5 DELINEANDO A METODOLOGIA: os caminhos escolhidos
5.2 Trabalho de campo
Estávamos em efetivo exercício de docência na turma em que ocorreu o estudo, logo, pois, conhecíamos a realidade do campo (escola). No decorrer da investigação, realizamos uma pesquisa que teve um caráter exploratório e interventivo. Em conformidade com Mattar (1994), a pesquisa exploratória:
[...] visa prover o pesquisador de um maior conhecimento sobre o tema ou problema de pesquisa em perspectiva. Por isso é apropriada para os primeiros estágios da investigação, quando a familiaridade, o conhecimento e a compreensão do fenômeno por parte do pesquisador são geralmente insuficientes ou inexistentes (MATTAR, 1994, p. 84).
A pesquisa exploratória revelou-se como uma importante ferramenta no período inicial da investigação, quando foi necessário o aprofundamento acerca dos eixos temáticos do estudo (gênero-estereótipos de gênero/leitura crítica/anúncio publicitário), assim como no transcorrer dele, quando nos deparávamos com conceitos e/ou situações que requisitavam análise e detalhamento.
Gênero é um conceito complexo que demanda estudo e reflexão para ser compreendido.
Foi durante a pesquisa exploratória, que depreendemos, principalmente a partir dos escritos de Connell e Pearse (2015, p. 48), que “gênero diz respeito ao jeito como a sociedade lida com os corpos humanos e sua continuidade e com as consequências desse lidar para nossas vidas pessoais e nosso destino coletivo”, e, a partir disso, pudemos iniciar o nosso caminhar com segurança. Por isso, levantamos, aqui, a relevância dessa fase da pesquisa, pois conforme enuncia Richardson (1989, p. 281), “A pesquisa exploratória procura conhecer as características de um fenômeno para procurar explicações das causas e conseqüências de dito fenômeno”.
O machismo e o sexismo arraigados em nossa sociedade originam os estereótipos de gênero, os quais norteiam o comportamento de homens e de mulheres, sendo bastante cruéis com estas, dado que as reprimem e oprimem. Enxergamos a persistência da utilização de estereótipos de gênero como uma problemática. E a nossa experiência docente aponta para duas realidades cruéis: 1) palavras/expressões e comportamentos machistas/sexistas fazem parte do cotidiano de meninos e de meninas como se isso fosse o natural; 2) habituados/as a realizar decodificações, os alunos e as alunas não conseguem, com o passar dos anos, ampliar a sua competência leitora e têm muita dificuldade para produzir sentidos a partir do que leem, o que contribui para a normalização e para a disseminação dos estereótipos de gênero praticados por eles/as.
Isso despertou a nossa inquietação e o desejo pela discussão de pautas fundamentadas nas relações de gênero, para que fosse possível não apenas discutir, mas interferir no processo de perpetuação do machismo/sexismo, tentando desconstruir, no ambiente da pesquisa, estereótipos de gênero naturalizados pela sociedade. Segundo Moresi (2003, p. 9), “A pesquisa intervencionista tem como principal objetivo interpor-se, interferir na realidade estudada, para modificá-la. Não se satisfaz, portanto, em apenas explicar”. Foi isso que nos propusemos a fazer: intervir na realidade, produzindo mudanças significativas para os sujeitos, visto que, em conformidade com Suomala et al (2010), o papel do pesquisador, na intervenção, é o de facilitador da mudança, não se restringindo apenas à observação, logo ele exerce influência no contexto pesquisado.
Consoante Grønhaug e Oslon (1999), há alguns procedimentos que devem ser seguidos para se realizar uma pesquisa intervencionista: 1) selecionar e aplicar os dados observáveis; 2) interpretar e avaliar as observações; 3) planejar e executar ações pertinentes; 4) e planejar, coletar, analisar e avaliar os dados para averiguar os resultados das ações executadas.
O principal propósito da pesquisa intervencionista, em conformidade com as ideias de Baard (2010), é melhorar a vida e o bem estar da comunidade, através da execução de
intervenções, as quais envolvem o esforço do/a pesquisador/a e do/a participante, que vivenciam o problema e obtêm conhecimentos. No trabalho de campo, a nossa intenção foi aplicar atividades diagnósticas - de forma remota -, para que fosse possível estruturar uma proposta de intervenção aplicável aos anos finais do Ensino Fundamental. A referida proposta oportunizará aos/às envolvidos/as momentos de reflexão acerca das questões de gênero, especialmente em relação aos estereótipos de gênero, os quais poderão resultar em uma mudança no modo como eles/as enxergam a mulher.
Em virtude da pandemia da COVID-19, as atividades diagnósticas foram realizadas de maneira remota, por meio do envio de formulários produzidos no Google Forms17, com links compartilhados via Whatsapp. O objetivo dessas atividades (APÊNDICES D, E, F, G) foi diagnosticar o conhecimento dos/as alunos/as acerca do conceito de gênero, a sua capacidade de reconhecer os estereótipos de gênero e de realizar leituras críticas, assim como os seus posicionamentos em relação às questões de gênero.
