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O trabalho de campo

No documento Aline Souza Nascimento (páginas 42-46)

2. CARACTERIZAÇÃO DO SÍTIO DE ESTUDO E METODOLOGIA

2.3. O trabalho de campo

A inserção em campo aconteceu em duas etapas: em julho/2019 quando foi realizada pesquisa exploratória e em fevereiro-março de 2020, durante a qual foram visitados os nove povoados, localizados nos municípios de Lago Junco (Centrinho do Acrísio, Ludovico, São Manoel, Centro Aguiar, Bertolino e Sítio Novo) e Lago dos Rodrigues (Três Poços, São Francisco e São João da Mata).

Na primeira etapa foram realizadas entrevistas com sócios fundadores e sócios recentes da Coppalj. Na oportunidade, participei da reunião de prestação de contas da cantina de São Manoel, realizada na igreja católica da comunidade, onde foi apresentado o balanço das atividades financeiras, que seria exposto na reunião do Conselho da cooperativa, e definido pautas para discussão na Assembleia que a sucederia.

Em seguida, participei dessas duas atividades que aconteceram na comunidade Três Poços, em Lago dos Rodrigues. Na reunião do Conselho participaram somente cantineiros e coordenação, enquanto da Assembleia, além destes, estiveram presentes sócios e

43 interessados em se associar, assim como representantes de sindicatos de trabalhadores rurais e técnicos da Assema. As discussões passavam pela prestação de contas, projetos de repartição de benefícios, certificação orgânica, selo de comércio justo, filiação de novos sócios e eleição. A presença nessas atividades foi estratégica para compreender melhor o funcionamento da cooperativa e ter acesso a informações que são obtidas somente em ações como essas. Do mesmo modo, foi fundamental para estabelecer contato com sócios por mim desconhecidos, tendo em vista que, em virtude de trabalhos anteriores, possuía um prévio contato apenas com algumas das pessoas presentes. Finda a Assembleia, segui para a comunidade São João da Mata, onde dei continuidade às entrevistas.

Na segunda etapa, as visitas aconteceram num período de fortes chuvas na região, quando as estradas vicinais ficam praticamente intrafegáveis, havendo momentos em que a locomoção só é possível com motocicleta. O único transporte coletivo existente nas comunidades é um caminhão do tipo “pau-de-arara” pertencente à cooperativa e, durante o inverno, nem ele e, muitas vezes, nem os transportes particulares conseguem trafegar nos caminhos que lhe dão acesso. O fato de alguns trabalhos estarem suspensos possibilitou a disponibilidade de alguém que me apoiou no transporte às comunidades, mesmo sob essas condições. Assim, fui apoiada por Afonso, marido de Alice, um jovem casal da comunidade São João da Mata, na casa de quem fiquei hospedada.

Conheci Alice e Afonso ainda na graduação, pois éramos orientadas pela mesma professora. Na época, sua filha Laura ainda era pequena, e Afonso acompanhava a esposa todos os dias à universidade para cuidar da criança, enquanto a mãe estava em aula, pois Laura ainda era amamentada. Alice atualmente é professora e Afonso não tem emprego fixo. Quando estive em sua casa, seu trabalho mais recente havia sido de pedreiro, paralisado devido às chuvas. O contato prévio existente, o fato de serem um jovem casal e estarem sem atividades durante aqueles dias, me deixou mais à vontade, visto que enquanto pesquisadora, ao me hospedar nas casas e me deparar com a quantidade de tarefas diárias que as famílias possuem, a sensação é de estar incomodando. Além disso, as famílias têm resistência em aceitar apoio financeiro, o que aumenta ainda mais o desconforto de sobrecarregá-las – situação que vivi na casa de dona França, uma senhora residente em Ludovico que gentilmente me acolheu. Num segundo retorno a campo foram seu neto João

44 Marcos e seu sobrinho Ildo Lopes (ou Chapada, como é popularmente conhecido), que me acompanharam.

Em algumas comunidades minha presença não era estranha, pois já as havia visitado quando trabalhei para a Assema, no ano de 2018, o que facilitou a articulação e a entrevista com alguns informantes. Mas nem sempre era assim, pois muitos sócios da Coppalj não estão concentrados onde há cantinas instaladas, mas nas adjacências, o que muitas vezes exigiu que nos deslocássemos até lá.

