento predominante, as consequências da prioridade ontológica da reprodução ontogenética em relação àquela filogenética e os seus desdobramentos específicos no ser social, assim como mostraremos como se constitui a prioridade ontológica do “ser-precisamente-assim” no interior do processo social.