Mapa 2- Municípios que compõem a Microrregião de Guanambi BA
5 EXPERIÊNCIAS SOCIALIZADORAS E DE SOCIABILIDADE DOS
5.3 TRABALHO : CENTRALIDADE NA VIDA DOS JOVENS ESTUDANTES
Eu trabalho de manhã até meio-dia. De tarde, eu venho pra escola. De noite eu tento estudar, mas menino novo quer farrear, quer festa, quer tudo, a í não estuda, né? Aí não estuda. Aí sai pra rua, não tem jeito (SILAS, set.
2014, grifo nosso).
Eu chego do trabalho muito cansado, e aí eu estudo um pouco quando tem prova, mas é pouco porque eu não sou muito de estudar, não (LAIO out.
2014, grifo nosso).
Eu não estudo bastante, eu estudo o básico. O trabalho é puxado (TEO, dez.
2014, grifo nosso).
Eu estudo e trabalho de boa. Às vezes eu tiro notas baixas por outras coisas, mas não por causa do meu trabalho (MARIA LIZ, jan. 2014, grifo nosso).
Nessas narrativas, os jovens pesquisados deixam evidente que a vivência da experiência escolar é permeada pela instância do trabalho. Conforme podemos observar, o trabalho ocupa uma posição de destaque na vida deles em comparação com os estudos. Esses jovens expõem as dificuldades que encontram para conciliar as demandas próprias do estudo e do trabalho.
Como sabemos, a instância socializadora trabalho, assim como as instâncias família e escola, entre outras, vêm apresentando suscetíveis alterações, decorrentes de novas reestruturações produtivas, novas formas de gestão e organização do trabalho e de um acelerado processo tecnológico. Nesse contexto, surge uma juventude constituída por jovens que consideram o trabalho como uma importante dimensão da vida. Para Dayrell (2007, p. 1109), conforme afirma Sposito (2005), “o trabalho também faz a juventude”.
O trabalho desempenha forte influência na relação dos jovens com a escola, apresentando-se, em muitas ocasiões, como uma barreira no processo formativo, ou seja, impactando negativamente na sua escolarização. Importa dizer, contudo que, para uma grande fração desses jovens – provenientes dos setores populares –, a sua condição juvenil só é vivenciada porque trabalham. Como diz Dayrell (2010), por garantir o mínimo de recursos para a diversão e o consumo. Em outras palavras, com o trabalho remunerado passam a ter maior autonomia em relação à família e a oportunidade de vivenciar a própria condição juvenil. Observamos também que, de modo geral, falta aos jovens estudantes o hábito do estudo, uma questão que permeia a relação dos jovens com a escola, independente do item
trabalho, contudo, potencializada frente àqueles que exercem atividades laborais, respeitando as exceções.
Conforme vimos no Capítulo 4, parte significativa dos jovens pesquisados (o correspondente a 64,4%) realiza atividades laborais ou se encontra em busca de emprego. Muitos deles afirmaram ter ingressado precocemente no mercado formal de ocupação e que trabalham para contribuir de alguma forma no sustento da família e para poderem “curtir” a sua juventude. Diante de uma dupla condição (social e econômica), esses jovens passam a vivenciar a condição juvenil enquanto trabalham, tendo em vista a garantia de recursos, mesmo que apertados para o lazer, o namoro ou o consumo (CORROCHANO, 2008) e também para ressaltarem o seu ego e serem vistos como pessoas independentes. Nesse contexto, tomando por base pesquisas realizadas, Dayrell et al. (2013) faz a seguinte advertência:
Não se deve enxergar o trabalho de jovens nesta concomitância com o tempo de escola como uma pura decorrência de necessidade materiais. Eles também buscam o trabalho como um processo de conquista da autonomia frente às suas famílias e como elemento de autoafirmação positiva frente à sociedade (DAYRELL et al., 2013, p. 35).
Em continuação, diríamos que os dados coletados em nossa pesquisa conversam diretamente com os dados nacionais123. Pesquisa da Organização para Cooperação de Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirma que quase metade – 43,7% – dos jovens brasileiros que têm 15 ou 16 anos exercem algum tipo de atividade remunerada antes ou depois da escola. Entre os 70 países pesquisados, o Brasil é o 6º com o maior número de jovens que trabalham.124
Os jovens que se encaixam nessa condição se veem, muitas vezes, impossibilitados de dedicar mais tempo ao estudo, afora o cansaço que sentem quando estão na sala de aula (alguns chegam a cochilar), sobretudo aqueles que estudam no noturno. Muitos desses jovens trabalhadores faltam bastante às aulas e, quando estão presentes, ficam, na maioria das vezes, totalmente perdidos no ambiente escolar. Esses alunos, às vezes, fazem malabarismos: copiam aqui, correm acolá e, em meio a essas tribulações, acabam na fila da reprovação, do abandono ou “passam de ano” sem, muitas vezes, darem conta do processo de aprendizagem, sem desenvolverem conhecimentos e habilidades importantes, inclusive, para
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Lembrando que a maioria dos jovens pesquisados tem de 15 anos a 19 anos de idade.
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o mercado de trabalho. Em alguns momentos, esses jovens entram em confronto direto com os professores porque querem, muitas vezes, burlar orientações dadas por esses docentes.
Frente ao exposto, diríamos que as relações com a escola são “frouxas” e interferem, diretamente, no sentido que estabelecem com a escola. A socialização escolar se resume, em muitas situações, à conclusão do curso, seguida do recebimento do diploma.
Em suas narrativas, os jovens entrevistados – Guila, Laio, Teo – deixam claro que pretendem trabalhar bastante para poderem realizar os sonhos, seguir o seu caminho sem depender, completamente, do apoio financeiro da família. Ressaltam também uma relevante questão ao afirmarem que, pelo trabalho, ampliam as redes de sociabilidade.
Ao serem indagados sobre o trabalho e as funções que desempenham, muitos jovens afirmam que gostam do trabalho que fazem, contudo são mal remunerados e não têm nenhum suporte legal. Alguns dizem ser comerciante, o que, muitas vezes, significa “fazer rolos”, como falamos anteriormente.
Conforme mencionamos, aqueles jovens que buscam conciliar estudo e trabalho apresentam uma tendência para menor rendimento escolar, se comparado com aqueles que só estudam, com algumas exceções. Contudo, alguns dos jovens estudantes, em suas falas, nos permitiram inferir que a relação com o trabalho não se esgota na oposição entre estudo e trabalho. Ao desenvolverem um estudo sobre o que leva os jovens a abandonarem ou a permanecerem na escola, Silva, Pelissari e Steimbach (2013) confirmam que faltam indícios que constatem, como central, a dificuldade dos jovens conciliarem estudo e trabalho.
Dayrell et al. (2013), ao se referirem aos jovens alunos do ensino médio que frequentam as escolas públicas, destacam que grande parte desse público vivencia a juventude aliada a uma situação de pobreza. Vimos a responsabilidade da vida adulta antecipada para esses jovens alunos, quando ainda estão experimentando vivências relacionadas à juventude. Nesse aspecto, nem mesmo a escola pode ser vivida como um espaço em que o jovem pode se dedicar aos estudos, ao lazer, sem ter de trabalhar.