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Trabalhar, pedir, estudar, brincar, roubar

No documento A porta entreaberta : (páginas 101-106)

Dos 5 filhos vivos de Dona Maria, o mais velho já foi preso duas vezes As três filhas, com 13, 12, 10 anos e o filho mais novo, Rodrigo (8), vendem bala no

E- E porque tu vendes? E ela respondeu, sem mudar o tom de voz V: Porque precisa

3.3 Trabalhar, pedir, estudar, brincar, roubar

Entre as estratégias de sobrevivência utilizadas pelos os grupos familiares diariamente não estão ligadas somente à sua condição de pobreza, mas a valores próprios que, interagindo com o de outros grupos na cidade, vão sendo negociados, reelaborados, redefinidos. Além do trabalho aparecer como um valor importante, o conceito de infância se diferencia, em alguns aspectos, daquele que a define como fase frágil da vida. A infância nestes grupos, toma dimensões diferentes daquela conceituada como a ideal.

Se a psicologia recomenda que a criança primeiramente interaja com o mundo através de brincadeiras, para somente depois passar a freqüentar a escola e entrar no (longo) processo de escolarização e, finalmente, quando adulta, depois de ter desenvolvido suas habilidades e escolhido uma profissão, passar a exerce- la, sabemos que a realidade nem sempre possibilita esta mesma seqüência. As três atividades: brincar, estudar e trabalhar são significativos para o grupo estudado, mas não necessariamente nesta ordem. Para as famílias, a criança deve aprender

logo a fazer alguma coisa, ou seja, aprender um oficio, mesmo antes de começar seu processo de escolarização. A formação escolar aparece como uma necessidade para os filhos se prepararem para o futuro, mas fica claro que é a possibilidade de

"arranjar um trabalho melhor" que os impulsiona a fazer tal investimento.

Em algumas famílias, o estudo é quase uma contrapartida para com o Estado quando a criança trabalha. As mães, ao serem cobradas sobre o trabalho das crianças, alegam que as crianças estão estudando direitinho. É muito comum as crianças serem matriculadas na escola e freqüentarem no começo do ano, mas abandonarem-na antes mesmo das férias de julho. Os motivos citados para a criança não freqüentar a escola são bem variáveis, mas em muitos casos é a própria criança que oferece resistência. Numa das famílias a mãe expressa o desejo que a filha adolescente estude, porém esse desejo soa como algo distante, um sonho para o futuro.

Entre os adultos, as categorias gente estudada, gente não estudada aparecem como uma forma de identificação contrastiva. No entanto, ser gente não estudada pode ser visto como positivo se, apesar de não ter estudado, a pessoa souber falar com gente estudada sem receios.

Eu tenho muitos amigos mas eu sei falar com gente estudada, sabe? Eu não estudei porque não soube aproveitar... Tinha um cara que queria me ajudar nos estudos, mas eu não dei bola... Meu hobby é a leitura, mas eu não continuei estudando...

Outro senhor faz um comentário parecido: eu falo com qualquer um estudado

por ai. Eu não estudei, mas eu não perco não. Falo com as autoridades, no rádio, na televisão quando precisa falar alguma coisa na comunidade.

A escola se apresenta mais como uma obrigação na educação dos filhos do que como um "trampolim" social ou econômico em si. Ela é sim, um lugar para a criança ficar quando a mãe trabalha e não tem com quem deixar. E ainda assim, as instituições que atendem as crianças em período integral cumprem melhor este papel. Ela não é o principal espaço de socialização das crianças consideradas nesta pesquisa. A escola pode significar para estas crianças o espaço onde elas são estigmatizada por sua condição de pobre ou por sua incapacidade de

acompanhar os demais coleguinhas. A mãe de Alex vivia achando desculpas para o fato do filho não querer freqüentar a escola. Dizia que sua incapacidade de aprender era devido a meningite, que tinha tido a alguns anos. Porém, suas duas filhas mais velhas também não estudaram por muito tempo. Dificilmente passam da 5U série.

