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Trabalhadoras rurais sem terra: acampadas, assentadas, militantes

3. Sobre as fontes coletadas

4.1. Trabalhadoras rurais sem terra: acampadas, assentadas, militantes

As trabalhadoras rurais sem terra do Pontal do Paranapanema se articularam dentro do MST criando, como destacamos, uma estrutura organizativa específica: o Coletivo de Gênero. Um espaço de poder que as identifica coletivamente no seio de um movimento social liderado por homens. Uma leitura feminista deste fenômeno nos levaria a discutir o caráter discriminatório desta segregação dentro do movimento e os seus porquês, algo que está fora dos nossos objetivos. Não obstante, às sucessivas mudanças de nomenclatura, do Coletivo de Mulheres para o Coletivo de Gênero, deste ao Setor de Gênero para voltar a ser um Coletivo novamente, parecem indicar a vontade de superação desta segregação e a complexidade que isto representa na pratica diária destas militantes, muito mais que uma simples mudança de nome.

Além desta forma de participação diferenciada em movimentos sociais, as trabalhadoras rurais no Brasil incrementaram a sua visibilidade coletiva através do sindicalismo oficial. O departamento rural da CUT e a COTANG foram as primeiras organizações em mobilizar as mulheres sob as bandeiras de reconhecimento de direitos trabalhistas e previdenciários e demanda de aceso a serviços de saúde, desde meados dos anos 1980.

Foi no ambiente de socialização política aberto pelo MST e os sindicatos pró-CUT, onde se forjou no Rio Grande do Sul o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR) o movimento autônomo de mulheres mais forte e numeroso do Brasil e de maior crescimento dentro do amplo leque de movimentos sociais nos últimos tempos. Este movimento passou a definir-se como Movimento de Mulheres Camponesas do Brasil (MMC-Brasil) em março de 2004,

ligando-se à Via Campesina. A autonomia deste movimento supôs, na história da mobilização social brasileira, a materialização de passos que antes as organizações de mulheres não puderam realizar.

Mas, no início dos anos 1990 o MMC percebeu que a luta por direitos trabalhistas, aposentadoria, previdenciários ou aceso a serviços de saúde, alvo de reivindicações das mulheres rurais, tinha que se unir à discussão sobre a reprodução e as relações homem-mulher. Este fato inaugura uma nova etapa nas organizações de mulheres.

Nos assentamentos e acampamentos do MST no Pontal do Paranapanema, observamos como grupos organizados de mulheres viabilizam a reivindicação formal dos seus direitos, além de incrementarem a percepção crítica sobre a condição de desvalorização na qual se encontra a mulher trabalhadora no campo. Porém, são as trabalhadoras acampadas e as militantes, com funções de coordenação ou representação, quem protagonizam e vivenciam essa outra dimensão da Luta pela Terra.

Os depoimentos das assentadas e assentados que viemos apresentando evidenciam o cativeiro da terra, da casa, do lote, do espaço, muito marcante na mulher assentada. Além dos condicionantes materiais é significativo o peso dos papéis de gênero e de representações mulher-mãe e mulher-esposa, que fazem destas trabalhadoras prisioneiras destes espaços.

O isolamento e a ausência de mobilidade são percebidos pelas assentadas, que vêem nas companheiras da militância ativa mulheres que podem ir e vir. Mas também são cientes do preço que as mulheres têm que pagar por esta “liberdade”: a censura moral e social da comunidade e dos próprios companheiros de luta.

Segundo Pinto (1992), os movimentos sociais de caráter popular são locais de práticas de resistência às desigualdades contidas nas relações de gênero. Não

obstante, a importância da participação de mulheres neles não implica, necessariamente, a sua transformação em feministas, mas faz com que a sua posição na rede de poderes dentro da própria organização do assentamento e do acampamento, seja transformada.

Para Pinto (1992), da inserção da mulher nos movimentos sociais de caráter popular derivam-se três situações. Em primeiro lugar, a mulher que deixa de atuar nos limites do privado provoca novas relações no interior da família e com a vizinhança e amigos. Em segundo lugar, a mulher passa a articular, no interior do movimento, lutas diferenciadas em relação aos seus companheiros homens. Uma terceira situação seria a referente àquelas mulheres organizadas em torno de aspectos tradicionalmente femininos que passam a questionar a própria condição de mulher.

A primeira das situações é generalizada nos territórios da luta. A participação da trabalhadora implica a ruptura com a sua invisibilidade pública. A ruptura que isto supõe é feita sob tensões no seio familiar. A decisão de participar, quando se realiza de forma autônoma, é usualmente acompanhada da resistência de pais, mães, familiares, mas principalmente, dos companheiros. Esta resistência é muito maior no assentamento, onde as funções sociais de gênero sob a ideologia hegemônica são mais nítidas.

Também pudemos constatar que a carência de poder da mulher na tomada de decisão dentro do casal é o limite para a sua participação efetiva na vida pública, associativa e comunitária sendo, para a grande maioria das entrevistadas, uma proibição explícita dos companheiros.

A quebra do cotidiano familiar, tanto para as mulheres trabalhadoras militantes coordenadoras ou membros de determinados setores dentro do movimento, quanto para as assentadas que se organizam em comisões, é um fato.

O desenvolvimento da dimensão pública da sua vida pressupõe além de novos saberes, novas informações que redefinem as relações de poder em nível

privado. O embrião dessas mudanças é a nova divisão de tarefas que se realiza no lote. Todavia, longe da eqüidade de gênero na participação no trabalho reprodutivo, uma das respostas da inserção das assentadas e acampadas nas organizações de mulheres que observamos é que elas constituem os canais para repensar a sua condição no seio familiar valorizando o seu papel social.

Também, durante o nosso convívio em assentamentos do Movimento, pudemos verificar que a maior parte dos militantes que compõem ou representam o Coletivo de Gênero, nos respectivos assentamentos, continuam sendo mulheres, quando não são as únicas. Contudo, é importante destacar que este foi e é um espaço de visibilidade conquistado exatamente por essas mulheres. A sua trajetória de militância política as destaca, pois são as que decidem fazer-se ouvir nas assembléias dos assentamentos, tanto as organizadas pelo movimento quanto as reuniões por grupos que técnicos do ITESP realizam periodicamente nos assentamentos. O fato de a mulher assentada transgredir a invisibilidade a partir destas incipientes incursões na esfera pública representa um logro no caminho da emancipação da sua condição subordinada de gênero.

Acreditamos que este processo de ruptura é o que concretiza o novo caminho na construção de relações sociais de gênero nos lugares da Luta pela Terra e, aliás, a possibilidade de um salto escalar quantitativo em função dos fortes limites econômicos, culturais, morais e físicos que nos que as trabalhadoras sem terra estão inseridas.

Se focarmos agora nossa atenção para o espaço e sua organização, podemos constatar como o mesmo sistema de gênero que diferencia social e culturalmente homens e mulheres, desenha também um tipo de relações espaciais. Referimos-nos aos lugares da diferencia construídos pela ideologia de gênero presente nos assentamentos e acampamentos rurais do MST.

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