As referidas atividades foram encaminhadas como um exercício complementar para os/as participantes da pesquisa, no dia e horário estipulados pela escola para o envio das atividades remotas de Língua Portuguesa (segunda-feira, das 8h às 10h). Foram aplicadas quatro atividades diagnósticas durante o mês de agosto de 2020 (03/08, 17/08, 24/08, 31/08). O procedimento adotado em relação ao envio dos formulários respondidos pelos/as alunos/as foi o mesmo praticado desde o início da pandemia em relação às demais atividades remotas: o formulário ficou aberto, aceitando respostas sem um prazo rígido definido, em virtude das dificuldades apresentadas por alguns/algumas alunos/as para acessá-lo dentro de prazos previamente estipulados.
Tais dificuldades foram identificadas ainda no princípio do processo de ensino remoto, quando verificamos que nem todos/as os/as alunos/as dispunham de acesso à internet e a um computador, smartphone ou tablet a qualquer hora do dia, tecnologias necessárias para o cumprimento das atividades remotas de todas as disciplinas. Verificamos, ainda, no decorrer do encaminhamento das atividades, que muitos/as deles/as utilizavam o aparelho celular de seus pais, de suas mães ou de seus responsáveis legais, o que dificultou a adesão e a permanência nesse sistema de ensino.
Além disso, a maioria dos/as alunos/as da turma não desfrutava de rede sem fios em suas casas (sinal Wi-Fi), utilizando geralmente os dados móveis do aparelho celular, um fato que limitava o acesso às atividades quando o pacote de dados – às vezes diário – chegava ao fim.
17 É um serviço gratuito para criação de formulários on-line.
Desse modo, só procedemos ao fechamento dos formulários - que deveriam ser respondidos e enviados pelos/as alunos/as - quando iniciamos a análise dos dados.
Foi nesse cenário que, no mês de agosto, aplicamos as atividades diagnósticas com os/as participantes da pesquisa. Apesar de não termos conseguido alcançar a totalidade de alunos/as da turma, a investigação foi concretizada de acordo com as possibilidades permitidas pelo momento delicado que vivemos, o qual exigiu de todo mundo (no mundo todo) a adequação e a adaptação a um novo estado normal das coisas.
Imputamos o desinteresse da turma pela pesquisa a todas as dificuldades verificadas pelos/as alunos/as durante o seu caminhar, bem como por motivos de foro íntimo, os quais não chegaram ao nosso conhecimento, mas que certamente influenciaram a evasão, que foi crescendo mês a mês, e cuja comprovação será demonstrada por meio de um quadro apresentado no item 6.1.
A seguir, apresentamos um quadro demonstrativo com o resumo das quatro atividades diagnósticas remotas que subsidiaram a investigação.
ATIVIDA-DE/DATA
TEMA OBJETIVO METODOLO-
GIA
RECURSO
TECNOLÓ-GICO
PRAZO
01 03/08
Gênero e
Estereótipos de gênero.
Diagnosticar a reprodução de estereótipos de gênero pelos alunos e pelas alunas.
Questões de múltipla
escolha.
Google Forms;
Whatsapp;
Internet.
Formulário aceitando respostas até o início da análise de dados.
02 17/08
Gênero e
Estereótipos de gênero
Diagnosticar o entendimento dos alunos e das alunas acerca do conceito de
gênero e de
estereótipos de gênero.
Questões subjetivas.
Google Forms;
Whatsapp;
Internet.
Formulário aceitando respostas até o início da análise de dados.
03 24/08
Estereótipos de gênero
Leitura crítica/
Posicionamento crítico
Diagnosticar a capacidade dos alunos e das alunas de reconhecer os estereótipos de gênero presentes em textos, assim como de realizar leituras críticas e de posicionar-se
criticamente em relação às questões de gênero.
Questões Subjetivas;
Questões argumentativas;
Preenchimento de lacunas.
Google Forms;
Whatsapp;
Internet.
Formulário aceitando respostas até o início da análise de dados.
04 31/08
Estereótipos de gênero
Diagnosticar a capacidade dos alunos e das alunas de
Questões Subjetivas;
Questões
Google Forms;
Whatsapp;
Formulário aceitando respostas
Quadro 6 – Quadro demonstrativo das atividades diagnósticas remotas
Leitura crítica/
Posicionamento crítico
reconhecer os estereótipos de gênero presentes em textos, assim como de realizar leituras críticas e de posicionar-se
criticamente em relação às questões de gênero.
argumentativas. Internet. até o início da análise de dados.
.
A partir das atividades diagnósticas (aplicadas remotamente), foi possível construir uma proposta de intervenção a ser desenvolvida em turmas dos anos finais do Ensino Fundamental - 6º ao 9º anos, observando-se, para isso, o nível de amadurecimento dos alunos e das alunas.