Entre o trabalho e as brincadeiras, o trabalho ocupa uma posição mais importante12. As brincadeiras fazem parte do cotidiano destas crianças - aliás, o bom humor, as diversas brincadeiras que envolvem grupo, são muito presentes nas comunidades, porém, antes de brincar, a criança precisa realizar uma série de tarefas, sejam elas domiciliares ou não. Esta rotina recai principalmente sobre a criança que estuda. O tempo para a brincadeira é geralmente ao cair da tarde, depois de todas as tarefas prontas. A impressão que a professora de Angela teve da garota de dez anos é elucidativa, "a menina, da última vez que a encontrei parecia

uma moça. Falou comigo de igual para igual. Só sei que é uma criança quando ela vem aqui para brincar. A impressão de se estar conversando com um adulto em

miniatura era comum quando abordava as trabalhadoras13. Estas assumem as tarefas como adultos. A fase da infância onde a brincadeira é a principal atividade desenvolvida pela criança dura poucos anos, e mesmo assim, a criança acompanha os pais, seja porque não tem onde ficar, participando assim do dia-a-

12 Pinto (1995) em pesquisa realizada no Bairro Monte Cristo também identifica o trabalho como uma atividade mais importante que estudar ou brincar.

13 Adorno (1991) também encontra nas crianças por ele inquiridas esse fenômeno. Revelam uma compreensão adulta do mundo, na medida em que inserem o trabalho como componente estruturador da existência de si e dos outros.(1991, p. 192).. O autor continua o texto dizendo que ao mesmo tempo, revelam dificuldades de abstração, de compreensão desse mesmo mundo por outras mediações que não sejam a da relação tête-a-tetê, da busca imediata de soluções para problemas cotidianos, de enfrentamento dos outros por outra linguagem que não seja a da violência como um modo de ser. Apesar de ter percebido em campo que as crianças se comportem como um adulto, percebo, no entanto que elaboram inúmeras outra formas de comunicação. A afetividade, a jocosidade, as brincadeiras entre eles e entre alguns amigos na rua são visíveis. Em algumas conversas podia ouvir suas abstrações sobre a própria vida, inclusive reflexões sobre a condição imposta pela na rua. Leczniesk (1995) estudando a linguagem dos "guris de rua" em Porto Alegre, levanta a hipótese de existir uma percepção particular das idades da vida entre grupos populares. O título de sua dissertação é elucidativo - "Pequenos Homens Grandes". A autora também percebe por uma infinidade de vezes, observando determinadas atitudes dos guris, sua organização no trabalho, suas poses, roupas, representações acerca do sexo, brincadeiras, duelos verbais e corporais a importância dada à coragem, à força e à virilidade, sentia como se estivesse em meio a homens em miniatura. (1995, p. 21)

dia do trabalho dos adultos (como pude observar entre os papeleiros), seja para servir como um atrativo no colo da mãe que vai mendigar.

Além disso o trabalho infantil em casa é valorizado. A pessoa

"trabalhadeira", que ajuda em casa é valorizada pelo grupo doméstico. Ter os

filhos trabalhando é visto positivamente por seus familiares. Este aí, sim, ajuda 11a

casa.

A criança, é estimulada a trabalhar seja pela autoridade paterna, seja pelo significado do valor atribuído a ela quando ajuda a sustentar a casa. Ela precisa, desde muito cedo, aprender a fazer qualquer coisa para poder ajudar o grupo familiar. Esta ajuda no sustento doméstico tem um duplo sentido: sustentar no sentido de prover, e sustentar no sentido de manter unida, já que ela é uma importante personagem na construção das redes de relações na comunidade ou mesmo fora dela. Esta ajuda por parte da criança, no sentido de prover, passa, muitas vezes, a ser a principal fonte de subsistência do grupo. Neste caso é ela a provedora da casa.