Não sócios costumavam ser mais fechados e nem sempre se sentiam à vontade para fornecerem informações, provavelmente por terem incutido a ideia de que, por não serem sócios, não possuem legitimidade para falar acerca da Coppalj. Em virtude disso, mobilizá-los para participar dos grupos focais se constitua um desafio, afetando a quantidade de reuniões realizadas. Tal postura é diferente da observada nos sócios fundadores, que corporificaram a ideia de compromisso político com a cooperativa, perceptível no discurso, na postura crítica e na abertura ao diálogo. É como se, ao falarem da organização, estivessem exercendo um dever enquanto cooperado.

Dentro do grupo de não sócios há algumas diferenciações. Há aqueles que: 1) mantêm uma ligação política com a cooperativa; 2) outros cuja ligação ocorre através de benefícios recebidos; 3) e os que não possuem nenhum desses vínculos. Dos não sócios do terceiro grupo era comum ouvir que tudo o que eles possuem atualmente é resultado do seu próprio esforço, enquanto não sócios do segundo costumavam avaliar positivamente e ressaltar os benefícios que já receberam da cooperativa, e os primeiros serem mais ponderados nas suas avaliações devido à relação de parceria que mantêm com ela. Era comum um único grupo reunir pessoas com estas diferentes opiniões e ao atribuírem nota avaliativa entrarem em um consenso. No grupo de sócios recentes também foram observadas distinções. Há aqueles que, por estarem envolvidos politicamente ou serem filhos de sócios fundadores, conhecem o contexto de surgimento da Coppalj e conseguiam avaliar mais criticamente sua atuação em todas as dimensões. Por outro lado, há aqueles que não são engajados politicamente e que a única dimensão que conseguiam avaliar era a econômica. Todos estes fatores, logicamente, se refletiram na atribuição das notas.

Em algumas visitas contei com o apoio de cantineiros. Contudo, houve momentos em que não puderam devido ao trabalho na cantina, o que afetou duramente a realização

45 dos grupos focais. Nas comunidades as famílias sempre têm múltiplas atividades e há dias e horários exatos para cada. Além disso, há as atividades extracomunitárias que exigem o deslocamento para outros povoados ou à sede do município, então qualquer visita inesperada pode afetar o andamento dos trabalhos e a organização familiar. Por esse motivo, íamos previamente para falar sobre a pesquisa, combinar dia, horário e local e organizar as reuniões em grupos focais por categoria (gênero, faixa etária e nível participativo).

A divisão dos grupos por categoria nem sempre foi possível. Em algumas comunidades, por exemplo, as pessoas só tinham tempo à noite, por isso os maridos sempre acompanhavam suas esposas, talvez mais por curiosidade, e terminavam participando das discussões mais do que elas. Nas ocasiões em que essas situações aconteceram optei por não barrar a participação deles, visto que suas opiniões em diversos momentos contrastavam das opiniões femininas, sendo mais viável adotarmos dois questionários, pois possuíam percepções interessantes. Em outros momentos, não havia pessoas para integrarem as três categorias ou essas moravam em lugares diferentes e tinham viagens no dia combinado, nos levando a realizar as reuniões que fossem possíveis, e optarmos por entrevistas individuais diante da inviabilidade dos encontros em grupo.

Desse modo, o cronograma de atividades que havíamos previsto foi sendo modificado em virtude da necessidade de nos adaptarmos aos imprevistos que extrapolaram os que havíamos imaginado no momento da preparação para campo. A realidade foi determinando os caminhos da pesquisa e boa parte do que foi planejado se tornou expectativa.

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No documento Aline Souza Nascimento (páginas 42-46)