Além disto, as crianças, muitas vezes conseguem muito mais dinheiro numa tarde que seus pais trabalhando o dia todo. As meninas que vendem bala, conseguem arrecadar em média de 10 a 20 reais ao dia. Uma empregada doméstica, segundo Dona Tetê, ganha em média um salário mínimo ao mês, o que corresponde a mais ou menos 15 dias de trabalho de uma criança. Patrícia, que vendia balas de banana, disse comprar um saco de balas por 2,50 . Um saco dá

pra fazer mais ou menos 20 saquinhos de balas, que são vendidos a 1 real cada. Se a

criança consegue vender os vinte pacotes, terá no final do dia 20 reais, que descontado o custo das balas e a passagem do ônibus, lhe dará um lucro aproximado de R$ 15,00.

Trabalhar também aparece em oposição a roubar. Roubo para as crianças trabalhadoras é coisa de malandro, de "menino de rua". Para eles é muito melhor

Numa visita a uma instituição educacional no Monte Cristo, observei um cartaz feito por uma garota de 07 anos, afixado entre outros na parede do corredor. Ilustrava uma criança com as mãos estendidas e abaixo do desenho uma mensagem com letras tortas, anunciava: "Pedi é mais bonito que robá". O cartaz chamou especial atenção por ser uma instituição que trabalha com crianças que estão constantemente no Centro pedindo ou trabalhando. A mensagem revela uma moral que já observara em outras ocasiões, entre crianças e adultos naquela comunidade. Ouvira esta expressão também no ônibus e nas ruas do Centro e quando dita por alguém que pedia, soava como uma justificativa do seu ato. Como a convencer o outro ou a platéia da moral incutida no seu ato: eu tô pedindo

não tô roubando.

O mesmo significado parecia ser assumido quando dizia-se: eu tô

trabalhando, não tô roubando. Conforme vimos no capítulo anterior, este frase foi

utilizada por um pedinte no ônibus para diferenciar-se de ladrão. Este pedia ajuda às pessoas para comprar uma caixa de engraxate para trabalhar, ao perceber que algumas pessoas se ressentiam em ajudá-lo, anuncia: eu tô pedindo,

eu não tô roubando igual um menino de rua. Eu tô pedindo para trabalhar, não estou roubando.

Numa das famílias, o roubo é claramente incentivado pela mãe. Diversas vezes a vi recebendo mercadorias que seus quatro filhos haviam roubado no Centro. Um deles, ex-morador de rua, acostumado a roubar nas lojas do Centro fraldas descartáveis, copos, panelas, pratos, vasilhames domésticos, roupas (principalmente infantis), perfumes, etc (objetos que levava para a patroa, como ele mesmo se referia à sua mãe), olhou para mim um certo dia e perguntou: a

senhora é rica? Respondi-lhe que se estava se referindo a ter muito dinheiro, bens,

então eu não era rica. Ele retrucou prontamente, com uma resposta que soou ensaiada para ocasiões como esta: Ahhhhhhh, pensei que a senhora fosse riiiiiicaa;

porque se fosse ia ter que dividir com os pobres. Todo rico deve alguma coisa pro pobre.

Neste mesmo dia, levantou-se lentamente de um dos bancos ao redor da figueira na Praça XV, local onde estávamos todos "repousando", ergueu a camisa,

espreguiçou-se longamente, esfregou a barriga com as duas mãos, com um olhar meio perdido no infinito, lembrando um trabalhador saindo do descanso para iniciar sua atividade e diz: vou fazer a distribuição de renda... e saiu em direção à Rua Felipe Schmidt, de onde voltou depois de uma hora e meia aproximadamente, com alguns objetos na camisa, fruto da "distribuição de renda"14.

Entre as estratégias de sobrevivência dos meninos de rua a mendicância, o roubo e o tráfico são as mais usadas. No entanto, podem também negociar pequenas coisas Se são considerados por algumas crianças trabalhadoras como ladrões, alguns deles acham que as crianças trabalhadoras são umas otárias.

Porque eu vou trabalhar se tem um otário que trabalha para mim. Lurdinha mesmo

advertiu um menino que ingressava na rua: tu pensas que viver na rua é só pedir, é?

No documento A porta entreaberta : (páginas 101-106)